Panorama: Após enchentes, comerciantes de Juiz de Fora se reinventam para recomeçar
No decorrer desses 120 anos, a cidade enfrentou outras tragédias causadas pelas chuvas, a mais recente, em fevereiro de 2026.
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Consulte formatos e valores disponíveis“A enchente continua a produzir damnos incalculaveis.” A frase, publicada pelo jornal O Pharol, descreve o cenário vivido em Juiz de Fora, em 1906.
No decorrer desses 120 anos, a cidade enfrentou outras tragédias causadas pelas chuvas, a mais recente, em fevereiro de 2026. De tempos em tempos, a água invade ruas e lojas, obrigando o comércio, principal setor empregador da cidade, a se reinventar.
Apesar das perdas e do sentimento de tristeza pelo impacto direto nas vendas, os comerciantes mantém pensamento otimista. “Como uma fênix, o ser humano é assim: sempre busca uma forma de se reerguer melhor e mais forte. Não é fácil, mas vamos conseguir”, afirma Ive Cristina de Assis, que também precisou reconstruir o negócio após a tragédia climática.
Na rua Floriano Peixoto, onde fica a franquia de tintas dela e do marido, passado e presente se encontram. Citada pelo jornal O Pharol entre os pontos alagados em 1906, a via voltou a ter o comércio invadido pela água neste ano.
Proprietária de uma loja de tecidos quase centenária, Mounira Haddad Rahme, de 88 anos, também conhece bem o encontro dos panos com a água que ultrapassa o asfalto. Em 1940, diante do estoque encharcado, os familiares caíram no choro.
Foi quando Gattas Bara, comerciante da mesma rua, trouxe uma saída: “Levanta, abre essa porta, anuncia que vão vender pano molhado" A liquidação atraiu clientes, esgotou os tecidos e garantiu dinheiro para renovar o estoque. Anos depois, outra enchente levou a família a repetir a estratégia.
“Não desanima, não. Não desanima. Porque, nessa vida, tudo passa. O bom passa e o ruim passa."
Segundo o Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio - JF), a parte baixa do Centro foi a região comercial mais atingida da cidade. Os impactos neste ano se ramificaram, atingindo também outros pontos como Linhares, Grajaú e Vitorino Braga, na Zona Leste; Santa Luzia, na Zona Sul; e Bairro Industrial, na região Norte.
Na Floriano, três equipamentos de R$ 22 mil cada boiaram dentro da loja de Ive e do marido Márcio Menon de Almeida. Em Ubá, outra unidade do casal, que era recém-inaugurada, foi devastada. Segundo eles, os prejuízos chegaram a quase R$ 300 mil em Juiz de Fora e R$ 800 mil em Ubá.
Sem estoque, o casal encontrou nos clientes uma saída: vender por encomenda, prática mais comum no atacado do que no varejo de tintas.
Na primeira semana, ninguém aceitou esperar pela entrega. Na terceira, a estratégia já funcionava e, segundo Márcio, ajudou a elevar o faturamento em cerca de 20%.
“Quem sustentou a loja, ou quem manteve e mantém até hoje, foram os clientes."
A mudança também veio dos consumidores. Antes interessados principalmente nas cores, muitos passaram a procurar produtos contra infiltrações e danos de novas enchentes. Para proteger o próprio negócio, o casal decidiu mudar para um imóvel mais alto, na mesma Rua Floriano Peixoto, onde pretende instalar comportas contra a entrada da água.
Nem todos, porém, conseguem olhar para o futuro com a mesma confiança. Na Avenida Garibaldi Campinhos, no Vitorino Braga, José Joaquim Gama da Silva, de 56 anos, tenta impedir que a água volte a entrar na loja de autopeças.
Após seis enchentes em 26 anos, construiu uma mureta na entrada e elevou as prateleiras depois das chuvas de fevereiro de 2026. Ele lembra que, em 2018, quase morreu afogado dentro do estabelecimento.
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