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os aplicativos que ‘contabilizam’ hobbies — Entre o estímulo e a competição

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 8 de novembro de 2026 às 08:00
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os aplicativos que ‘contabilizam’ hobbies — Entre o estímulo e a competição
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Priorize VEJA no Google Ler Resumo O fenômeno “hobbymaxxing” transforma o lazer em busca de alta performance nas redes sociais. Inspirados na Grande Depressão e na pandemia, hobbies como corrida e leitura viram competição via apps, incentivando disciplina e troca, mas também gerando pressão e ansiedade. Especialistas alertam para o equilíbrio entre motivação e prazer, essencial para não desvirtuar o propósito original do passatempo. Este resumo foi útil?

Depois da quebra da bolsa de Nova York, que em 1929 fez o mundo mergulhar na Grande Depressão, muita gente se viu desempregada e cercada de incertezas. Um aspecto menos visível do baque, que abalou a sociedade em múltiplas frentes, foi a ascensão de hobbies os mais variados — da costura à jardinagem —, com o objetivo de dar uma aliviada na tensão. Quase um século mais tarde, eles voltaram com tudo na pandemia, quando as pessoas se trancaram em casa e ali desenvolveram, por força das circunstâncias, apreço por culinária, pintura, quebra-cabeças e tantos outros passatempos. O saudável hábito de entreter corpo e mente com atividades capazes de arejar o dia a dia vem ganhando agora novas feições sob o impulso das redes sociais, onde aplicativos de diferentes matizes transformam leituras, idas ao cinema e treinos na academia em uma verdadeira corrida por resultados. O fenômeno de buscar alta performance (e exibi-la) até mesmo ao tecer uma trama de tricô já ganhou até nome: hobbymaxxing.

O que não faltam são aplicativos que tudo contabilizam, comparando o desempenho dos usuários e os situando em rankings. O primeiro a brotar na paisagem da internet foi o Strava, em 2009, voltado para esportes e muito usado por corredores, que à medida que avançam na pista vão sendo informados o quão velozes estão em relação aos demais que cruzaram o mesmo trecho. Em um ano, os adeptos cresceram 80%, segundo a consultoria Sensor Tower. O espírito de competição na veia também se revela na crescente tribo dos bons de garfo, que compartilha experiências à mesa e assinala com todo o orgulho aquelas casas estreladas em que provaram sabores raros e pagaram vultosas contas. No Letterboxd, que já reúne 30 milhões de cinéfilos, os integrantes ostentam o número de filmes vistos ao longo da vida. Detalhe: não vale registrar a mesma película duas vezes.

No conjunto, essas espécies de clubes virtuais podem ter o benéfico efeito de dar uma visão sobre a evolução de cada um, além de estímulo à regularidade na prática das atividades e o reconhecimento de conquistas. Também costumam servir de arena à troca de experiências. Para a médica carioca Lígia de Moraes, 26 anos, que se reveza entre plantões e o esporte, o que começou como puro divertimento virou uma disciplinada preparação para um triatlo, com registro de cada etapa no Strava. “Olhar as métricas me ajuda a enxergar o processo de forma mais ampla e não ficar presa ao resultado de um único treino ruim”, diz. Mas, quando a comparação com os outros vira objeto de pressão excessiva, ela deixa o aplicativo de lado e corre ao sabor do vento — liberdade que cobra lá seu preço. “Dá uma dorzinha não postar”, admite.

Como tudo que envolve exagero, às vezes a aferição incessante do resultado pode adicionar cobrança e ansiedade ao que deveria proporcionar apenas prazer. “Se o foco da atividade é a pontuação e o olhar alheio, ela deixa de ser algo que você quer fazer para se converter em um dever”, alerta o psicólogo Michael Inzlicht, da Universidade de Toronto. Uma recente pesquisa entre jovens da geração Z no Reino Unido contém um dado perturbador: 47% afirmam chegar ao ponto de escolher o que fazer no tempo livre baseados na imagem que vão projetar nas redes. “Existe um perigo na ideia de termos que performar desde o instante em que abrimos os olhos”, observa o antropólogo Bernardo Conde.

Integrante da turma afeita às métricas, a profissional de marketing Eduarda Ramos, 22 anos, aderiu ao GymRats, aplicativo frequentado pelos “ratos de academia”, que os desafia e os compara na malhação. “Me cobro evoluir o tempo todo”, reconhece ela, que computa no app cada levantada de peso e flexão, batente que entremeia com um eclético leque de passatempos — pilates, costura, desenho e leitura. O ideal é manter o equilíbrio, já vastamente estudado pela neurociência, entre a busca por recompensa, que faz disparar no cérebro a dopamina, neurotransmissor ligado à motivação, e a presença de substâncias químicas como os opioides, associados ao prazer. Não é trivial chegar lá. “O problema não está na planilha ou na meta, mas na relação que construímos com essas coisas”, diz o psicanalista Artur Costa, da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica.

Às vezes, de tão focada nos números, a pessoa nem se dá conta de que está subtraindo a leveza que, afinal, define um hobby. Leitora voraz, a estudante Ana Luiza de Souza, 19 anos, vivia às voltas com a marca de cinquenta títulos por ano, que conseguiu manter até entrar na faculdade, em 2025, e a rotina ficar mais atribulada. Usuária do Goodreads, ela, que até então acompanhava com obsessão a contagem, se frustrou ao ver sua estatística minguar. “Eu ficava mal por não ter tempo de cumprir o planejado”, diz Ana Luiza, que, aos poucos, foi tirando o peso da planilha virtual e passou a travar relação mais saudável com o smartphone. “Não podemos ter culpa nem a sensação de estar sempre devendo, porque aí é um sinal de que o lazer perdeu sua função”, diz a especialista em saúde mental Mariana Rae. Dito isso, de volta à contagem.

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