o que esperar do governo Lula 4 — Da virada inédita ao desafio da governabilidade
O inédito quarto mandato fará de Lula o presidente que mais tempo terá governado o Brasil desde a redemocratização, somados os períodos no cargo.

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Consulte formatos e valores disponíveisA reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rendeu ao atual presidente o direito de governar o país por mais quatro anos e um punhado de marcas históricas. O inédito quarto mandato fará de Lula o presidente que mais tempo terá governado o Brasil desde a redemocratização, somados os períodos no cargo.
A primeira virada de um candidato em 2º turno foi alcançada com uma arrancada que envolveu atos de rua e força nas redes sociais e que terminou em uma votação recorde, de 64 milhões de votos. A vitória encerrou uma das disputas mais acirradas da história recente, mas não resolveu o problema de como transformar a força das urnas em capacidade de governar.
Do lado adversário, a derrota inaugurou uma semana caótica para Flávio Bolsonaro (PL). O ex-candidato foi intimado a entregar seus passaportes, fugiu para os Estados Unidos e divulgou uma carta de teor golpista afirmando falsamente ser o “presidente eleito”, recuando 40 minutos depois. A reviravolta de Flávio ainda surte efeitos entre aliados e deve embaralhar o jogo no campo da direita, que terá maioria no Congresso a partir de 2027.
Centenas de milhares lotaram a Avenida Paulista para celebrar vitória de Lula A consagração de Lula também inaugurou um período de desafios para o presidente reeleito. O quarto mandato deve ter desafios nas contas públicas, pressão do mercado e um Congresso ainda mais à direita do que o enfrentado na gestão atual. A conjuntura vai testar a habilidade de diálogo e articulação de Lula para conseguir garantir governabilidade, segurança institucional e, de quebra, realizar muitas das promessas feitas no afã da campanha eleitoral.
Na reta final da campanha, Lula prometeu o fim definitivo das bets, a implantação do transporte coletivo gratuito aos fins de semana, repasses do programa Pé-de-Meia para universitários e apoio a Microempreendedores Individuais (MEIs). No discurso de vitória, acrescentou à pauta a comunicação nas redes sociais, a regulamentação das big techs, mulheres e idosos. Diante de um Congresso que não deve dar vida fácil às propostas da gestão federal, qual deve ser o tom do governo Lula 4?
A deputada federal reeleita Ana Paula Lima (PT), segunda mais votada de SC, acredita que a proibição das bets, a manutenção e ampliação das políticas sociais e as medidas na área da segurança pública, que deve ganhar um ministério próprio, devem ser algumas das marcas do governo Lula 4, que ela espera ser o melhor dos mandatos do petista. Na avaliação da parlamentar, o perfil mais à direita do Congresso não deve ser um empecilho.
“Nesta composição do Congresso que eu também estou vivenciando agora [legislatura que termina em fevereiro de 2027] também não tivemos a maioria de parlamentares que eram favoráveis ao governo. Como é um governo que dialoga bastante, e o presidente Lula tem boa articulação política com parlamentares e presidentes de partidos, não tenho dúvida de que vamos fazer uma composição e vamos ter possibilidade de governar mais tranquilamente”, avalia.
O governo deve ter como alguns dos desafios a gestão das contas públicas. Nos dias seguintes à vitória, a bolsa teve queda e o dólar subiu, pela frustração do resultado e a falta de uma indicação clara de ajuste fiscal no plano petista. Outro tema sensível deve ser a segurança pública. Lula prometeu a criação de um ministério específico para essa área em caso de aprovação da PEC em discussão no Senado, e tem como principais dificuldades o combate a facções criminosas e ao controle de territórios.
O cientista político Tiago Daher Padovezi Borges, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pondera que as agendas do governo Lula 4 devem depender da relação com o Congresso, mas devem garantir espaço para agendas específicas.
“Algumas bandeiras de cunho social, no sentido de atender grupos mais vulneráveis [devem sair do papel]. O governo Lula é marcado por essa agenda em alguns aspectos e você teve uma eleição muito intensa do ponto de vista de campanha, com grupos organizados, então eu acho que o Lula vai sinalizar para alguns tipos de agenda, para políticas que agradem os grupos o apoiaram”, avalia.
Os primeiros desafios de Lula devem envolver a disputa pelas mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado. A tarefa já teve os primeiros passos no dia seguinte à vitória, quando Lula posou sorridente para fotos ao lado de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e Hugo Motta (Republicanos-PB). Alcolumbre contribuiu com a arrancada de Lula ao pautar o fim da escala 6×1 para o intervalo entre o 1º e o 2º turno, garantindo a aprovação de uma das bandeiras de campanha petistas.
O gesto deve garantir um apoio do governo à candidatura de Alcolumbre à reeleição à presidência do Senado, em fevereiro de 2027. Antes da vitória de Lula, nomes bolsonaristas como Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) vinham sendo especulados como possíveis favoritos à mesa diretora, em função do alto número de senadores bolsonaristas eleitos no início de outubro.
Na Câmara, Hugo Motta também pode ter uma candidatura à reeleição apoiada por Lula. O PT já declarou apoio, isolando os deputados do PL. O apoio à recondução dos atuais presidentes das Casas é a estratégia para tentar garantir governabilidade, diante de um parlamento majoritariamente de direita.
O cientista político Tiago Daher Padovezi Borges acredita que a oposição deve impor dificuldades ao governo para aprovar projetos, especialmente no início da legislatura, quando deve querer “mostrar serviço”, mas que aos poucos o governo pode equilibrar o jogo.
“De certo modo o quadro é de composição. Uma opção possível é a formação de um ministério que abarque alguns partidos do Centro. O PSD do Kassab já teve liberação para formação de ministérios. Isso pode viabilizar a governabilidade. Não com facilidade, mas vai ter uma aproximação do governo com partidos que não sejam o PL. A tendência é que alguns partidos do Centro, os menos alinhados à oposição, possam se aproximar do governo”, avalia.
Um segundo desafio de Lula além de governar perante um Congresso de direita e um bolsonarismo ainda forte nas urnas será a tentativa de eleger o sucessor nas eleições de 2030. Criticado à direita e à esquerda por não ter escolhido um herdeiro político direto, Lula não poderá mais concorrer à Presidência e precisará oferecer sua bênção para algum nome do campo da centro-esquerda daqui a quatro anos.
Lula nunca deu sinais claros de quem poderia ser o escolhido, mas nas bancas de apostas petistas não faltam hipóteses, como Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Guilherme Boulos Simone Tebet e, mais recentemente, os coordenadores da campanha do 2º turno Camilo Santana e Rafael Fonteles. A escolha deve passar pela vontade de Lula, mas pode ter sinais dados já na formação do governo.
“Esse debate já começou e não é possível de ser adiado. Vai haver uma eleição local daqui a dois anos, municipal, e alguns nomes podem aparecer para ser viabilizados. A escolha dos ministros também vai levar isso em conta, porque é uma questão complicada. É difícil em qualquer lugar do mundo a questão da sucessão, e com um líder que possivelmente é um dos principais líderes populares do mundo, não é uma sucessão simples”, analisa.
O apogeu de Lula sacramentado com a virada inédita fortaleceu ainda mais a imagem do presidente reeleito como um líder mundial. A vitória foi celebrada por líderes da esquerda como Pedro Sanchez, presidente da Espanha, e Cláudia Sheinbaum, do México, e reconhecida até por chefes de estado de direita, como os dos países vizinhos da América Latina. Apenas o argentino Javier Milei não havia felicitado o petista pelo triunfo até o meio da semana. O resultado pode até mesmo servir de inspiração à esquerda de outros países em eleições próximas, em um contexto atual de ascensão da direita pelo mundo.
“Isso tem impacto porque é um elemento simbólico importante da política a vitória de um líder tal como Lula numa democracia com muitos votos, um país continental. Eu acho que o Lula é um tipo de líder que tem a sua importância simbólica para a esquerda mais potencializada pela eleição do último domingo, portanto acho que isso pode influenciar simbolicamente, no sentido de ver algumas cenas de líderes fazendo o L, que marcou a eleição. Esse tipo de efeito simbólico não é desprezível, é simbólico, para as esquerdas que estão sofrendo com reveses eleitorais, com fortalecimento de direitas na Europa e na América”, afirma Padovezi Borges.
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