o brasileiro que chegou aos 14 anos aos EUA e hoje faz leis para proteger imigrantes — De Timbaúba a Massachusetts
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Consulte formatos e valores disponíveisPriorize VEJA no Google Aos 14 anos, Danillo Sena deixou Timbaúba, no interior de Pernambuco, e se mudou para os Estados Unidos com a mãe. Levou dezessete anos para se tornar cidadão americano. Hoje, é representante do 37º distrito de Middlesex, em Massachusetts, e está prestes a iniciar seu quinto mandato na Câmara dos Representantes do estado. Primeiro imigrante brasileiro eleito para a legislatura estadual, Sena construiu a carreira política em torno de temas que conheceu de perto: a imigração e os acessos que os imigrantes que vivem nos Estados Unidos têm aos serviços públicos.
A relação com a política começou ainda na adolescência. Durante o ensino médio, em Massachusetts, ele conheceu o então deputado estadual Jamie Eldridge, com quem passou a conversar sobre projetos de lei e políticas educacionais. Também participou de mobilizações em Washington em defesa de uma reforma migratória e do DREAM Act ( Development, Relief, and Education for Alien Minors Act, tradução: Lei de Desenvolvimento, Assistência e Educação para Menores Estrangeiros), iniciativa que buscava oferecer proteção a jovens imigrantes levados aos Estados Unidos ainda crianças. Depois de estudar Ciências Políticas na Universidade de Massachusetts Amherst, Sena foi trabalhar no gabinete de Eldridge, primeiro como estagiário e, posteriormente, como diretor distrital.
Foram seis anos no gabinete do senador, período em que acompanhou demandas de moradores sobre moradia, seguro-saúde, assistência alimentar e acesso a serviços públicos. Também ajudava imigrantes a encontrar representação jurídica. Em 2020, quando a então deputada Jen Benson deixou a cadeira que ocupava, uma eleição especial foi convocada. Sena disputou a vaga e chegou à Câmara estadual.
A experiência de quem precisou construir a própria vida em outro país aparece com frequência em sua atuação parlamentar. Sena conta que nunca se sentiu discriminado nos Estados Unidos, mas reconhece que as leis migratórias podem impor obstáculos severos a quem vive no país sem documentação regular — e acredita que isso se intensificou nos últimos anos. Essa percepção ganhou outro peso com a política de deportações adotada pelo governo Donald Trump em seus dois mandatos.
“Isso me deixou muito triste”, afirmou, em entrevista a VEJA, ao comentar as prisões de imigrantes que vivem e trabalham nos Estados Unidos, muitos deles com filhos nascidos no país. Segundo o deputado, seu gabinete produziu cartas de apoio para moradores do distrito ameaçados de deportação que não tinham antecedentes criminais. Em Massachusetts, ele também participou da articulação de uma verba de 5 milhões de dólares para auxiliar imigrantes em processos judiciais relacionados à situação migratória.
Sena critica especialmente a atuação de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Ele relata que, em determinado período, agentes passaram a usar máscaras para esconder o rosto durante operações de fiscalização e prisão. A situação levou parlamentares estaduais a discutir uma proposta para obrigá-los a se identificar. “Às vezes quebravam o vidro dos carros das pessoas para poder prender. Eu acho isso muito desnecessário”, ponderou.
O deputado também menciona duas iniciativas aprovadas em Massachusetts que são conquistas para toda a população imigrante. Uma delas é a Work and Family Mobility Act, que entrou em vigor em 2023 e permitiu a pessoas sem status migratório regular solicitar carteira de motorista sem precisar comprovar sua situação documental. A outra é a Protect Act, voltada ao acolhimento de imigrantes em locais considerados sensíveis, como escolas, hospitais, instituições religiosas e tribunais, restringindo a atuação de agentes migratórios nesses espaços no estado em que ele é deputado.
Aos 40 anos, Sena se define como brasileiro e estadunidense. Chegou aos Estados Unidos em 2001, acompanhado da mãe, Eronides. O pai e o irmão permaneceram no Brasil. A cidadania americana veio apenas em 2018, depois de quase duas décadas de vida no país. “Eu me sinto em casa quando estou no Brasil, eu me sinto em casa quando estou aqui”, afirmou.
Ele vive em Acton, no mesmo estado em que construiu sua trajetória política, e que tem presença expressiva de brasileiros. Entretanto, Sena afirma que a maioria de seus eleitores não é imigrante. Sena foi escolhido por um eleitorado mais amplo, formado por cidadãos de diferentes origens.
“O distrito que eu represento é o 37º de Middlesex e reúne seis cidades: Acton, Boxborough, Harvard, Ayer, Shirley e Groton. Há brasileiros por aqui, mas a maioria dos eleitores que me elegeu é formada por cidadãos americanos. Os Estados Unidos têm uma diversidade muito grande, com pessoas de diferentes partes do mundo, e acho isso muito bonito”, explicou em entrevista a VEJA.
A relação com o Brasil também aparece em sua agenda política. O deputado conta que tem um bom trânsito político com o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), que conheceu durante uma palestra em Harvard, e com o irmão dele e deputado federal, Pedro Campos (PSB-PE), que recentemente fez uma visita à Assembleia de Massachusetts — não por coincidência, os três são pernambucanos. Danillo quer aproximar os dois países em discussões sobre políticas públicas, especialmente em áreas como saúde, educação e moradia.
Ao comentar a relação entre Lula e Trump, Sena afirma que os dois países historicamente mantiveram boas relações diplomáticas, mas reconhece que as tarifas comerciais impostas pelo presidente norte-americano afetaram esse vínculo. “O que eu quero é que a gente trabalhe unido, que os dois países cresçam juntos e consigam colaborar e manter uma relação diplomática boa”, afirmou.
No novo mandato, Sena pretende concentrar esforços em questões que afetam diretamente o orçamento das famílias. A primeira delas é o custo da moradia, que considera elevado em Massachusetts. Outra prioridade é ampliar o acesso à saúde e reduzir despesas com medicamentos, especialmente para a população idosa.
O deputado também quer avançar em políticas de educação infantil. Nos Estados Unidos, a escolarização pública começa, segundo Sena, em geral, aos cinco anos, e o custo de creches e serviços de cuidado para crianças menores pode representar um peso significativo para as famílias. Para ele, ampliar o financiamento público dessas estruturas permitiria que mais pais e mães trabalhassem sem precisar abrir mão do cuidado dos filhos.
Há ainda uma proposta relacionada à qualidade da água de poços artesianos. O parlamentar quer estabelecer a obrigatoriedade de testes quando um imóvel com esse tipo de abastecimento for vendido, para que o novo proprietário saiba se a água está própria para consumo. A medida, segundo ele, ajudaria a prevenir problemas de saúde provocados por contaminação do solo.
Apesar de estar prestes a completar cinco mandatos, Sena afirma que não tem planos imediatos de disputar um cargo mais alto. Diz que se sente útil na posição que ocupa, com a possibilidade de apresentar projetos e trabalhar pela aprovação de propostas de outros parlamentares. Há, inclusive, um limite constitucional para suas ambições: a Presidência dos Estados Unidos é reservada a cidadãos natos, condição que ele não preenche por ter nascido no Brasil. Por enquanto, sua prioridade é permanecer na Câmara estadual. “Eu me sinto bastante útil, com influência na Câmara para a gente passar certos projetos de lei que vão beneficiar a nossa comunidade”, afirmou.
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