'O Brasil teve queda na nossa polarização', diz analista dos EUA sobre eleições
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Consulte formatos e valores disponíveis'O Brasil caiu na nossa polarização', diz analista dos EUA sobre eleições Brian Winter é vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas e editor-chefe da revista Americas Quarterly Brian Winter é vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas e editor-chefe da revista Americas Quarterly (Brian Winter/Arquivo Pessoal)
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 06h01 .
Priorizar nos meus resultados Google "O Brasil caiu na nossa polarização", diz Brian Winter, um dos maiores estudiosos do nosso país nos Estados Unidos, ao fazer um paralelo entre as eleições presidenciais de domingo e as chamadas 'midterms' americanas, a votação que vai definir a nova composição do Congresso em Washington e que tanto preocupa Donald Trump.
Winter é vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas e editor-chefe da revista Americas Quarterly. É considerado um dos principais analistas para América Latina pela Foreign Affairs, a mais importante revista sobre relações internacionais.
Brian afirma que a curiosidade pela região cresceu nos últimos anos. "Estou há 26 anos trabalhando com América Latina, primeiro como jornalista e agora como analista e editor e eu nunca vi tanto interesse em Washington sobre as eleições na América Latina como houve em 2026", diz Winter.
Estamos passando por um momento delicado no Brasil: crise no STF, escândalo de Daniel Vorcaro, uma eleição polarizada. Como você enxerga a resiliência das instituições democráticas do Brasil nesse cenário?
É uma pergunta simples, mas sem uma resposta simples. O contexto mudou. Todos os nossos países vêm enfrentando desafios institucionais ao longo dos últimos anos.
No caso brasileiro, o essencial da democracia parece estar bastante firme, medido pela capacidade de fazer eleições livres e justas e de fazer uma eventual transição de poder. Isso não é o único sinal de uma democracia saudável, mas é um deles. Por outro lado, não tem como negar que o que aconteceu, e o que vai provavelmente acontecer, com o STF, representa um desafio grave.
O Brasil não me preocupa tanto quanto alguns outros países da região, mas há motivos para preocupação. Não são de hoje e não correspondem a um lado ou outro.
Estamos também em um momento delicado nas relações entre Brasília e Washington. Como você acha que o resultado das urnas no domingo vai poder redefinir ou manter essa dinâmica? O que podemos esperar de impactos para essa relação de acordo com quem vencer?
Isso é mais fácil de responder. Se o Flávio se eleger, ele vai ter uma relação muito positiva com Washington e com a Casa Branca, pelo menos para os próximos dois anos . Depois dos dois anos, vamos ver.
Mas vai acontecer uma certa sincronização ideológica de pautas. Esses anos têm sido marcados, como é bem conhecido já, por um giro para a direita na América Latina. A verdade é que em alguns casos parece que o presidente Trump não liga muito. Mas Trump conhece a família Bolsonaro. Pode ter certeza disso. O Jair Bolsonaro foi um dos muito poucos "fellow travelers" ideológicos durante o primeiro mandato.
O presidente Trump gostou disso por motivos geopolíticos e também acho que de ego, ele (Trump) gosta de ter líderes que batem continência para ele e para a bandeira americana. Então, se for o Flávio, acho que vai ter consequências concretas como a participação brasileira no Escudo das Américas e a inclusão em outros fóruns. Se o Lula prevalecer, eu também apostaria numa certa recomposição parcial da relação bilateral.
Os últimos quinze meses criaram estragos que são impossíveis de serem reparados totalmente, mas há interesse de ambos os lados numa certa conciliação porque existe muito dinheiro entre os dois países.
O comércio bilateral é muito grande, o investimento também. Mas acho que, talvez mais como pessoa física, o Lula gostaria de fechar a janela e não ter que lidar mais com o presidente Trump. Mas ele sabe que não pode, que criaria um grande prejuízo para empresas brasileiras e eventualmente uma pressão para ele. No contexto global, o Brasil é um país, a nível popular, bastante pró-americano.
A eleição no Brasil é marcada pelo debate sobre uma possível interferência dos Estados Unidos na disputa. Como você enxerga isso?
Eu acredito que a interferência mais óbvia foi o tarifaço do ano passado e também o uso da lei Magnitsky, que tinha objetivos claramente políticos. Ninguém nega, não tem como negar que foi uma tentativa de influenciar ou interferir no processo judicial e eleitoral no Brasil.
Agora, o governo Trump recuou quando entendeu que não ia dar certo, que não estava dando certo, que estava produzindo o efeito contrário .
Mas o presidente Trump deixou passar a oportunidade quando foi perguntado diretamente por um jornalista se ele queria endossar o Flávio e desconversou. Acho que o recado chegou: o de que se ele queria ajudar o Flávio, a melhor coisa era manter um certo silêncio.
Sendo Lula o escolhido ou Flávio Bolsonaro...qual é na sua visão a melhor estratégia para lidar com um presidente como Donald Trump?
São duas estratégias totalmente diferentes. Com o Flávio, haverá várias oportunidades. Por exemplo, a participação no Brasil no Escudo das Américas eu acho quase uma certeza .
Agora, se os Estados Unidos pedirem uma participação direta de tropas americanas em solo brasileiro, essa é uma questão sensível, até para a família Bolsonaro. Porque o Brasil não é Honduras, nem Colômbia. Tem outra história. Eu acho que, em Washington, os assessores do Trump sabem disso.
Com o Lula, eu também acho que vai ter uma oportunidade com a chegada de um novo embaixador. Será uma forma de tentar recompor um pouco a relação, reconhecendo que não vai ser totalmente recomposta porque algumas cicatrizes ficarão.
Há muitos anos, o Brasil fica em uma "corda bamba" para equilibrar a relação com os Estados Unidos e com a China. Na visão atual de Washington, considerando que o Flávio pode virar presidente, existe uma margem de Washington para tolerar esse pragmatismo com a China? Ou essa corda está esticando cada vez mais e o recado será: "ou você escolhe os Estados Unidos ou a China"?
Há um debate permanente em Washington sobre essa questão, o quanto pressionar os aliados na nova direita sobre a questão chinesa. Não houve uma conclusão ainda. A rivalidade com a China é uma prioridade, mas não é a primeira prioridade e acho que nem a segunda nas relações bilaterais.
Acho que pesam muito mais questões como imigração, a chamada guerra contra as drogas, a busca de aliados ideológicos, ou seja, da extrema-direita, e também a busca de recursos naturais como terras raras e minerais críticos.
Na prática, baseado nas ações de Washington, eu acho que só depois dessas prioridades vem a concorrência com a China. Como evidência disso, eu citaria a Argentina como primeiro exemplo.
Se a China realmente for a primeira prioridade, haveria uma relação muito mais delicada com o Javier Milei. Eu sei que é um tema de debate dentro do Departamento de Estado, e em outras áreas do governo, há pessoas que gostariam de ver uma pressão muito mais firme sobre países como Argentina, o Brasil, e o Peru.
Mas, por enquanto, acho que está claro que há outros interesses e outras prioridades que estão prevalecendo.
Você citou a questão das terras raras e minerais críticos. Há um debate muito grande sobre isso aqui no Brasil, sobre se o Flávio Bolsonaro chegar à presidência, se ele vai entregar isso de bandeja para os Estados Unidos. Na sua visão, isso seria um trunfo para a negociação com Trump?
O Brasil tem um desafio com a questão das terras raras. O país tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas até agora não conseguiu fazer uma exploração expressiva desses recursos, que ficaram no solo.
O Brasil vai precisar de financiamento e know-how externo para poder aproveitar esses recursos. O governo Lula entende isso. Com certeza, o governo do Flávio Bolsonaro procuraria mais cooperação e financiamento dos Estados Unidos, comparado com o Lula.
Mas acho que com qualquer um dos governos haveria uma participação importante dos americanos . Até porque é uma das poucas áreas onde os chineses não vão ajudar porque eles têm recursos próprios.
Eles (chineses) são competidores do Brasil nessa área e é um pouco por isso que não chegou investimento chinês para essa questão até agora. O Brasil tem alternativas, poderia trabalhar com a Europa, Oriente Médio. Se o governo Lula quiser fechar as portas para os Estados Unidos, talvez consiga, mas teria que avaliar, depois da eleição, se é a melhor coisa para para a economia brasileira e para o desenvolvimento do país.
Assim como o Brasil, os Estados Unidos passam agora por um momento decisivo, a menos de duas semanas das eleições de meio de mandato. Mesmo com os olhos voltados para essa disputa, qual a sua avaliação sobre o nível de atenção dos tomadores de decisão em Washington em relação às urnas no Brasil?
O Brasil caiu na nossa polarização aqui. Há interesse de ambos lados, demonstrações de apoio de figuras como Bernie Sanders ou o prefeito aqui em Nova York. Houve também carta que veio de vários legisladores democratas há algumas semanas pedindo o fim da chamada intervenção do governo Trump.
Do outro lado, a causa brasileira tem sido uma causa bastante cara à família Trump, e também a alguns assessores como Steve Bannon, Jason Miller, e outros que têm interesse no Brasil.
De forma geral, há um interesse na América Latina. Estou há 26 anos trabalhando com América Latina, primeiro como jornalista e agora como analista e editor e eu nunca vi tanto interesse em Washington sobre as eleições na América Latina como houve em 2026.
Começando com a captura do Nicolás Maduro, mas também por outros temas, entre as eleições brasileiras e outras eleições, para ver se a chamada "Onda Laranja" continuaria em outros países da região, como Colômbia e Peru e Costa Rica, como efetivamente aconteceu.
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