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Gêmeas idênticas têm resultados diferentes em avaliação de cotas em concurso da autoridades policiais Civil do ES

Natália Mendes Ferreira foi considerada inapta na etapa de heteroidentificação, enquanto a irmã idêntica, Naiara Mendes Ferreira, foi aprovada.

Por Redatores da Empire Cidades 30 de outubro de 2026 às 07:00
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Gêmeas idênticas têm resultados diferentes em avaliação de cotas em concurso da autoridades policiais Civil do ES
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Gêmeas Natália Mendes Ferreira e Naiara Mendes Ferreira tiveram resultados diferentes em avaliação de cotas em concurso da Polícia Civil do Espírito Santo — Foto: Arquivo pessoal

Gêmeas idênticas que se autodeclaram negras tiveram resultados diferentes na avaliação de cotas raciais do concurso para o cargo de Oficial Investigador de Polícia, da Polícia Civil do Espírito Santo. Natália Mendes Ferreira foi considerada inapta na etapa de heteroidentificação, enquanto a irmã idêntica, Naiara Mendes Ferreira, foi aprovada.

O resultado preliminar foi divulgado em 27 de outubro, cerca de dez dias depois da avaliação presencial. As irmãs, que nasceram em Vitória e moram em Vila Velha, na Grande Vitória, afirmam que já haviam passado por procedimentos de heteroidentificação em outras seleções e foram pegas de surpresa pelo resultado.

"A minha irmã mandou mensagem falando: 'Natália, não chora, você está inapta'. Fui, abri o site e vi que realmente era isso. Primeiro, eu achei que pudesse ser um erro de digitação, depois um erro de critério da banca, mas foi um choque! E, então, comecei a ver muita gente no grupo dos candidatos na rede social que também foram considerados inaptos. Pessoas visivelmente negras", falou Natália.

A candidata já entrou com um pedido de recurso e está esperançosa com a possibilidade de reverter o resultado.

"Ter a minha irmã aprovada me conforta de certa forma, estou confiante. Eu acho que o meu recurso é o mais simples de todos. Além de eu não ter dúvidas de que eu sou uma pessoa negra, tem uma cópia minha lá!", disse Natália.

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A lista preliminar do concurso registra 201 candidatos considerados inaptos na heteroidentificação, sendo 200 entre os inscritos que se declararam negros ou pardos e um entre os candidatos indígenas. Outros 377 foram considerados aptos, enquanto 51 constam como ausentes.

Os números foram contabilizados a partir da relação publicada no edital, que reúne 629 registros.

Natália e Naiara foram chamadas para a avaliação no mesmo dia e horário, mas passaram por bancas diferentes. Natália foi encaminhada à banca 1, enquanto Naiara passou pela banca 2. Estavam com roupas na mesma tonalidade e ambas sem maquiagem.

Segundo Natália, o procedimento consistiu em ficar em uma marcação no chão diante de uma câmera, informar nome, CPF, número de inscrição no concurso e fazer a sua autodeclaração, no seu caso, se identificou como negra, sem perguntas ou comentários da banca sobre suas características físicas.

A candidata contou que chegou ao local por volta das 15h, uma hora antes do agendamento, que estava previsto entre 16h e 17h. Ela só foi liberada às 20h45, depois de enfrentar uma longa fila de espera.

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Natália disse que nunca havia tido problemas em avaliações desse tipo. Ela e a irmã já foram aprovadas na etapa de heteroidentificação de outros concursos e provas, como a da Polícia Penal em 2025.

“Quando eu vi o resultado, eu já achei que minha irmã fosse passar, porque a gente é idêntica. Algumas pessoas até confundem a gente, justamente por a gente ter características muito parecidas”, relatou a irmã Naiara.

O resultado também surpreendeu Gilson de Oliveira Faria, de 27 anos, do Rio de Janeiro. Ele foi considerado inapto na mesma etapa após passar pela mesma banca que Natália e pretende pedir a revisão.

Gilson de Oliveira Faria, de 27 anos, é do Rio de Janeiro e foi considerado inapto em etapa de avaliação para cotas de concurso da Polícia Civil do Espírito Santo — Foto: Arquivo pessoal

Gilson trabalhou por três anos na Guarda Municipal de São Paulo após ser aprovado em um concurso organizado pelo mesmo instituto responsável pelo certame da Polícia Civil capixaba.

“Em São Paulo, foi diferente. Quando me inscrevi no concurso eu coloquei uma foto e com essa foto fui identifcado como negro, nem precisei ser chamado para uma etapa posterior presencial. Apenas onde houve dúvida os candidatos foram chamados. No meu caso, só com a minha foto ficou comprovado que eu sou negro”, contou.

Na etapa realizada no Espírito Santo, Gilson contou que, assim como as gêmeas, ficou diante de uma banca formada por cinco pessoas, informou seus dados e declarou que se identificava como negro.

O candidato afirmou que estava confiante na aprovação e já fazia planos para mudar de estado. Ele também iria tentar entrar com um recurso para reverter o resultado.

“Saí da sala com a certeza de que eu havia passado, mas agora percebi que não era tão simples assim. Deixei minha vaga em São Paulo por causa da expectativa de passar nesse concurso. Passei pelas primeira fases, já foi assinado até um contrato com o local onde vai haver o curso de formação. Para mim estava tudo certo, nunca imaginei que essa etapa fosse ser um problema, eu já estava procurando apartamento no Espírito Santo”.

Gilson contou que dirversos colegas estão reclamando dos resultados e lamentando a impossibilidade de continuar na disputa.

“Com a negativa, eu tenho nota para concorrer na ampla concorrência. Longe da primeira turma como seria com a cota, mas ainda consigo permanecer. Mas tem candidatos que vão sair do concurso, não vão poder aproveitar nada. Eu fui prejudicado, mas tem pessoas que vão ser ainda mais”, avaliou.

“Critérios de avaliação são bons, mas precisam ser cumpridos”

A advogada Jéssica Wanzeller, especialista em direito antidiscriminatório, reforçou que a heteroidentificação é o procedimento utilizado para verificar se a pessoa apresenta características fenotípicas compatíveis com a autodeclaração racial feita para concorrer às vagas reservadas.

“As cotas existem para diminuir as desigualdades sociais, eu vou preencher essas vagas por aquela pessoa que fisicamente vai passar por descriminação na sociedade. A avaliação considera características físicas perceptíveis, como cor da pele, textura do cabelo e traços faciais, e não a ascendência familiar. Não tem entrevista verbal. O certame tem que ser responsável por essa neutralidade, tanto da banca como da forma de preparar o local da avaliação, com as cores do ambiente e luz escolhidas. A subjetividade é o maior gargalo de uma banca de heteroidentificação”.

Para a advogada, a diferença de resultado entre gêmeas idênticas é uma situação que merece atenção, considerando os documentos e os procedimentos adotados pela banca.

A especialista também ressaltou a importância de os critérios previstos serem aplicados de maneira adequada na hora de se montar uma banca de avaliação de heteroidentificação, especialmente, considerando a diversidade e a vivência de cada um.

"É preciso que os avaliadores representem uma diversidade, negro, branco, mulher, homem e que sejam ideologias diferentes, que estejam preparados para os desafios que vão encontrar, com os devidos cursos e letramento racial. Então, a gente tem que ver se essas pessoas estão sendo eleitas e por onde passaram para atender as exigências. Os critérios são bons, mas precisam ser cumpridos”, disse.

Em resposta à reportagem, o Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo (Ibade), responsável pela organização do concurso, informou que a avaliação seguiu as regras previstas no edital.

Segundo a empresa, as análises foram individuais, realizadas por bancas com cinco integrantes e registradas em vídeo.

O prazo para pedir revisão do resultado preliminar da heteroidentificação começou às 8h de 28 de outubro e terminou às 23h59 desta quinta-feira (29), no horário de Brasília. O pedido deve ser feito na área do candidato no site da organizadora.

Mesmo questionado, o instituto não explicou quais foram os critérios considerados com Natalia e Naiara que pudessem justificar a diferença de avaliação e não disponibilizou para o g1 o vídeo gravado com as duas diante da banca no dia 17 de outubro.

Também não respondeu quantas pessoas compunham as bancas responsáveis pela avaliação de heteroidentificação e se haviam pessoas negras.

A Polícia Civil também foi procurada e informou apenas que a etapa de heteroidentificação é de responsabilidade exclusiva do Ibade.

684 vagas para ampla concorrência; 210 vagas reservadas a candidatos negros; 105 vagas para pessoas com deficiência; 53 vagas para candidatos indígenas.

A prova objetiva foi aplicada em fevereiro de 2026. Depois, os candidatos passaram pelo teste de aptidão física, exames de saúde e avaliação psicológica. A heteroidentificação ocorreu em outubro, paralelamente à investigação social.

O resultado final do concurso está previsto para 11 de novembro, conforme o cronograma informado na apuração.

#Vitória#Belém#Polícia
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