Fique por dentro: Quanto vale a floresta em pé? A aposta bilionária dos créditos de carbono
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Consulte formatos e valores disponíveisPriorize VEJA no Google Ler Resumo A ZEG, em parceria com um produtor rural em Roraima, preserva 14.000 hectares de Floresta Amazônica na Fazenda Vale Verde, desviando-a da derrubada para soja. O projeto gera créditos de carbono, evitando 4 milhões de toneladas de CO2. A iniciativa combate o desmatamento, usa tecnologia para proteger a mata e busca restaurar a credibilidade do mercado de carbono. Uma aposta na lucratividade da floresta em pé. Este resumo foi útil?
Entre a margem do Rio Branco, em Roraima, e uma área recentemente desmatada, onde sobraram só algumas castanheiras chamuscadas pelo fogo, encontra-se um pedaço de Floresta Amazônica virgem que ocupa 14 000 hectares, o equivalente ao tamanho do município de Niterói, no Rio de Janeiro. Esse oásis de mata compreende a Fazenda Vale Verde, comprada três anos atrás por um grande produtor rural que veio de Goiás para avançar sobre uma das últimas fronteiras de cultivo de soja na Amazônia. Seu plano era derrubar quase a metade da mata, conforme permitido em lei, para dar lugar à lavoura. Mas uma proposta de conservação florestal para a venda de crédito de carbono feita pela ZEG, do grupo da comercializadora de energia Capitale, com sede em São Paulo, o fez mudar de ideia.
Pelo acordo, o sojicultor Ademar Bedin cedeu o uso da terra para a empresa de conservação por quarenta anos. Em contrapartida, a ZEG faz todo o investimento em tecnologia, infraestrutura e pessoal para proteger a vegetação. Esse arranjo contratual permitirá evitar a emissão de mais de 4 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, de 2025 a 2065, nos 6 000 hectares que teriam sido desmatados para dar lugar à produção agrícola. Carbono equivalente é uma forma de expressar o impacto de diferentes gases de efeito estufa em uma mesma unidade, comparando seus efeitos aos do CO2.
Projetos como o da ZEG pretendem transformar em receita a opção por preservar a floresta e empurrar a agropecuária para áreas já abertas, mas sem uso. Calculadas e verificadas, as emissões evitadas podem gerar créditos, cada um correspondente a 1 tonelada de carbono equivalente. Empresas que se comprometeram a minimizar o impacto de suas atividades no clima compram esses créditos para compensar suas emissões. No mercado voluntário, alvo inicial da ZEG, elas fazem isso para demonstrar a clientes e investidores sua preocupação ambiental, não por obrigação legal. Há também créditos pela retirada de carbono da atmosfera — por exemplo, por meio do plantio de árvores. Conservar evita a liberação de carbono, restaurar permite absorvê-lo.
Não basta, porém, ter as árvores de pé para vender créditos de conservação. É preciso demonstrar que elas corriam risco de desaparecer e que o projeto muda esse destino, requisito chamado de adicionalidade. Em Roraima, essa pressão é real e ganhou impulso em 2022, quando o estado usou uma exceção prevista no Código Florestal para reduzir para 50% a Reserva Legal, a proporção de uma propriedade que deve ser preservada (o padrão geral para florestas na Amazônia é de 80%). Com isso, em 2024, Roraima foi o único estado da região com alta na perda de cobertura florestal, um aumento de 53% em relação ao ano anterior. É justamente em uma fronteira de devastação como essa que projetos como o da ZEG fazem mais sentido. “Ao desenvolver projetos de carbono robustos nas bordas da floresta, estamos protegendo também a imensidão mais remota no coração da Amazônia”, diz Carlos Jacob, presidente da ZEG, cujo plano para Roraima, chamado de Vale do Rio Branco, compreende toda a área do estado — 30% do total — em que a Reserva Legal foi reduzida para 50%. A ideia é, a partir da Vale Verde, ir adicionando áreas para conservação.
A tecnologia é uma grande aliada no trabalho de proteção da floresta. Na Vale Verde, uma torre de 60 metros sustenta uma câmera que gira 360 graus a cada três minutos e, com inteligência artificial, identifica fumaça em um raio de 20 quilômetros, permitindo acionar brigadas contra incêndio. Outras câmeras, em solo, registram animais. Um levantamento identificou 28 espécies de mamíferos, entre elas onça-pintada e anta, e mais de 200 espécies de aves. A floresta também precisa sustentar quem vive dela. Em agosto, a ZEG firmou uma parceria com uma associação de castanheiros locais. Eles têm acesso à mata para pegar as castanhas-do-pará e recebem apoio com equipamentos e para encontrar compradores para a produção. Estima-se que existam cerca de 20 000 castanheiras na Vale Verde.
O projeto da ZEG em Roraima pertence à categoria REDD+, sigla para redução de emissões por desmatamento e degradação florestal. O mecanismo, que remunera a proteção da mata e de seu estoque de carbono, busca superar uma crise de confiança. Em janeiro de 2023, uma investigação do jornal britânico The Guardian apontou que a maior parte dos créditos de conservação dos projetos analisados era ilusória, sem benefício climático real. O mercado de carbono entrou, desde então, em uma fase de crise de credibilidade. A reação incluiu regras mais rígidas e avaliações independentes de risco. Projetos como o da ZEG procuram garantir um padrão de qualidade capaz de superar a desconfiança dos compradores. Neste ano, o Vale do Rio Branco recebeu a nota AA da britânica BeZero Carbon, concedida antes da emissão dos créditos. Além da adicionalidade, a agência de rating ambiental examina a capacidade de manter o carbono protegido ao longo do tempo; a contabilização, para que os créditos correspondam às emissões efetivamente evitadas; e a capacidade de execução. Trata-se do primeiro projeto de desmatamento evitado a receber a nota.
Por um tempo, os compradores preferiam projetos de restauração florestal, nos quais o benefício real para a compensação de emissões de poluentes parecia mais fácil de comprovar. Mas o interesse por créditos de conservação está retornando. “Com as metodologias novas dos projetos REDD+, as empresas começam a montar portfólios de compensação de emissões que combinam os dois modelos, restauração e conservação”, diz Fernando Visser, diretor de desenvolvimento de negócios e tecnologia da re.green, uma das principais empresas de restauração florestal do Brasil. Os preços, porém, separam as duas estratégias para a obtenção de créditos de carbono. Plínio Ribeiro, cofundador da Silva, empresa de insumos para reflorestamento, estima em 10 dólares o valor pago por crédito de conservação com selo de integridade. Em junho passado, a Petrobras fez um leilão para a compra de créditos de restauração ecológica na Amazônia e foram contratados 5 milhões de toneladas de CO2 equivalente, ao preço médio de 59 dólares. A diferença para o valor dos créditos de conservação se explica porque o investimento para o plantio é mais alto. “Além disso, não é porque se plantou uma floresta que sua permanência está garantida. Ela precisa dos mesmos cuidados de proteção da floresta que já está em pé”, diz Ribeiro.
Visser estima uma remuneração de 800 a 1 500 reais por hectare ao ano para quem cede parte de sua propriedade para a restauração. O valor é uma média para um projeto de cinquenta anos, período em que a floresta pode gerar créditos. A conservação paga menos, mas aproveita uma floresta existente, sem o custo de plantar e esperar que ela cresça. O importante é que, onde há possibilidade de exploração por atividades econômicas tradicionais, o pagamento pela restauração ou pela conservação seja atraente. Na fronteira da Fazenda Vale Verde, uma estrada estadual recém-aberta para escoar a produção agropecuária passa rente à propriedade, e os vizinhos abrem áreas cada vez mais perto, enquanto a floresta conservada desponta imponente em resistência ao avanço da soja e do gado. A aposta é que ela consiga se mostrar tão lucrativa em pé quanto derrubada.
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