Fique por dentro: ONDAS DE CALOR E POLUIÇÃO DO AR PODEM ELEVAR EM ATÉ 40,4% AS CHANCES DE AVC EM IDOSOS, APONTA PESQUISA DA USP.
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Consulte formatos e valores disponíveisEstudo identifica uma associação preocupante entre temperaturas extremas, poluição atmosférica e aumento do risco de acidente vascular cerebral em pessoas com 65 anos ou mais.
As mudanças nas condições climáticas e a intensificação dos episódios de calor extremo acendem um importante alerta para a saúde pública, especialmente entre a população idosa. Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou uma associação entre a ocorrência de ondas de calor e o aumento das chances de acidente vascular cerebral (AVC) em pessoas com 65 anos ou mais. O levantamento também aponta que essa relação se torna consideravelmente mais expressiva quando as altas temperaturas estão acompanhadas de níveis elevados de poluição atmosférica.
Os resultados preliminares foram apresentados pela professora Alessandra Carvalho Goulart, da Faculdade de Medicina da USP, durante a Fapesp Week Países Baixos. As informações foram divulgadas pela Agência Fapesp e trazem novos elementos para o debate sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde da população, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis às condições ambientais extremas.
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a diferença observada entre os cenários analisados. Para a investigação, foram consideradas ondas de calor os períodos caracterizados por pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas iguais ou superiores a 33,1 °C.
Na análise que considerou exclusivamente a exposição ao calor, os pesquisadores identificaram um aumento de 12,1% nas chances de ocorrência de AVC por dia adicional de exposição às condições de temperatura extrema. Entretanto, quando a investigação incorporou a interação entre o calor e a presença de partículas inaláveis na atmosfera, conhecidas como PM10, o percentual de aumento chegou a 40,4%.
O resultado evidencia a importância de considerar não apenas a temperatura, mas também a qualidade do ar na avaliação dos riscos ambientais à saúde. É importante destacar que os percentuais apresentados representam aumentos relativos nas chances calculadas pelo modelo estatístico, e não significam que essa proporção de idosos necessariamente sofrerá um AVC.
De acordo com a pesquisadora Alessandra Carvalho Goulart, existem mecanismos fisiológicos que ajudam a explicar por que a exposição prolongada a temperaturas elevadas pode representar uma ameaça adicional à saúde cardiovascular e cerebral.
Um dos principais fatores envolvidos é a desidratação. Durante períodos de calor intenso, o organismo perde líquidos por meio da transpiração, especialmente quando não há reposição adequada de água. Essa perda pode provocar uma redução do volume de líquido presente no sangue, favorecendo seu espessamento e interferindo nas condições necessárias para uma circulação sanguínea adequada.
Além disso, a exposição a temperaturas extremas exige um esforço maior dos mecanismos responsáveis pela regulação térmica do organismo. O sistema cardiovascular precisa trabalhar para ajudar a dissipar o calor corporal, provocando alterações na circulação e na pressão arterial.
Em pessoas idosas, esses efeitos merecem atenção especial, uma vez que o envelhecimento pode reduzir a capacidade do organismo de responder rapidamente às mudanças ambientais. A combinação de desidratação, alterações circulatórias e exposição à poluição atmosférica pode representar uma sobrecarga adicional para o sistema cardiovascular.
Outro ponto relevante da investigação é a participação das partículas PM10, presentes na poluição do ar. Esses materiais particulados podem ser liberados por diferentes fontes, como emissões de veículos, atividades industriais, queimadas e outras formas de combustão.
Quando inaladas, essas partículas podem provocar processos inflamatórios e contribuir para alterações no funcionamento do sistema cardiovascular. Em ambientes urbanos, onde a concentração de poluentes pode aumentar em determinados períodos, a combinação entre temperaturas elevadas e baixa qualidade do ar merece atenção das autoridades sanitárias.
A associação identificada pela pesquisa reforça a necessidade de compreender o calor extremo e a poluição como fatores ambientais que podem atuar conjuntamente sobre a saúde humana.
Não se trata, portanto, de observar apenas os recordes de temperatura registrados pelos termômetros. A qualidade do ar, as condições de moradia, o acesso à água, a presença de áreas verdes e a capacidade de proteção das populações vulneráveis também precisam integrar as estratégias de prevenção.
Diante dos resultados, a proteção da população idosa precisa ocupar um espaço importante nas políticas de prevenção e assistência à saúde. Durante períodos de calor intenso, medidas simples podem contribuir para reduzir a exposição a condições ambientais desfavoráveis.
Manter uma hidratação adequada, evitar atividades físicas intensas nos horários de temperaturas mais elevadas, procurar ambientes ventilados e reduzir a exposição prolongada ao sol estão entre os cuidados recomendados.
Também é importante que familiares e cuidadores acompanhem especialmente os idosos que vivem sozinhos, apresentam limitações de mobilidade ou dependem de outras pessoas para realizar atividades cotidianas.
Sinais como fraqueza súbita, dificuldade para falar, alteração repentina da visão, perda de equilíbrio e assimetria facial podem indicar um AVC. Diante de qualquer suspeita, é fundamental procurar atendimento de emergência imediatamente, acionando o SAMU pelo telefone 192.
Na avaliação da professora Alessandra Carvalho Goulart, a proteção da saúde cerebral da população idosa não pode depender exclusivamente de cuidados individuais. É necessário integrar a prevenção cardiovascular às políticas públicas de adaptação climática e melhoria da qualidade ambiental nas cidades.
A ampliação de áreas verdes, a arborização urbana, a criação de espaços públicos sombreados, o controle das emissões de poluentes e o desenvolvimento de estratégias de alerta para ondas de calor são algumas das iniciativas que podem contribuir para reduzir a exposição da população aos riscos ambientais.
Os resultados preliminares da pesquisa da USP acrescentam uma dimensão importante à discussão sobre os efeitos das mudanças climáticas: além dos impactos ambientais e econômicos, as temperaturas extremas podem representar um desafio crescente para os sistemas de saúde.
O estudo também reforça a necessidade de aprofundar as investigações sobre a interação entre calor, poluição atmosférica e doenças cardiovasculares, especialmente em uma sociedade que passa por um acelerado processo de envelhecimento.
Mais do que um alerta sobre os dias de temperaturas elevadas, a pesquisa coloca em evidência uma questão fundamental: preparar as cidades para enfrentar os extremos climáticos também significa proteger vidas, preservar a saúde cerebral e garantir melhores condições de envelhecimento para milhões de pessoas.
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