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Consulte formatos e valores disponíveisApresentado por SISTEMA TRANSPORTE A nova rota para descarbonizar o transporte no Brasil Projetos que integram infraestrutura, energia e diferentes modais ganham espaço como alternativa para reduzir emissões e acelerar a transição energética do setor Corredores verdes: projetos no Brasil buscam viabilizar o transporte de cargas com menos emissões (SISTEMA TRANSPORTE/Divulgação)
Publicado em 21 de outubro de 2026 às 19h46 .
Última atualização em 21 de outubro de 2026 às 19h48 .
Priorizar nos meus resultados Google A transição energética do transporte brasileiro enfrenta um impasse. De um lado, as empresas são cobradas para investir em veículos e tecnologias menos poluentes. Do outro, fornecedores de energia e operadores de infraestrutura dependem de uma demanda consistente para justificar novos investimentos. Sem uma das partes, a outra dificilmente avança.
Uma das alternativas para superar esse desafio é a criação de corredores verdes , rotas estruturadas para viabilizar a circulação de veículos menos poluentes, com acesso à infraestrutura de abastecimento ou recarga necessária.
Para Vinicius Ladeira, diretor adjunto nacional do SEST SENAT, iniciativas desse tipo podem ajudar a aproximar transportadoras, fornecedores de energia e operadores de infraestrutura, criando condições para acelerar a descarbonização do setor.
E isso vai muito além da instalação de pontos de recarga ou abastecimento nas rodovias. Empresas e poder público precisam atuar em conjunto, diz Ladeira. Enquanto as transportadoras investem em novos veículos e fornecedores de energia instalam a infraestrutura necessária para abastecê-los, o poder público pode contribuir no planejamento das rotas, na definição de regras e na criação de incentivos para atrair investimentos.
O Boletim de Logística sobre Corredores Verdes do Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL) defende a importância dessas iniciativas. Para a organização, os corredores verdes podem ajudar a reduzir emissões e aumentar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas . O desafio para a instituição é tirar um projeto como esse do papel, especialmente em um país com dimensões continentais como o Brasil.
O primeiro passo para tirar um corredor verde do papel é identificar onde ele pode funcionar. Isso significa escolher rotas com circulação frequente de caminhões e demanda suficiente para justificar os investimentos em abastecimento ou recarga. O planejamento também precisa considerar as distâncias percorridas, os tipos de carga, a disponibilidade regional de energia e a conexão com ferrovias, portos e outros meios de transporte.
Um exemplo está no interior de São Paulo. Em 7 de outubro, a O projeto conta com financiamento de R$ 140 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com recursos do Fundo Clima. A iniciativa prevê pontos de abastecimento de biometano ao longo do trajeto, que também poderão ser utilizados por outras transportadoras.
A empresa pretende colocar em operação 100 caminhões da Scania movidos a biometano até dezembro de 2026 . Os veículos terão autonomia de até 700 quilômetros, com combustível fornecido pela Ultragaz.
A disponibilidade de abastecimento ao longo da rota dá mais segurança às transportadoras para investir em veículos menos poluentes. Ao mesmo tempo, a circulação regular desses caminhões ajuda a garantir demanda para os fornecedores de energia.
Segundo Ladeira, que também é líder do projeto Transporte na COP31, um dos principais desafios é fazer esses investimentos avançarem juntos. “As transportadoras não investem em novos veículos porque falta infraestrutura de abastecimento. Já os fornecedores de energia não ampliam essa infraestrutura porque ainda não há frota suficiente para justificar o investimento”, explica.
A eletrificação do transporte de cargas também começa a ganhar espaço nesse modelo. Apresentado durante a COP30, em Belém, o projeto Laneshift e-Dutra pretende ampliar a circulação de caminhões elétricos na Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. A meta é chegar a mil viagens diárias desses veículos até 2030 .
Em novembro de 2025, um caminhão elétrico da Volkswagen percorreu cerca de 800 quilômetros entre Resende (RJ) e Sorocaba (SP), utilizando pontos de recarga já existentes. O teste permitiu avaliar as condições de operação e identificar onde serão necessários novos investimentos.
Nos dois casos, a expansão depende de combinar infraestrutura e demanda em trajetos específicos. Com pontos de abastecimento ou recarga disponíveis e empresas dispostas a utilizar os veículos, os corredores podem crescer sem depender da transformação de toda a malha rodoviária de uma só vez.
A expansão dos corredores verdes, porém, não significa que uma única tecnologia será capaz de atender todo o setor.
As necessidades de um ônibus urbano, por exemplo, são diferentes das de um caminhão de longa distância, assim como as condições de uma ferrovia não se confundem com as de um porto ou aeroporto. Na distribuição urbana, veículos elétricos podem encontrar condições mais favoráveis de operação, especialmente quando retornam diariamente a uma base para recarga. Já no transporte rodoviário pesado de longa distância, autonomia, tempo de recarga e disponibilidade de infraestrutura ainda representam barreiras relevantes.
A localização também influencia as decisões. Em regiões com produção e oferta de biometano , o combustível pode representar uma alternativa para determinadas operações. Em outras, soluções diferentes podem apresentar maior viabilidade técnica e econômica.
Essa diversidade exige planejamento individualizado , levando em conta custos, disponibilidade energética e características da operação.
O mesmo raciocínio se aplica aos demais modais. Na navegação, corredores verdes podem conectar portos preparados para receber embarcações com combustíveis alternativos. Na aviação, a disponibilidade de combustíveis sustentáveis depende de uma cadeia de produção, distribuição e abastecimento capaz de atender às necessidades do setor.
A integração entre os modais também é parte da estratégia. A utilização de ferrovias e hidrovias em trajetos adequados, combinada ao transporte rodoviário nas etapas de distribuição, pode contribuir para reduzir custos logísticos e emissões.
Para Ladeira, o reequilíbrio da matriz de transportes é uma das prioridades do setor. A proposta é ampliar a participação de outros modais nas operações em que apresentam maior eficiência.
A discussão também avança fora do Brasil. Um relatório da Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico (ESCAP) aponta que a implementação de corredores verdes depende da integração entre infraestrutura, tecnologia, políticas públicas e cooperação entre empresas.
Segundo o documento, as emissões do transporte de cargas representam 55% das emissões de CO₂ associadas ao setor de transportes na região da Ásia e do Pacífico. Desse total, 87% estão relacionados ao transporte rodoviário de cargas .
No Brasil, o transporte rodoviário concentra 92,9% das emissões de gases de efeito estufa do setor , segundo o Inventário CNT de Emissões de Gases do Efeito Estufa do Setor de Transporte, publicado em 2025, com dados de 2023. Os caminhões, sozinhos, respondem por 34% das emissões de todo o setor de transporte , o que reforça a importância de alternativas para reduzir o impacto ambiental do transporte de cargas.
Para enfrentar esse cenário, a comissão recomenda ampliar a participação de ferrovias e hidrovias, desenvolver terminais intermodais e utilizar tecnologias digitais para melhorar o planejamento das operações. Entre as medidas estão a consolidação de cargas, a otimização de rotas e o compartilhamento de infraestrutura.
A experiência internacional mostra que a redução de emissões não depende exclusivamente da substituição de combustíveis. Melhorar a utilização dos veículos, diminuir deslocamentos desnecessários e facilitar a transferência de mercadorias entre diferentes modais também pode trazer ganhos ambientais e econômicos.
Na Europa, a Rede Transeuropeia de Transportes (TEN-T) é uma referência de integração logística. No transporte marítimo, iniciativas internacionais buscam estruturar rotas entre portos com infraestrutura e condições operacionais para a adoção de combustíveis de menor emissão.
Esses exemplos reforçam a importância de uma estratégia que envolva toda a cadeia logística, desde os produtores de energia até as empresas responsáveis pelo destino final das mercadorias.
Apesar do potencial, a implementação dos corredores verdes enfrenta obstáculos financeiros, tecnológicos e regulatórios. A instalação de infraestrutura exige capital, enquanto a renovação das frotas depende de condições de financiamento e previsibilidade sobre os custos operacionais.
O estudo do ONTL aponta que, além da infraestrutura física, esses projetos precisam de sistemas digitais de gestão, incentivos regulatórios e colaboração entre diferentes setores. A ausência de coordenação pode comprometer a expansão das iniciativas.
Para Ladeira, o financiamento é um dos principais entraves à descarbonização do transporte brasileiro. Mas a decisão de investir também depende da capacidade de identificar oportunidades de negócios.
Essa relação ganha importância à medida que empresas de diferentes setores passam a considerar as emissões associadas às suas cadeias de suprimentos. Para uma indústria ou varejista, contratar uma operação logística de menor emissão pode contribuir para reduzir o impacto ambiental de suas atividades.
Nesse contexto, o Sistema Transporte , formado pela CNT, pelo SEST SENAT e pelo ITL, busca contribuir com estudos técnicos, qualificação profissional e articulação entre empresas, governo e instituições de pesquisa.
“A gente funciona como um articulador. O nosso papel é muito de articulação entre poder público, iniciativa privada, academia, conhecimento técnico”, diz Ladeira.
A discussão deve ganhar espaço na COP31, conferência climática das Nações Unidas. A agenda internacional representa uma oportunidade para discutir financiamento, compartilhar experiências e ampliar a participação brasileira na construção de soluções para o setor.
Para Ladeira, o país precisa considerar suas próprias características, como as dimensões continentais, a diversidade das operações logísticas e a disponibilidade regional de diferentes fontes de energia.
O desafio, portanto, não é apenas construir corredores verdes, mas criar condições para que eles funcionem e se expandam. Isso exige alinhar investimentos, infraestrutura e demanda, sem perder de vista a eficiência logística.
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