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Entenda: Sem título

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 21 de outubro de 2026 às 21:10
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de Despejo". ( 05.06.1960. Imagem: Acervo UH/Folhapress Títulos comprados:

No dia 20 de maio de 1958, Carolina escreveu: "Como é horrível ver um filho comer e perguntar: 'tem mais?' Esta palavra 'tem mais' fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais".

Eu havia escutado esse trecho do livro pela manhã enquanto dirigia, coincidentemente pelas redondezas do bairro onde existia a favela em que ela viveu quando escreveu essa nota.

Ainda pensava nessa frase horas depois, sentado à mesa de casa almoçando com minha filha depois que ela chegou da escola. Ela comia arroz, filé de frango e, com muito custo, a porção diária de salada, com tomate, alface, pepino e milho. Bebemos água gelada e depois comemos um quadradinho de chocolate e uma colher de doce de leite. Enquanto eu pensava que o milho não estava tão saboroso desta vez, lembrei de Carolina Maria de Jesus anotando em seu diário que fez sopa de ossos para seus filhos. Ossos que conseguiu, com insistência, como doação de um frigorífico onde fazia fila com outras pessoas para pedir sobras.

"Quarto de Despejo" (Ática e Supersônica), seu livro escrito em formato de diário, traz relatos que vão de 1955 a 1960. Me peguei naquelas páginas e, com exceção dos nomes dos políticos que ela cita e que ajudam a datar as passagens, é chocante notar que a realidade das pessoas mais pobres em nosso país não mudou muito desde então. Ao longo dos últimos setenta anos, quantas coisas aconteceram e mudaram no mundo? A expansão das viagens aéreas, a popularização da telefonia móvel, carros elétricos, a internet, as descobertas da medicina. Enviamos seres humanos para o espaço, erguemos cidades inteiras para acomodar com conforto as classes média e alta que viram suas vidas serem transformadas pela tecnologia. No entanto, a vida de quem é pobre daquele jeito continua igual. A miséria que Carolina Maria de Jesus descreve não é diferente de como vivem pessoas na mesma situação hoje.

Quando discutimos política, especialmente quando discutimos política em um contexto como o desta semana, as vozes do debate público gostam de teorizar sobre os pobres e destilar toda sua compreensão sobre como resolver seus problemas com essa ou aquela equação macroeconômica. Nas reuniões familiares e grupos de WhatsApp, enchemos a boca para debater o valor concreto de programas assistenciais e criamos alegorias banais sobre oferecer limões, dar varas e ensinar a pescar e fazer limonadas. Nada disso dá conta do problema urgente, da pergunta insistente e dolorosa que é não saber se haverá comida no jantar.

No dia 10 de maio de 1958, ela anotou: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças".

Seu livro oferece uma perspectiva que eu jamais seria capaz de adquirir. E talvez seja a leitura oportuna - a leitura necessária, eu diria - para qualquer tempo, mas em especial para este em que nos encaminhamos para escolher nas urnas entre duas visões tão distintas de país.

"Mas eu já observei os nossos políticos. Para observá-los fui na Assembleia. A sucursal do Purgatório, porque a matriz é a sede do Serviço Social, no palácio do Governo. Foi lá que eu vi ranger de dentes. Vi os pobres sair chorando. E as lágrimas dos pobres comove os poetas. Não comove os poetas de salão. Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajedias que os políticos representam em relação ao povo."

Foi sem intenção que, na outra ponta, li "Outono: 1" (Companhia das Letras) do norueguês Karl Ove Knausgård, uma coleção de ensaios breves em que o autor discorre sobre o cotidiano a partir das cenas, objetos e experiências que nomeiam cada um dos capítulos, como verbetes sobre os quais divaga. Vivendo em um dos países mais ricos do mundo, seus dilemas cotidianos soam como ofensa ao dia a dia de Carolina Maria de Jesus. Um capítulo é todo dedicado a árvores e sobre como as árvores ilustram a paisagem e como tem um salgueiro que se movimenta em seu quintal com o vento nas tardes da Escandinávia. E eu tive que ir ao Google para lembrar como é um salgueiro e tive que lidar com o fato de que minha rotina, tão perto geograficamente da rotina de Carolina, é estranhamente tão semelhante à de um norueguês cinquentão trabalhando em casa e escrevendo cartas para sua filha que ainda vai nascer.

O livro, pelo formato, me agrada mais do que a escrita de "A Morte do Pai" (também da Companhia das Letras e único volume da saga Minha Luta que li até agora). A observação minuciosa de algumas coisas — como no capítulo "Vaso sanitário", por exemplo — se torna quase filosófica. E mesmo nesses detalhes, mesmo na distância de seis décadas, dez mil quilômetros e dez vezes a renda mensal, há semelhanças. No cuidar dos filhos, na rotina, no encantamento com a natureza ("Tem dia que eu invejo a vida das aves", escreveu Carolina) e em contemplar o céu em busca de algum tipo de elevação. O céu é um só, lá e aqui.

Por aqui, é primavera, mas tem chovido e feito frio nesses dias. Os tempos estão estranhos. Há sombras que se projetam sobre toda a cidade nos finais de dia e riscos que tornam incerto o futuro que enfrentaremos. Mas há também um fio de sol que invade a sala de vez em quando, uma fresta de esperança que se forma no horizonte para dizer que amanhã um novo dia vai florescer.

(Se quiser continuar a conversa, me escreva. Estou no Instagram, no Substack e no LinkedIn).

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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