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Consulte formatos e valores disponíveisVocê provavelmente viu o BTS em todos os lugares nos últimos dias. Entre shows históricos e uma mobilização de fãs capaz de articular até mesmo um encontro com o presidente Lula, o grupo sul-coreano é a ponta de lança de um fenômeno sem precedentes.
O que talvez passe despercebido é a dimensão estatística desse sucesso: o catálogo do BTS no Spotify ultrapassou a marca de 50 bilhões de audições. O número quase equivale à soma de reproduções do Nirvana, dos Beatles e da Madonna juntos.
Nada disso é fruto do acaso. Existe uma inteligência mercadológica poderosíssima operando as engrenagens do K-pop, uma indústria que transformou a Coreia do Sul —um país com território equivalente ao do estado de Pernambuco— em uma potência cultural global.
Stray Kids foi headliner do palco Mundo do Rock in Rio em setembro Imagem: Divulgação A invasão da onda coreana Para entender o K-pop, é preciso ir além dos fones de ouvido. A música pop sul-coreana acumula mais de 70 recordes no Guinness Book e tem liderado uma invasão cultural sistemática. Nos últimos anos, grupos como Stray Kids, Katseye e Riize não apenas lotaram estádios brasileiros, mas também dominaram a grade da televisão nacional.
Os reflexos dessa expansão são sentidos em múltiplas indústrias. No Brasil, o coreano é atualmente o idioma que mais cresce na plataforma Duolingo. O setor de turismo também colhe os frutos: a Organização do Turismo da Coreia identificou o mercado brasileiro como o de maior crescimento na América Latina em interesse por viagens ao país asiático.
Até mesmo a indústria do alto luxo precisou se curvar aos "idols" (como são chamados os membros desses grupos). Hoje, cada integrante do BTS e grandes nomes de bandas como Blackpink e Stray Kids ostentam o título de embaixadores globais de marcas como Gucci, Louis Vuitton, Dior, Tiffany, Chanel e Cartier. Faz sentido comercial: o mercado global de K-pop é avaliado em cerca de US$ 10 bilhões.
A primeira geração do K-pop despontou em 1992. Desde então, a indústria refinou seu método de criação de estrelas. O processo, conduzido por gigantescas agências de entretenimento, está muito mais próximo de um treinamento olímpico do que da formação orgânica de uma banda de garagem.
A engrenagem começa com um planejamento de conceito: o mercado precisa de um grupo masculino ou feminino? Com quantos membros? A partir daí, audições reúnem milhares de jovens. Os aprovados, chamados de trainees, passam a morar, comer e ensaiar juntos, em jornadas que frequentemente ultrapassam 12 horas diárias.
Esse treinamento rigoroso engloba canto, dança, idiomas e comportamento midiático, e pode durar até dez anos antes da estreia oficial, o aguardado debut.
No entanto, a busca incessante pela perfeição tem seu preço. A saúde mental dos "idols" é uma crise velada. As agências exercem controle ferrenho sobre o que os artistas vestem, falam e postam, além de estipularem cláusulas restritivas sobre relacionamentos amorosos e até consumo calórico. Joon Park, por exemplo, revelou no documentário "K-Pop Evolution" ter sido expulso de seu grupo aos 30 anos de idade simplesmente por começar a namorar.
Jennie, Jisoo, Lisa e Rosé são as integrantes do grupo Blackpink Imagem: INSTAGRAM/@BLACKPINKOFFICIAL/REPRODUÇÃO O poder (e a pressão) dos fandoms Apesar do pragmatismo corporativo das agências, o coração do K-pop bate na devoção de seus fãs. Ser fã, antes de tudo, é uma experiência emocional coletiva.
Cada grupo possui um fandom com nome e identidade próprios. O "ARMY", como são conhecidos os fãs do BTS, é o exemplo definitivo de mobilização moderna. Eles não apenas organizam mutirões digitais para colocar seus artistas no topo das paradas, como também articulam campanhas de doação de sangue e mobilizações políticas, a exemplo do incentivo ao voto jovem nas eleições.
Contudo, essa relação parassocial —o laço psicológico unilateral com a celebridade, intensamente fomentado pelas agências— pode ultrapassar limites. Quando a "idol" Karina, do grupo aespa, anunciou um relacionamento com o ator Lee Jae-wook, enfrentou protestos agressivos. Fãs alugaram painéis eletrônicos exigindo desculpas, ameaçando boicotar a venda de álbuns. Poucas semanas depois, o casal rompeu, e Karina publicou uma carta de desculpas escrita à mão.
O episódio gerou debates dentro da própria comunidade, com muitos fãs, especialmente brasileiros, criticando a exigência de reciprocidade afetiva que aprisiona a vida pessoal dos artistas.
A sede global por conteúdo sul-coreano continua longe de ser saciada. As produções ganham cada vez mais complexidade visual e coreográfica, e o Brasil figura como um dos protagonistas dessa recepção. Nos recentes shows do BTS em São Paulo, mais de 250 mil pessoas estiveram presentes, enquanto o sistema de bilheteria registrou quase 2 milhões de acessos na fila de espera virtual.
A influência asiática promete cifras ainda maiores. Um relatório de 2025 da McKinsey estima que o impacto econômico da cultura pop asiática no Brasil poderá ultrapassar os US$ 2 bilhões até 2028. Quando se soma o K-pop aos k-dramas, à k-beauty e à gastronomia, o cenário é evidente: a Coreia do Sul conseguiu exportar sua identidade de forma definitiva. E, ao que tudo indica, esse reinado está apenas começando.
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