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Consulte formatos e valores disponíveisA Juul foi obrigada a pagar US$ 462 milhões em acordo judicial após acusações de incentivar o uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes nos EUA.
Compartilhar window.uolads.push({ id:"banner-728x90-categorias-1"}); Os esforços para combater a desinformação sobre saúde geralmente se concentram em identificar afirmações falsas — como a de que uma vacina supostamente altera o DNA ou a de que uma dieta “cura” o câncer — e desmenti-las com dados científicos.
Embora essa estratégia seja necessária, as evidências mostradas por pesquisas nos últimos anos demonstram que, sozinha, ela é insuficiente.
As informações falsas não circulam isoladamente. Elas fazem parte de um complexo ecossistema social e digital que as produz, amplifica e sustenta. E esse ecossistema não pode ser desmontado apenas com checagens de fatos.
Em uma revisão da literatura científica sobre o tema, identificamos que a desinformação em saúde se concentra em algumas áreas especialmente sensíveis para a saúde pública.
Entre elas estão as vacinas, o tabaco e as drogas, doenças como o câncer, pandemias, transtornos alimentares e tratamentos “milagrosos”.
Em algumas plataformas de redes sociais, a proporção de conteúdos enganosos pode ser muito elevada, como ocorre com as informações sobre novos produtos derivados do tabaco.
O exemplo dos cigarros eletrônicos Juul, nos Estados Unidos, é ilustrativo.
Sua estética voltada ao público jovem e sua forte presença nas redes sociais foram associadas a estratégias de marketing e informações enganosas sobre a nicotina e a segurança dos produtos, até que o caso chegou aos tribunais.
Em 2023, a empresa concordou em pagar US$ 462 milhões após ser acusada de contribuir para o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes.
Além de identificar e quantificar os conteúdos falsos, compreender a desinformação em saúde exige explicar por que determinadas mensagens alcançam grande repercussão e influência social, enquanto outras quase não encontram espaço.
Para isso, é necessário prestar atenção ao contexto social e digital em que essas mensagens são produzidas, circulam e são compartilhadas.
Tanto na vida cotidiana quanto no próprio meio científico, tendemos a julgar as informações como verdadeiras ou falsas. No entanto, essa visão binária simplifica excessivamente um fenômeno muito mais complexo.
Após analisar e sintetizar centenas de estudos, nossa equipe propôs compreender a desinformação em saúde como um sistema formado por várias partes que interagem entre si.
Essas partes incluem as fontes que produzem as mensagens, os interesses políticos, econômicos ou psicológicos por trás delas, as características do próprio conteúdo, os canais e plataformas pelos quais circulam e os públicos que as recebem e compartilham.
Cada uma dessas partes influencia as demais e, direta ou indiretamente, condiciona nossos comportamentos e nossa relação com a saúde.
Durante a pandemia de covid-19, analisamos o papel das contas automatizadas (bots) nas redes sociais e constatamos que elas não se comportam como os demais usuários.
Suas mensagens eram predominantemente políticas e marcadas por um tom de crítica e discordância. Tinham como objetivo questionar as medidas sanitárias ou a veracidade das informações oficiais.
Ao estudar o uso de hashtags, também observamos que os bots combinam e amplificam estrategicamente determinados termos, construindo narrativas sobre laboratórios, 5G, Bill Gates ou a origem do vírus que dificilmente surgiriam por acaso.
Há casos documentados de uso deliberado da saúde como arma política.
Um mostrou que contas vinculadas à Agência de Pesquisa da Internet (Internet Research Agency), uma empresa apoiada pelo governo russo e especializada em operações de influência, utilizavam a vacinação como tema de divisão política.
O mais revelador é que publicavam tanto mensagens favoráveis quanto contrárias às vacinas. O objetivo não era convencer, mas criar uma falsa equivalência que enfraquecesse o consenso.
As mensagens não se espalham da mesma forma por toda a população. Elas circulam por meio da estrutura de nossas relações sociais.
Tendemos a nos conectar com pessoas que pensam como nós. Assim, determinadas ideias são reforçadas dentro de comunidades relativamente fechadas, as chamadas câmaras de eco, enquanto permanecem isoladas das ideias de outros grupos.
Ao estudar a nas redes sociais, descobrimos que ela é muito mais intensa em debates sobre vacinas do que em outros assuntos.
E, ao investigar os fatores que alimentam essa polarização, constatamos que a desinformação em saúde é apenas um de seus motores.
A ideologia política e a identificação partidária têm um peso ainda maior, assim como a própria dinâmica das redes sociais, a desconfiança nas instituições e na ciência e as percepções de risco.
A esses fatores somam-se problemas crônicos de saúde que podem influenciar a maneira como buscamos, interpretamos e compartilhamos informações nas redes sociais, especialmente quando a medicina ainda não oferece respostas claras para tratá-los.
A complexa interação entre esses fatores também ajuda a explicar por que corrigir uma informação falsa nem sempre é suficiente para reduzir sua influência.
Em uma pesquisa realizada na Espanha, foram identificados três grandes perfis diante da desinformação sobre a covid-19: convencidos, indecisos e céticos.
Observou-se que a propensão a acreditar em mensagens falsas e compartilhá-las está menos relacionada à falta de informação do que a fatores como a desconfiança nas instituições, a condição socioeconômica e o posicionamento político.
A maneira como uma informação é recebida depende, portanto, não apenas de seu conteúdo, mas também de quem a transmite, da confiança que depositamos nessa fonte e do contexto social em que ela circula.
Combater a desinformação em saúde exige olhar além do conteúdo.
A checagem de fatos continua sendo necessária, mas sua eficácia será limitada se não vier acompanhada de estratégias que fortaleçam a confiança nas instituições e nos profissionais de saúde.
Também é fundamental aumentar a visibilidade das fontes confiáveis e compreender como se estruturam as redes e comunidades sociais, para adaptar as estratégias de comunicação aos diferentes públicos.
A desinformação não é apenas um problema de mentiras que precisam ser corrigidas, mas um fenômeno social que dificilmente poderemos compreender e combater sem considerar o ecossistema social e digital, frequentemente polarizado, que a torna possível.
Javier Álvarez Gálvez é professor titular de Saúde Populacional e Ciência de Dados Sociais e de Saúde da Universidade de Cádiz, na Espanha. Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation, e é republicado sob licença Creative Commons.
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