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Entenda: Sem título

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Por Redatores da Empire Cidades 1 de novembro de 2026 às 09:45
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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1º.nov.2026 às 5h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Chico Harlan Zunaira Saieed The New York Times A 305 metros acima do trânsito da cidade, de seu novo apartamento no 74º andar, Anastasia Zeeman desfruta do tipo de vista que somente paredes de vidro do chão ao teto podem oferecer. Diante dela, estendem-se o horizonte e a silhueta urbana, onde tempestades e pores do sol se desenrolam como filmes numa tela imensa.

Mas o sol tropical da Malásia às vezes produz o que Zeeman chama de uma "parede de calor " irradiada pelas janelas.

Arranha-céus de vidro se tornaram marcos urbanos, símbolos de sofisticação e de um poder financeiro crescente em alguns dos lugares que mais rapidamente se desenvolvem no mundo — Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; Mumbai, na Índia; Jacarta, na Indonésia; Kuala Lumpur, na Malásia.

O vidro, porém, é pouco adequado para impedir a entrada do calor, e seu uso excessivo aumenta a quantidade de energia necessária para resfriar os edifícios. Isso alimenta um debate sobre se esses símbolos da modernidade fazem sentido em um mundo cada vez mais quente devido às mudanças climáticas.

Alguns argumentam que a ambição e a inovação que deram origem à era dos arranha-céus podem ajudar os edifícios modernos a enfrentar o aumento das temperaturas e, ao mesmo tempo, preservar as vistas milionárias. Outros afirmam que a estética inteiramente envidraçada é incompatível com a meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Para eles, chegou a hora de repensar as silhuetas das cidades.

Quando era prefeito de Nova York, em 2019, Bill de Blasio chegou a cogitar brevemente a ideia de proibir as estruturas de "vidro e aço". Philip Oldfield, acadêmico australiano da área de arquitetura que escreveu um livro sobre arranha-céus sustentáveis, classifica as torres de vidro como "criminosas do ponto de vista ambiental". Ken Shuttleworth, renomado arquiteto britânico que, três décadas atrás, ajudou a projetar o edifício Gherkin, em Londres, afirma hoje que faria diferente, usando um pouco menos de vidro.

"Na verdade, basta ter janelas menores", disse Shuttleworth. Segundo ele, sua abordagem ao projeto de arranha-céus mudou à medida que percebeu o dano ambiental.

Apesar das críticas, o apelo dos arranha-céus de vidro perdura.

Esse modelo, surgido em cidades americanas como Chicago e Nova York, espalhou-se pela China, pelo Oriente Médio e pelo Sudeste Asiático. Na última década, o mundo construiu 25 vezes mais edifícios de 200 metros ou mais do que nos anos 1980, segundo o Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano. Cerca de 91% dos arranha-céus dessa altura existentes no mundo foram construídos desde a virada do século 21.

A grande maioria tem fachadas compostas principalmente de vidro, afirmou Antony Wood, que presidiu o conselho até o ano passado. Os defensores de projetos dominados pelo vidro afirmam que essa onda de construções pode ser responsável, desde que sejam feitas escolhas estratégicas.

Como o sol não atinge um edifício da mesma forma em todas as direções, é possível aumentar a eficiência energética simplesmente com a orientação correta. Os arquitetos também podem acrescentar elementos como ondulações para reduzir a incidência direta da luz solar sobre o vidro. O uso de vegetação nas fachadas envidraçadas é outra tendência.

O vidro também pode receber revestimentos metálicos finíssimos, que refletem a radiação. A maioria dos edifícios utiliza várias camadas de vidro para conter o calor. Uma opção mais sofisticada consiste em instalar persianas automatizadas entre essas camadas.

A maioria dos estudos conclui que reduzir as superfícies envidraçadas ajuda a diminuir o consumo de energia para refrigeração. Uma análise de 2019 com 1.000 edifícios comerciais americanos constatou que as construções com maior proporção de janelas exigiam mais dos sistemas de ar-condicionado, embora o tamanho das janelas não fosse um indicador do consumo total de energia do edifício.

Um artigo científico da Arábia Saudita concluiu que o uso de vidro "deve ser minimizado em regiões quentes" e que, idealmente, as janelas devem corresponder a entre 20% e 30% da fachada.

Mas os arranha-céus, naturalmente, são muito mais do que objetos destinados a maximizar a eficiência. Janelas grandes permitem a entrada de luz natural, o que reduz a necessidade de iluminação artificial. Elas também ajudam a valorizar os imóveis.

O vidro ajudou a dar à Malásia exatamente o que seu primeiro-ministro disse desejar três décadas atrás: edifícios que transmitissem a ideia desenvolvimento e fossem "bonitos aos olhos".

O país começou em 1996, com a conclusão das torres gêmeas Petronas, na época os edifícios mais altos do mundo. Depois, seguiu construindo centenas de outros arranha-céus. Com apenas 35 milhões de habitantes, a Malásia tem hoje mais edifícios de 200 metros ou mais do que qualquer país, com exceção de China, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos.

Alguns deles, sobretudo os equipados com tecnologia de ponta, apresentam bons índices de eficiência energética, afirmou Sarly Adre Sarkum, arquiteto e diretor-executivo do Índice de Construções Verdes da Malásia. Mas ele disse que a qualidade geral das torres "ainda não é tão boa". Segundo ele, no clima da Malásia, fachadas extensamente envidraçadas têm consequências significativas para o consumo de energia.

Cerca de 60% da energia consumida nos edifícios da Malásia é destinada ao ar-condicionado, afirmou Sarkum. "Quando os compradores adquirem esses imóveis, pensam que terão vistas extraordinárias", disse ele. "Mas é preciso manter as cortinas fechadas."

As Oxley Towers, onde Anastasia Zeeman mora, são um dos empreendimentos de Kuala Lumpur que mais utilizam vidro. Até mesmo os banheiros próximos à academia têm janelas do chão ao teto.

As torres foram projetadas por um escritório fundado por David Mizan Hashim, que se define como um "idealista". Sua empresa, a Veritas, afirma aceitar apenas projetos que busquem certificações ambientais.

A empresa sediada em Singapura disse em um relatório de sustentabilidade, que trabalha "continuamente" para melhorar a eficiência de seus imóveis e utiliza, sempre que possível, sistemas de ar-condicionado energeticamente eficientes e iluminação com sensores de movimento. Segundo a empresa, as Oxley Towers têm "vidros de alta qualidade" que "reduzem a necessidade de uso intenso do ar-condicionado".

Ainda assim, Hashim afirmou que o edifício "não é tão avançado quanto poderia ser". Isso porque a incorporadora queria um visual mais "clean", o que eliminou a possibilidade de acrescentar elementos de sombreamento. "Foi uma escolha estética", disse Hashim.

A incorporadora Oxley Holdings Ltd. não respondeu a um pedido de comentário da reportagem.

O arranha-céu de vidro só se tornou viável com o advento do ar-condicionado.

Antes disso, edifícios altos eram construídos com alvenaria pesada, e as janelas não passavam de pequenas aberturas. Hoje, essa estética parece antiquada. Mas, em um estudo de 2023 que comparou a eficiência energética de nove arranha-céus de Nova York, o mais antigo —o Chrysler Building, construído em 1929— apresentou, de longe, o melhor desempenho.

Mesmo na Malásia, os primeiros edifícios de altura moderada pareciam adotar uma postura quase defensiva contra o sol.

O prédio do Parlamento, com 18 andares, construído na década de 1960 e então o mais alto do país, era envolto por uma estrutura semelhante a uma colmeia. O Dayabumi Complex, construído nos anos 1980, tinha as janelas protegidas por trás de um elaborado véu branco inspirado em referências islâmicas.

Críticos afirmam que o ar-condicionado serviu de justificativa para que os arquitetos ignorassem outras lições sobre como lidar com o calor. Entre elas estão técnicas aperfeiçoadas ao longo de séculos em ambientes quentes, como as fachadas brancas da Grécia, que refletem o sol, ou as casas tradicionais e abertas do Sudeste Asiático.

"Nossos antepassados não frequentaram a escola. Ainda assim, conseguiam construir edifícios adaptados ao clima", afirmou Abdul Razak Bin Sapian, professor de arquitetura da Universidade Islâmica Internacional da Malásia.

Um exemplo disso é um bairro a apenas 800 metros de distância da Oxley Towers. Cercado por arranha-céus, é uma ilha de casas de um ou dois andares, preservada graças a leis da era colonial que criaram um enclave onde a propriedade era reservada aos malaios étnicos.

Isso transformou o bairro, Kampung Baru, em uma cápsula do tempo arquitetônica. As pessoas se reúnem em restaurantes ao ar livre, sob ventiladores de teto, e muitas casas têm grandes beirais que protegem do sol. Pequenas janelas são cobertas por venezianas horizontais.

Uma das casas mais antigas do bairro pertence a Jamiyah Kesot, de 71 anos. Construída em madeira escura e com um telhado bastante inclinado, ela conta com soluções de refrigeração de outros tempos. Erguida sobre palafitas, permite a circulação de ar por baixo. A conta mensal de energia de Kesot gira em torno de R$ 80. Ela usa dois ventiladores de chão e não tem ar-condicionado.

"Não preciso", disse Kesot, avó de sete netos, que trabalhou durante 37 anos em uma linha de montagem antes de se aposentar, em 2011.

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