Entenda: Como se reconciliar com alguém que você brigou por causa das eleições
É possível retomar laços rompidos e se reconciliar com um amigo, parente ou parceiro com quem brigou, afirmam psicólogas.

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7.nov.2026 às 4h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Nathalia Durval São Paulo Com o fim das eleições presidenciais em outubro, algumas pessoas podem repensar aquela relação afetada por opiniões políticas diferentes. É possível retomar laços rompidos e se reconciliar com um amigo, parente ou parceiro com quem brigou, afirmam psicólogas. Mas como?
Em primeiro lugar, é importante que haja interesse genuíno e que ambos os lados estejam dispostos emocionalmente a voltar a se falar, afirma Huíla Cardoso, psicóloga clínica.
"Estou falando com o outro porque quero provar que eu estou certo ou estou realmente disposto a dialogar sobre a nossa relação?", questiona Marília Gabriela Leme, psicóloga especialista em terapia de família e de casal e presidente da Associação Paulista Terapia Familiar (APTF).
O processo exige comprometimento, paciência e respeito, diz Cardoso. As psicólogas também recomendam avaliar se vale manter a relação. Dependendo das feridas causadas, a distância é a melhor solução.
Perdoar não é obrigatório, afirmam as especialistas. Leme orienta analisar a qualidade da relação e o que se ganha e o que se perde ao se afastar, para então decidir. Às vezes, a política é usada como bode expiatório para conflitos que já existiam, diz a presidente da APTF.
Segundo as psicólogas, conflitos e angústias causados por política têm sido frequentes nos consultórios e se intensificam no período eleitoral. "As pessoas estão ansiosas e emocionalmente vulneráveis, seja de um lado, seja do outro", diz Leme.
Para Cardoso, há um fenômeno moderno em que a escolha política se funde à personalidade. "À medida que isso acontece, quando há uma discordância daquilo que eu acredito, é como se fosse um ataque pessoal." A opinião diferente é interpretada como uma ameaça. "Quando a pessoa se sente ameaçada, ela foge ou ataca."
E esses ataques corroem o vínculo, ela completa. "Porque a gente começa não a combater ideias, mas a combater pessoas, ainda que seja alguém que eu amo."
As psicólogas dizem que conflitos por divergências partidárias se intensificaram com a polarização desde as eleições presidenciais de 2018, disputadas por Fernando Haddad ( PT ) e Jair Bolsonaro ( PL ).
Foi nessa época que a bióloga Lorena Maniva, 45, se distanciou do pai após uma briga. Eles pensavam diferente: ela pendia para a esquerda, e ele, para a direita, mas não tinham atritos. Até 2018, quando "ficou feio mesmo", diz ela. Morando em estados diferentes, discutiam pelo WhatsApp e se afastaram ainda mais.
Eles voltaram a se falar por causa da pandemia. Maniva se preocupava com a saúde do pai, hoje com 72 anos, que se recusava a tomar vacina. Mesmo sem um pedido formal de desculpas, restabeleceram o contato aos poucos, mas não tocam mais no assunto. "Fico até tensa quando encontro com ele pessoalmente, porque a qualquer momento uma coisinha boba pode gerar uma briga grande", ela diz.
Nem sempre um concorda exatamente sobre tudo com o outro numa relação, avalia Cardoso, que sugere levar essa flexibilidade para o campo político. Uma relação saudável respeita o contraditório, diz ela.
Deve tomar a iniciativa de reparar o vínculo quem sente que esse movimento deve ser feito, afirma Leme. Cardoso orienta fazer uma autoanálise e avaliar se falou algo que machucou o outro, e então pedir desculpa.
Maniva também já rompeu laços com uma amiga do trabalho por divergências partidárias. A bióloga, no entanto, chegou à conclusão de que havia passado do ponto e se desculpou. "Não é questão só de política, mas de princípios e moralidade, até de sobrevivência. Não ter essas pessoas perto de mim é uma forma de manter a minha sanidade mental ", explica.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Se está disposto a voltar a conviver, o primeiro passo é esfriar a cabeça, diz a presidente da APTF. "Às vezes, queremos resolver no momento em que ambos estão tensionados, mas pode não ser a melhor hora."
Se não for possível defender ideias sem impactar a relação, é melhor estabelecer limites e não falar mais sobre o assunto, sugere Cardoso.
Para iniciar o diálogo, use o meio em que se expressa melhor: pode ser uma carta, mensagem, áudio ou uma conversa olho no olho, diz a psicóloga clínica. Outra saída é convidar o outro para fazer algo de que gosta, como um jantar, "para trazer um pouco de leveza num assunto tão delicado", acrescenta Leme.
A comunicação não deve ser violenta ou acusatória, observa Cardoso. "Dizer que fez isso porque o outro fez primeiro mais afasta do que aproxima." Procurar uma terapia familiar para trabalhar o tema é uma opção, diz Leme.
Um estudo do ano passado que avaliou como a crescente polarização afetiva afeta as relações familiares chegou à conclusão de que, apesar de existirem, rupturas provocadas por eleições costumam ser mais baixas dentro de núcleos familiares, pois eles tendem a compartilhar da mesma visão.
A análise identificou que apenas 3,5% dos entrevistados de um levantamento online feito com 2.501 participantes após as eleições presidenciais de 2022 tiveram relações familiares afetadas. Pessoas que têm atitudes fortemente negativas em relação a adversários políticos, ou para quem a política ocupa um lugar de destaque, são as mais propensas a romper vínculos, conclui o estudo.
Para Leme, as pessoas estão escolhendo mais quem querem ter do lado, e crenças e posicionamentos políticos atravessam essa escolha. O marcador político migrou até para os aplicativos de relacionamentos, nos quais as pessoas têm buscado se relacionar apenas com quem tem o mesmo posicionamento, afirma a psicóloga. "As pessoas estão cansadas. Vamos respirar, senão as relações não se sustentam", diz.
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