Em destaque: Tem dias que a gente acorda querendo ver o sol pelas costas
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Consulte formatos e valores disponíveisFaz uma semana que não ando brilhante. Leia-se: chateada e desanimada. Ter dormido tarde no sábado, reunião de família no domingo (antes das eleições é maravilhoso) e ainda por cima ser uma segunda-feira, foi a combinação ideal para eu acordar querendo ver o sol pelas costas.
Especificamente nesses dias, além da gente, as coisas param de funcionar. Por exemplo, meu chuveiro. Tomei aquele banho quente com final gelado, porque dizem que faz bem (faz bem pra quem, meu Deus?). Ao desligar a água, uma goteira irritante começou a pingar. Eu torci tanto aquela torneira que ela saiu na minha mão. Bom, o jeito era fechar o registro. Fechei. Contrariando a lógica da engenharia, a goteira não parou. Ah, que se dane, umas gotinhas de água a Sabesp não vai nem perceber. O detalhe é que o boiler, aquele que aquece a água, não parava de ligar e desligar. Essa a Enel não ia deixar passar.
Antes tivesse sido só isso. Foi um festival: o pé do sofá quebrou, a luz da geladeira não acendeu e o rapaz do ar-condicionado, que veio dar uma olhada no aparelho que, advinha, não funcionou, disse que se tratava da maior tragédia que a Midea já viveu. Era mesmo caso pra sal grosso atrás da porta.
Tentei dar mais uma cochilada, mas, quando a gente não está bem, a cochilada leva vários nomes: prever coisas que vão dar errado na nossa vida sem nenhuma base científica, remoer pensamentos, lembrar de coisas horríveis que a gente falou pra uma amiga do ginásio… Resumindo: um inferno terreno.
Não sei se já comentei, mas eu tenho transtorno bipolar. Então, acrescente aí o medo de virar depressão. Tentando evitar o pânico, mandei mensagem pra minha terapeuta, pra minha psiquiatra, pro meu melhor amigo e pra minha mãe. Ah, e pra minha irmã. Se desse merda, alguém ia ter que comprar mais Frontal.
Você não vai acreditar, porque nem eu acreditei: levantei e fui à academia. Existe a força do ódio e depois existe o estado emocional em que coloquei aquele tênis. Eu, que sou chegada a uma conversa, evitei falar com pessoas. Principalmente as felizes. Missão comprida (com “o” mesmo).
Tentei trabalhar. Em vão. Tentei marcar cardiologista. Em vão. Tentei chorar. Esse deu certo. Uma coisa é certa na vida: quanto mais a gente chora, mais o nariz incha. Tirei logo uma foto pra vocês antes da coisa ficar pior. Mais tarde, postei ela em preto e branco, exatamente como eu estava enxergando o mundo.
Quando a gente não está bem, a confiança vira desesperança, a independência vira carência, buscar nosso filho na escola vira viajar de carro de São Paulo a Santa Catarina.
É claro que começaram a pipocar mensagens no celular, no Direct e na caixa de entrada do Gmail. Afinal, o mundo não para pra gente parar. Como nesses dias é difícil abrir as mensagens, a ansiedade e a culpa começam a crescer exponencialmente, o que só nos ajuda a piorar. O coração começou a pular e eu não tinha nem conseguido horário no cardiologista. Quando eu via que era áudio, pensava: esse só vou ouvir na próxima encarnação. Áudio em inglês? Daqui a umas três vidas.
Tive que escolher algumas mensagens para abrir. Coloquei pra transcrever (ouvir, sem condições). É claro que uma delas foi pra me informar que eu perdi um trabalho que queria muito. Dizem que a gente tem que matar um leão por dia, mas tem dias que a gente tenta se esconder do leão pra ele não engolir a gente.
Nessas horas, a relação com Instagram deve ser uma só: não entra. Deu vontade de entrar? Apaga o ícone da tela do celular (calma, depois você põe de volta). Mas é claro que eu entrei. Primeiro, dei uma olhadinha no meu perfil só pra confirmar que faz vários dias que eu não posto nada no feed e me dar conta de que perdi seguidores. Ô gente sem empatia. Em seguida, entrei no buraco negro dos Reels. A Meta só tem uma meta: te fazer comprar e sofrer.
Eu tinha uma reunião pra encarar. Pensei em desmarcar. Só não desmarquei porque era com um amigo bipolar, como eu. Ele me falou coisas de quem entende do riscado e deu uma sopradinha nas nuvens negras. Aproveitei o ensejo, botei uma roupa com todas as cores do arco-íris e um Ray-Ban vermelho, para ver se o mundo coloria. Fiz uma selfie e postei em seguida a foto em preto e branco, jogando a real para vocês: “Ótima não estou, mas estarei em breve” (sem nenhuma certeza disso).
Gostaria de dizer que peguei o carro e fui fazer algo útil, mas, na verdade, fui fazer algo inútil (pra minha dieta): comprar um chocolate na banca. Peguei um diet, porque quem já teve 100 kg tem medo. Voltei, rascunhei essa crônica, me senti um pouco melhor.
Dormi. Foi um soninho de neném? Não, acordei agitada várias vezes. Hoje estou nova? Não. Comprei um chocolate? Sim. Diet? Não me enche.
Mas consegui olhar pro sol. Dar bom dia pra ele ainda é um pouco demais. Consegui ler algumas mensagens. As em inglês, me perdoe, mas nem o Claude vai conseguir me ajudar agora. A lista de tarefas ainda está olhando torto pra mim. A ansiedade ainda está enchendo meu saco. O medo da depressão está sendo administrado. Terminei esse relato, o que me deu uma sensação boa. Por um instante, pensei: quem vai ler um textão como esse? Agora eu sei. Você, que é uma pessoa cheia de empatia.
Obrigada pela preocupação e carinho. E lembre-se: pra toda goteira, tem um encanador. Mesmo que ele só possa vir na quinta.
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