Em destaque: Tailândia lucra R$ 1,48 bilhões com exportação de séries. Agora mira faturar R$ 14 milhões no Brasil
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Consulte formatos e valores disponíveisPublicado em 23 de outubro de 2026 às 06h00 .
Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Cinema Saiba mais O romance entre dois protagonistas pode ser o ponto de partida. Na indústria da dramaturgia tailandesa , porém, o fim de uma série abre espaço para uma sequência de outros negócios: encontros com fãs, apresentações musicais, campanhas publicitárias e novas produções com os mesmos atores.
A capacidade de prolongar o interesse do público para além da ficção ajuda a explicar por que o gênero se tornou uma das vitrines internacionais do audiovisual da Tailândia — e por que o Brasil entrou na estratégia comercial do país.
Em julho, uma missão empresarial tailandesa reuniu cerca de 15 companhias do país asiático e 17 empresas brasileiras em São Paulo para discutir licenciamento, distribuição e coprodução.
Em entrevista à EXAME, Phuttachat Wongmongkol, representante do Thai Trade Center, foram realizados 147 encontros de negócios, com um volume de US$ 463 mil gerado naquele dia. A expectativa informada pela executiva é alcançar aproximadamente US$ 2,8 milhões (aproximadamente R$ 14,1 milhões) no primeiro ano de desdobramentos das negociações.
“As discussões envolveram temas como licenciamento, coprodução e distribuição. Os resultados foram muito positivos, confirmando que o Brasil é um mercado imenso”, afirma a executiva tailandesa, que representa o Departamento de Promoção do Comércio Internacional da Tailândia, o DITP, vinculado ao Ministério do Comércio.
A aproximação empresarial acompanha um movimento que começou entre espectadores. Comunidades brasileiras passaram a traduzir, divulgar e comentar as produções tailandesas , criando uma audiência que hoje desperta o interesse de produtoras de eventos, distribuidores e empresas de entretenimento .
“O público não é só consumidor, ele é participante. Foram os próprios fãs que se mobilizaram para traduzir e apresentar as produções a novos públicos”, diz Laiza Kertscher, produtora da Highway Star, empresa responsável pela organização da rodada de negócios e por eventos com artistas asiáticos no Brasil.
Uma característica desse modelo é a continuidade das duplas de protagonistas fora das telas. Os atores participam juntos de entrevistas, transmissões ao vivo, apresentações e encontros com fãs. Em alguns casos, voltam a contracenar em outras produções, preservando o interesse construído em torno da parceria.
Para as empresas, essa dinâmica amplia as possibilidades de explorar comercialmente uma produção. A relação do espectador com os personagens pode se converter em interesse pelos intérpretes, por suas músicas, pelos eventos de que participam e pelas marcas às quais se associam.
“Não é só a série: é a celebridade, a música, o videoclipe. Tudo é integrado”, afirma Kertscher.
A produtora descreve esse consumo como intertextual: o público acompanha diferentes conteúdos que se conectam e prolongam a experiência iniciada na ficção. Nesse circuito, a celebridade ocupa uma posição central, mantendo a comunidade mobilizada entre um lançamento e outro.
O modelo também ajuda a compreender a aproximação de marcas internacionais com os artistas do segmento. A missão empresarial tailandesa conta com grandes marcas apoiadoras como Dior, Tommy Hilfiger e Valentino , além de campanhas para outras empresas de moda e beleza. A visibilidade dos atores passa, assim, a circular por mercados que vão além da distribuição audiovisual .
A expansão dos BLs ocorre dentro de um movimento mais amplo de internacionalização da indústria criativa tailandesa . Segundo dados divulgados pela organização da missão empresarial, as ações de promoção comercial do DITP geraram mais de 9,9 bilhões de bahts (cerca de 1,48 bilhão de reais) em exportações da indústria de conteúdo em 2025.
O valor se refere ao conjunto de conteúdos contemplados por essas iniciativas. Não foi apresentada uma divisão que permita identificar quanto desse montante veio especificamente de produções BL ou GL.
Os investimentos do streaming oferecem outra dimensão desse crescimento. Em relatório divulgado em agosto de 2025, a Netflix informou ter investido US$ 200 milhões em conteúdo local tailandês entre 2021 e 2024 . Segundo a companhia, esse investimento envolveu mais de 13,5 mil profissionais de elenco e equipes e resultou em mais de 20 séries e filmes originais . Os números abrangem diferentes gêneros do audiovisual tailandês.
Para o BL, essa infraestrutura representa um ambiente favorável à circulação internacional. Plataformas digitais ampliam o acesso às produções, enquanto as comunidades de fãs ajudam a divulgar lançamentos e a sustentar o interesse pelos artistas.
No Brasil, Kertscher aponta a maior frequência de eventos e a presença das séries em serviços de streaming e na televisão como sinais de uma demanda que começa a encontrar mais canais comerciais.
“Começamos a fazer alguns eventos, eles foram crescendo, chegando a outras empresas e se tornando mais frequentes. Existe um interesse do público e um interesse do mercado”, afirma.
A Highway Star estima que o BL tenha mais de 600 mil admiradores no Brasil. A metodologia utilizada para chegar a esse número não foi detalhada na entrevista. Os resultados de eventos e o interesse das empresas oferecem outros indicadores, ainda que parciais, sobre o potencial comercial do segmento.
Na avaliação de Kertscher, a familiaridade dos brasileiros com outras expressões da cultura pop asiática ajuda a explicar a receptividade às produções tailandesas . Animações japonesas , música e séries sul-coreanas contribuíram para formar um público disposto a acompanhar conteúdos de diferentes países e idiomas.
Uma característica do BL está na participação dessa comunidade na própria circulação das obras. Traduções, recomendações e conteúdos produzidos por fãs ajudam a apresentar séries e atores a novos espectadores.
Esse envolvimento também significa que a demanda pode surgir antes de uma estratégia formal de distribuição. Quando empresas passam a negociar títulos ou organizar apresentações, encontram comunidades que já conhecem os artistas e acompanham seus trabalhos.
Para Kertscher, o crescimento do mercado brasileiro precisa ser entendido a partir dessa trajetória. O público ajudou a introduzir os conteúdos no país e continua atuando como divulgador, além de consumidor.
Os atores Yin Anan e War Wanarat ilustram como uma parceria construída nas telas pode sustentar outras frentes comerciais . Conhecidos como YinWar, os protagonistas de Love Mechanics e Jack & Joker: U Steal My Heart tiveram um segundo encontro com fãs brasileiros anunciado para 11 de outubro, em São Paulo, com realização da Highway Star. A primeira edição ocorreu em 2025.
Os dois somam mais de 6,6 milhões de seguidores nas redes sociais . A soma indica o alcance de seus perfis, mas não corresponde necessariamente a pessoas distintas nem permite medir, isoladamente, o público brasileiro.
Para a produtora, a experiência da primeira visita trouxe um indicador comercial mais direto: a procura pelos pacotes de interação.
“O grande apelo desse tipo de evento são os pacotes VIP, com foto e interação. Esses artistas esgotaram todos os pacotes”, afirma Kertscher, ao comentar a edição de estreia.
A possibilidade de encontrar os atores pessoalmente transforma a proximidade cultivada nas redes e nas séries em uma experiência comercializada à parte. Ao mesmo tempo, exige que os artistas correspondam às expectativas de um público que acompanha suas carreiras de forma contínua.
“À medida que eles dão um retorno positivo para o público, o público também retorna esse interesse”, diz a produtora.
A empresa não informou o faturamento, o custo de produção ou a margem dos encontros. O esgotamento dos pacotes, portanto, sinaliza demanda pelos benefícios de interação, mas não permite calcular a rentabilidade total do evento.
A rodada realizada em 29 de julho, em São Paulo, buscou aproximar essa audiência já existente das empresas capazes de ampliar a oferta de conteúdo no país. Promovida pelo DITP e organizada pela Highway Star, a missão reuniu negócios de audiovisual , streaming, música e gestão artística .
Entre as participantes estavam a Mandee Work, ligada à Domundi e responsável por títulos como Cutie Pie , e a ONE31, emissora associada a produções como Century of Love .
As conversas não ficaram restritas à aquisição de séries prontas. Segundo as entrevistadas, houve interesse em desenvolver projetos em conjunto e explorar serviços em diferentes etapas da produção.
“Nas rodadas de negócios, percebemos o interesse das empresas brasileiras não só em comprar a série, mas em produzir junto”, afirma Kertscher.
Para Wongmongkol, há espaço para colaboração em licenciamento, pré-produção e pós-produção. Essas possibilidades ampliam o papel das empresas brasileiras : além de distribuir conteúdos ao público local, elas podem participar de sua realização.
A representante comercial ressalta, porém, que a aproximação depende de continuidade. A distância entre os países e a necessidade de conhecer potenciais parceiros tornam o relacionamento empresarial uma construção gradual.
“Precisamos aproximar os talentos e as empresas tailandesas das brasileiras . É preciso tempo e interações frequentes para que se conheçam melhor e construam um bom relacionamento”, afirma.
O interesse comercial da Tailândia pelo audiovisual faz parte de uma estratégia de soft power : ampliar a influência e a familiaridade com o país por meio da atração exercida por sua cultura.
Nessa lógica, uma série pode funcionar como porta de entrada para outros consumos. O espectador passa a se interessar pelo idioma, pelas músicas, pela culinária e pelos lugares apresentados nas produções. A relação com os artistas também pode estimular viagens e a participação em eventos.
“Os grandes fãs buscam aprender mais sobre a cultura do país. É aí que entra o soft power”, diz Wongmongkol.
A executiva relata ter encontrado, em eventos, fãs de países como A rgentina, Chile, Peru, Uruguai e Paraguai , o que reforçou sua percepção de uma oportunidade regional. O Brasil aparece nessa estratégia como um ponto de aproximação com consumidores e empresas latino-americanos .
A promoção dos gêneros BL e GL também é associada pela representante à imagem de abertura que a Tailândia pretende projetar internacionalmente.
“O Boys’ Love desempenha um papel importante ao aproximar brasileiros e tailandeses. Embora tenha começado com o Boys’ Love, o Girls’ Love também está crescendo”, afirma.
Para ela, o interesse pelos conteúdos pode criar conexões duradouras, capazes de alcançar outros setores da economia . A oportunidade está tanto na venda de uma produção quanto no conjunto de relações que ela ajuda a estabelecer.
O plano do DITP é manter a aproximação com o Brasil em 2027. Segundo Wongmongkol, estão previstas novas rodadas de negócios, visitas de empresas tailandesas a potenciais parceiros brasileiros e convites para a participação de companhias do Brasil no Thailand Content Market, na Tailândia .
“Traremos uma delegação tailandesa ao Brasil para realizar rodadas de negócios e atividades de aproximação direta. No futuro, elas poderão estabelecer parcerias, realizar coproduções ou colaborar na pós-produção”, afirma.
A agenda indica uma tentativa de transformar o interesse já demonstrado pelos fãs em relações comerciais recorrentes. Para isso, os próximos passos dependem da conversão das conversas em contratos, da distribuição de novos títulos e da capacidade de sustentar a procura por eventos e outros produtos.
O público brasileiro já mostrou disposição para acompanhar histórias, divulgar artistas e pagar por experiências de proximidade. Agora, produtoras, distribuidores e representantes comerciais procuram construir uma operação que acompanhe esse envolvimento.
“Percebemos que o Brasil é um mercado enorme e que podemos estreitar nossos laços comerciais”, diz Wongmongkol.
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