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26.out.2026 à 0h06 Diminuir fonte Aumentar fonte Felipe Maia São Paulo "À tarde, o Brasil viveu a maior eleição da sua história. À noite, Iron Maiden." Dizem que Kafka, fosse latino, seria escritor realista. Não é difícil imaginar, então, que suas célebres linhas sobre a catatonia moderna e o ato derradeiro da Primeira Guerra —a invasão da Rússia pela Alemanha— poderiam narrar o domingo brasileiro de 25 de outubro.
Às 20h40, poucos minutos após Lula assumir a dianteira na contagem de votos, dezenas de milhares de pessoas recebiam, no NuBank Parque, o Iron Maiden, uma das maiores bandas de rock do mundo em sua turnê de 50 anos —uma história de 16 passagens pelo país que se confunde com a própria democracia do Brasil.
A primeira vinda do Iron Maiden ao país foi na turnê de seu quinto álbum, "Powerslave" (1984). O show foi em 11 de janeiro de 1985, na primeira e histórica edição do Rock in Rio. Quatro dias depois de testemunhar uma juventude ensandecida pelo então novo bastião do heavy metal, com uma produção jamais vista por aqui, o Brasil assistia a um colégio eleitoral escolher um presidente em meio ao movimentos Diretas Já.
Com diversas formações, o Maiden veio ao país em meio aos apuros do princípio do Plano Real, tocou no ano dos protestos anti-Copa, veio em 2016 meses após a chegada de Michel Temer à presidência. O Brasil ao redor, é fato, nunca teve muito espaço na mitologia ao vivo de Eddie e companhia —no show deste domingo, alguns cantos de "olê olê Maiden" se misturavam a "Lula" e mãos em L.
O universo dos Irons ajuda a explicar também essa relação ambivalente da maior banda de metal do mundo, seus fãs aguerridos e o mundo —este um tema incontornável a algumas linhas do rock, como o punk e o hardcore. Em meio século de carreira, a banda construiu um imaginário tão único entre mitos antigos, literatura obscura e histórias de guerra que seus riffs em três guitarras tocam esquerda, centro e direita.
A figura do vocalista, Bruce Dickinson, comanda esse espírito com maestria. Sua verve operística, com figurinos teatrais e cantoria dramática, segue firme. "Esperamos 50 anos para chegar a esse ponto, e o Brasil sempre foi próximo aos nossos corações", disse ele pouco depois de tocarem a faixa "Infinite Dreams" —inédita nos palcos brasileiros.
É nessa canção que Steve Harris, fundador do grupo, também mostra seu comando. Seu baixo mantém a articulação pegada de notas e o estilo galopado, aspecto que também foi determinante para o Maiden consolidar-se algo próximo do thrash metal. Mas a velocidade é menos importante que a sinuosidade para a banda, que corresponde aos anseios do público por um heavy metal mais contemplativo.
" Powerslave ", faixa do álbum homônimo de 1984, é desses casos. As seções de complexidade de andamento e tempo e fraseados longos soam ao vivo com o mesmo vigor que tem no álbum —é esse arroz e feijão com tempero que o Maiden sabe fazer sem soar uma caricatura de si próprio, prato cheio para seus fãs anseiam.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Até o que beira o kitsch sai pela tangente pela entrega do grupo. A aparição de um boneco do mascote da banda em cima de uma perna de pau casa com a harmonia extravagante do trio de guitarras e a bateria cadenciada e muito composta de Simon Dawson (o novato da banda) em "The Trooper" -- faixa acompanhada pelo canto do público.
Já em "Hallowed by the Name", Dickinson empunha uma forca enquanto Dave Murray estraçalha power riffs na sua guitarra, demonstração de virtuosismo que ele também trouxe a "The Rime of the Mariner", épico de 13 minutos que entrou nessa turnê depois de quase dez anos fora dos palcos.
Outra aparição rara foi "Phantom of the Opera", primeira vez no show da banda desde 2014, "Murders of Rue Morgue". Ambas são inspiradas em histórias de horror. O Iron Maiden terminou o show de 1h30 com um bis. Jogando com o público num andamento algo mais lento e com Dickinson vestido de Médico da Peste, eles tocaram as queridinhas do público brasileiro "Fear of the Dark" e "Wasted Years" -- "Medo das Trevas" e "Anos Perdidos", ambas inspiradas em ficções.
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