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Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 22 de outubro de 2026 às 11:35
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Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Presidente do Corinthians, Osmar Stabile tem a palavra final sobre operações financeiras Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF Enquanto tenta renegociar com a Caixa a dívida de R$ 630 milhões da Neo Química Arena, o Corinthians deixou de cumprir o acordo que protege o clube de penhoras e bloqueios de contas e pode ficar exposto novamente a execuções individuais de dívidas e a dispositivos adicionais de fiscalização e intervenção judicial.

Isso porque o clube deixou de repassar R$ 10,1 milhões previstos pelo RCE (Regime Centralizado de Execuções), mecanismo que reúne parte das dívidas civis do clube e estabelece uma fila única para o pagamento dos credores.

O clube pagou, com dez dias de atraso, apenas R$ 3,5 milhões dos R$ 6 milhões referentes à receita de julho. A parcela seguinte, de R$ 7,6 milhões, não havia sido paga até 16 de outubro.

Os atrasos estão registrados no processo que tramita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, cujos documentos foram obtidos e analisados pelo UOL.

O descumprimento ameaça o acordo homologado em janeiro, que deu ao Corinthians até dez anos para pagar dívidas hoje calculadas em cerca de R$ 239 milhões com empresários, agências de jogadores e uma ex-patrocinadora.

Enquanto o RCE é cumprido, as execuções abrangidas pelo regime ficam concentradas e o clube fica protegido das penhoras e dos bloqueios que poderiam resultar dessas cobranças.

Em 16 de outubro, a Pixbet, ex-patrocinadora e uma das credoras do Corinthians, pediu à Justiça que reconheça o descumprimento do plano.

Na mesma data, a juíza responsável pelo processo deu 15 dias para a administradora judicial do regime, a Laspro, se manifestar.

Se o pedido for acolhido e o RCE perder seus efeitos, as cobranças poderão voltar às varas de origem, reabrindo a possibilidade de bloqueios e penhoras, o que seria desastroso para o clube.

Nesse mesmo período, o clube pagou em dia as parcelas do fundo de investimento que assumiu a dívida com o Talleres, da Argentina, pela contratação do meia Rodrigo Garro.

Segundo a administradora judicial, essas parcelas pagas ao fundo saem do valor que o clube deveria repassar aos credores no regime e acabam por reduzi-lo.

O Corinthians também tem R$ 76 milhões parcelados por meio da CNRD (Câmara Nacional de Resolução de Disputas), da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Uma parcela de R$ 8 milhões venceu na última segunda-feira (19) e ainda não foi paga.

O descumprimento de decisões da Câmara pode levar a sanções esportivas, entre elas o transfer ban (proibição de registrar novos jogadores) e bloqueio de premiações.

A dívida total do Corinthians é estimada em R$ 2,7 bilhões, segundo dados declarados pelo próprio clube à Anresf, agência de fair play financeiro da CBF.

Procurado, o Corinthians emitiu nota oficial afirmando que "acompanha permanentemente a execução do plano e está tratando, de forma técnica e responsável, todos os pontos relacionados aos pagamentos, compromissos financeiros, operações realizadas e receitas vinculadas ou comprometidas".

O clube, entretanto, não deu explicações detalhadas. A coluna enviou 14 perguntas, mas elas não foram respondidas.

"Os esclarecimentos específicos a respeito dos questionamentos apresentados, incluindo valores, critérios adotados, fluxo de pagamentos, contratos, cessões de recebíveis e demais aspectos mencionados, serão prestados formalmente nos autos, com a documentação e o detalhamento necessários, assim como serão apresentados ao Administrador Judicial nos canais adequados", diz a nota do Corinthians.

O RCE centraliza a dívida civil (pendências entre partes privadas) incluídas no regime e organiza os credores em um uma fila de pagamentos.

Todos os meses, o Corinthians informa sua receita do mês anterior à administradora judicial. O plano prevê a destinação de 20% dessa quantia ao pagamento de dívidas.

Desse montante, porém, são abatidos pagamentos feitos a credores que estão fora do RCE, como o fisco ou a Caixa, financiadora do estádio corintiano.

O valor restante é destinado aos credores do regime, respeitado um piso equivalente a 4% da receita no primeiro ano, 5% no segundo e 6% a partir do terceiro.

O Corinthians cumpriu o plano até junho. Entre março e julho, repassou R$ 16,4 milhões.

O problema começou com o pagamento calculado sobre a receita de julho. O clube deveria depositar R$ 6 milhões até 31 de agosto -o limite é sempre o último dia do mês vigente.

Mas, naquele dia, o clube avisou à Laspro que os pagamentos atrasariam por "questões operacionais relacionadas à gestão do fluxo financeiro do período".

O pagamento, de R$ 3,5 milhões, foi feito entre os dias 8 e 9 de setembro. Segundo a administradora judicial, o clube não apresentou "nem justificativa para o adimplemento parcial nem cronograma de quitação".

A parcela seguinte, de R$ 7,6 milhões, não havia sido paga até 16 de outubro, segundo petição da credora Pixbet.

Há um problema adicional: mesmo quando cumpria o acordo, o Corinthians praticamente não conseguia reduzir o saldo devedor.

Quando o clube pediu o RCE, em dezembro de 2024, havia cerca de R$ 191 milhões reconhecidos no processo. Em setembro deste ano, eram aproximadamente R$ 238 milhões.

O aumento ocorreu apesar de cerca de R$ 20 milhões em pagamentos e decorre da combinação de juros com a inclusão de novos créditos reconhecidos no processo.

As dívidas são corrigidas pela Selic, que atualmente acrescenta entre R$ 2,5 milhões e R$ 2,8 milhões por mês ao saldo.

Já o piso de 4% da receita que o Corinthians precisa destinar aos credores corresponde, dependendo do mês, a cerca de R$ 2 milhões a R$ 3,5 milhões.

Isso significa que, nos meses em que paga apenas o mínimo, o clube consegue abater pouco mais do que os juros. Em junho, por exemplo, mesmo após um repasse de R$ 1,9 milhão, o saldo da dívida aumentou.

Há ainda outro fator que reduz o dinheiro disponível aos credores do RCE: quanto mais o Corinthians paga a credores externos ao regime, maior é o valor descontado dos 20% da receita previstos pelo plano.

É nesse ponto que surge uma das principais divergências entre o clube e a administradora judicial.

Rodrigo Garro, do Corinthians, durante partida contra o Cruzeiro, pelo Brasileirão Imagem: Joisel Amaral/AGIF Um desses credores surgiu da dívida com o Talleres pela contratação de Garro, em 2024.

Em 15 de junho de 2026, o Corinthians assinou uma confissão de dívida de R$ 38,1 milhões com o Renegociação Desportiva FIDC, fundo gerido pela Outfield Ventures.

O fundo assumiu o pagamento ao clube argentino. Em troca, o Corinthians se comprometeu a pagar 26 parcelas até 2028, com juros de 1,33% ao mês.

Eram R$ 232 milhões a vencer até 2029. Também foram dados em garantia R$ 4,9 milhões em recebíveis da patrocinadora Frimesa.

O Corinthians considera os pagamentos ao fundo, que começaram em junho deste ano, uma "dívida anterior ao RCE" e, por isso, desconta as parcelas do valor destinado aos credores do regime.

A Laspro questiona esse entendimento. Segundo a administradora, 62,6% do valor confessado estava ligado a um litígio ainda em discussão na CAS, a Corte Arbitral do Esporte, e na Fifa (Federação Internacional de Futebol) quando o RCE foi criado. Essa parcela, portanto, só teria virado dívida certa posteriormente.

Pelos cálculos da administradora, o mecanismo pode tirar R$ 25 milhões dos credores do RCE ao longo dos 26 meses.

Os extratos anexados ao processo indicam a prioridade do Corinthians.

Em 25 de agosto, R$ 4,35 milhões pagos pela BRAX entraram numa conta de livre movimentação do clube no Banco Daycoval.

No dia seguinte, o Corinthians transferiu R$ 2,07 milhões para a conta vinculada ao fundo -"exatamente o necessário" para a parcela do mês, segundo a Laspro.

O pagamento aos credores do RCE referente ao mesmo período não foi integralmente realizado.

O aperto de caixa tem outra explicação nos autos: parte das receitas futuras do Corinthians já foi antecipada ou dada em garantia.

Em 2026, o clube antecipou cerca de R$ 94 milhões do contrato de patrocínio da plataforma de apostas Esportes da Sorte.

Parcelas referentes a setembro, outubro e novembro foram antecipadas pelo Banco Daycoval; a de agosto, por outro fundo, o FIDC Gama V3.

Com a Medida Provisória 1.394, que proibiu as casas de apostas de operar no país a partir de outubro, essas parcelas estão em risco.

Se a patrocinadora deixar de pagar, quem adiantou o dinheiro pode cobrar do clube.

O contrato com a Nike, fornecedora de material esportivo do Corinthians, também aparece nas operações com o Daycoval.

Em fevereiro, R$ 23,75 milhões em luvas -bônus de assinatura do contrato- foram usados no mesmo dia para quitar um adiantamento com o banco.

Em 31 de agosto, outros R$ 32,8 milhões identificados como "Nike" entraram e saíram no mesmo dia para o Daycoval.

O clube classificou esse dinheiro como "operação financeira" e o deixou fora da conta do RCE.

A Laspro contesta o tratamento. Segundo a administradora, se os R$ 32,8 milhões fossem considerados receita, o pagamento devido aos credores naquele mês passaria de R$ 7,6 milhões para R$ 14,2 milhões.

Os empréstimos do Corinthians somavam R$ 381,9 milhões em fevereiro. Desse total, R$ 132,1 milhões correspondiam a operações com o Daycoval.

Em maio, a Justiça determinou que o clube apresentasse no processo os contratos com Nike e Daycoval. Os documentos não foram juntados aos autos; o Corinthians passou a disponibilizá-los aos credores mediante assinatura de termo de confidencialidade.

A transparência das contas, ou suposta falta dela, já havia provocado uma advertência judicial.

Em março, depois que a Laspro encontrou uma diferença de R$ 149 milhões entre o que entrou no caixa e a receita declarada pelo clube, o juiz Guilherme Cavalcanti Lamêgo advertiu que "a resistência no fornecimento de documentos e a apresentação de declarações de receitas inconsistentes acarretarão a nomeação de observador judicial ou interventor judicial".

O Corinthians explicou posteriormente que a diferença correspondia a empréstimos e antecipações de receitas (R$ 76,9 milhões), transferências entre contas próprias (R$ 65,5 milhões) e venda de jogadores (R$ 6,8 milhões).

A Laspro aceitou a explicação, e não houve nomeação de observador ou interventor.

A dívida submetida ao RCE está concentrada em poucos credores.

O empresário Giuliano Bertolucci e sua empresa têm a receber R$ 87,5 milhões, equivalentes a 36,6% do total.

Em seguida vêm a RC Consultoria, de Carlos Leite (R$ 31,6 milhões); a Talents Sports (R$ 24,7 milhões); o grupo do empresário André Cury (R$ 21,9 milhões); a Fair Play (R$ 21,6 milhões); e a Pixbet, ex-patrocinadora do clube (R$ 19,9 milhões).

Bertolucci, Leite e Cury aparecem nos balanços do clube de 2021 a 2023 também como financiadores: emprestaram dinheiro ao Corinthians a juros de até 1,94% ao mês.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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