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Em destaque: O gigante de Singapura que fez do Brasil seu principal negócio

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Por Redatores da Empire Cidades 31 de outubro de 2026 às 11:00
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Em destaque: O gigante de Singapura que fez do Brasil seu principal negócio
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Priorize VEJA no Google Ler Resumo A Seatrium, multinacional de engenharia offshore, consolidou sua presença no Brasil ao antecipar a explosão do setor de petróleo em águas profundas. Com 60% de sua receita global vinda do país, a empresa investe bilhões, atende majoritariamente a Petrobras e vislumbra novas fronteiras de exploração e energias renováveis. Este resumo foi útil?

Quando a Seatrium começou a operar no Brasil, em 2000, a exploração de petróleo em águas profundas ainda estava longe da dimensão que alcançaria nas décadas seguintes. Em 2005, a produção nacional somava 1,6 milhão de barris por dia. Vinte anos depois, chegou a 3,8 milhões, mais que o dobro, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Sediada em Singapura, a multinacional de engenharia em alto-mar (offshore) chegou antes da grande expansão do setor e colheu os frutos da aposta.

Hoje, cerca de 60% de sua receita global vem do Brasil, onde mantém três estaleiros e emprega perto de 12 000 pessoas. Com sessenta anos de história, a Seatrium iniciou a trajetória no Brasil há 26 anos, com a incorporação do estaleiro BrasFELS, em Angra dos Reis (RJ). A expansão prosseguiu com a compra de uma unidade em Navegantes (SC), em 2010, voltada à construção de embarcações de apoio, e a instalação de um estaleiro em Aracruz (ES), inaugurado em 2014. Os investimentos acumulados no país somam cerca de 8 bilhões de reais, entre ativos e formação profissional. Desde o início das operações, a empresa informa ter entregue 26 projetos e 155 módulos de petróleo no Brasil. Segundo seus cálculos, os ativos offshore que construiu e que permanecem em operação dão suporte a mais de 70% da capacidade brasileira de produção de petróleo, o equivalente a cerca de 3 milhões de barris por dia.

Em 2025, a receita global da Seatrium foi de 9 bilhões de dólares, dos quais mais de 5 bilhões vieram das operações brasileiras. O resultado reflete tanto o potencial do mercado nacional quanto a relação com a Petrobras, cliente final de quase 90% dos projetos realizados pela companhia no país. “Nossa relação com a Petrobras na exploração e produção em águas ultraprofundas é muito forte e transcende governos”, diz Marlin Khiew, diretor global de operações da Seatrium. Somados, os negócios no Brasil e em outros países reúnem uma carteira de encomendas de 10 bilhões de dólares. Os projetos mobilizam estaleiros em diferentes partes do mundo: componentes das plataformas de petróleo utilizadas no Brasil podem ser construídos na Ásia, enquanto módulos fabricados por aqui são integrados em outras unidades do grupo. Engenheiros brasileiros também participam da montagem e dos testes das plataformas em Singapura. Assim, a empresa distribui o trabalho entre seus estaleiros pelo mundo e mantém parte da fabricação no Brasil, como exigem as regras de conteúdo local, criadas para garantir a participação da indústria nacional nos projetos.

A multinacional de Singapura aposta que a expansão do setor poderá avançar para além do pré-­sal. Por isso, acompanha oportunidades na Margem Equatorial brasileira e em países vizinhos, especialmente na Guiana, onde também tem experiência com petróleo e gás. Para manter seu nível de produção a longo prazo, o Brasil precisará abrir novas fronteiras de exploração. Daí a importância do petróleo recentemente encontrado na costa do Amapá. O tamanho da reserva, contudo, ainda é desconhecido, o que dificulta estimar a demanda que poderá chegar aos estaleiros. “Por enquanto, não temos a dimensão do que vai ser a produção na Bacia da Foz do Amazonas”, diz Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria e especialista em petróleo e gás. No Sudeste, onde o pré-sal ainda rende lucros, o executivo estima que serão necessárias dezenove novas unidades de produção de petróleo em alto-mar até 2038.

Para Bruno Búrigo, diretor de operações da Seatrium no Brasil, a exploração de novas áreas pode garantir encomendas aos estaleiros por mais tempo. “Enxergamos isso como uma continuidade do pré-­sal e uma grande oportunidade”, diz. O caminho entre a descoberta e os resultados financeiros da Seatrium depende, porém, do avanço dos projetos das petroleiras na Margem Equatorial e das decisões de investimento dessas empresas. Outra possibilidade de negócio está no aproveitamento comercial do gás do pré-sal. Em agosto, durante um evento que reuniu executivos da Petrobras e da Seatrium em Singapura, a presidente da estatal brasileira, Magda Chambriard, afirmou que avalia a possibilidade de exportar gás natural liquefeito (GNL) com o apoio da empresa. “Vemos espaço para exportar gás por meio de navios de GNL”, disse. A proposta é liquefazer o gás em alto-mar e transportá-lo para mercados externos, com países asiáticos entre os destinos.

O interesse da Seatrium por novos projetos ultrapassa as fronteiras brasileiras. Khiew estima em cerca de 12 bilhões de dólares as oportunidades potenciais na América Latina nos próximos dois anos, incluindo negócios no Brasil e nos países vizinhos. “Mas o Brasil continua sendo um pilar estratégico de longo prazo dentro do grupo”, diz o executivo. Incluindo outras partes do mundo, a Seatrium mapeia oportunidades superiores a 25 bilhões de dólares para os 24 meses seguintes. A diversificação dos negócios também passa pelas energias renováveis. Na Europa e na Ásia, a companhia constrói plataformas, embarcações e fundações flutuantes para parques eólicos offshore. Os projetos de energia eólica em alto-mar entregues ou em andamento nessas regiões somam 16 gigawatts de capacidade.

A companhia já constrói duas plataformas para os parques eólicos Empire Wind 1 e 2, na costa de Nova York, e comprou recentemente a britânica Wave Hub Limited, dedicada à infraestrutura de testes para energias renováveis marinhas. No Brasil, avalia usar a capacidade dos estaleiros de Angra dos Reis e Aracruz para atender a futuros projetos desse segmento. O país, porém, demora a transformar seu potencial em empreendimentos concretos. “O Brasil está engatinhando em algumas atividades econômicas baseadas no oceano, como no caso das eólicas offshore, que tem outros países na dianteira”, diz Marinez Scherer, doutora em ciências do mar e professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

O principal entrave está na regulamentação. Embora a Lei das Eólicas Offshore, aprovada em 2025, tenha estabelecido uma base legal para a atividade, os projetos dependem de regras complementares para sair do papel. Os interessados em investir ainda aguardam um decreto do governo federal que regulamente o setor. Em julho, o Ministério de Minas e Energia havia publicado a metodologia de seleção das áreas destinadas a eventuais empreendimentos, etapa anterior aos leilões, que seguem sem data definida. Sem previsibilidade, a Seatrium pode se preparar para disputar contratos, mas terá de esperar para transformar esse interesse em encomendas.

A companhia considera a energia eólica no mar uma oportunidade para ampliar o uso de sua infraestrutura e reduzir a dependência dos ciclos do petróleo. A experiência internacional e a presença industrial brasileira oferecem uma base para essa expansão, mas o avanço dos negócios dependerá do amadurecimento do mercado e das regras que o governo estabelecer. Por enquanto, o petróleo segue sustentando a aposta da Seatrium no Brasil, com interesse crescente na Margem Equatorial. O mercado regional de gás e os projetos eólicos no futuro, porém, fazem a companhia sonhar com muito mais.

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