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Em destaque: No país dos folhetins

Encerrada a eleição, começam as explicações: foi a margem de erro, o eleitor envergonhado, o vento contra, a umidade do ar.

Por Redatores da Empire Cidades 27 de outubro de 2026 às 03:12
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Em destaque: No país dos folhetins
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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No domingo, escrevi aqui que os erros das pesquisas eleitorais já são mais numerosos que as lojas da Drogasil. Encerrada a eleição, começam as explicações: foi a margem de erro, o eleitor envergonhado, o vento contra, a umidade do ar. Só falta culpar Mercúrio retrógrado. Concluí dizendo que, no Brasil, até os erros eleitorais têm direito à reeleição.

Pois bem. Veio mais uma eleição e os institutos conseguiram a proeza de errar até o endereço do fenômeno. Lula cresceu mais de dez milhões de votos no segundo turno, numa explosão eleitoral que nem os astrólogos do Planalto previram. De repente, uma multidão que passara o primeiro turno em casa acordou no domingo com uma irresistível vocação cívica.

As pesquisas também não viram a transferência de votos de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Muito menos perceberam que uma parcela dos eleitores de Flávio Bolsonaro foi acometida por uma súbita conversão vermelha. Foi um Pentecostes eleitoral: o sujeito saiu de casa vestido de amarelo e voltou para a história trajando vermelho.

Nos quase onze milhões de votos adicionais de Lula, havia até bolsonaristas arrependidos, convertidos depois das cinco da tarde, quando o eleitorado já começava a guardar a bandeira e a urna ensaiava o repouso. Mas eis que o advogado de Lula e ministro do Supremo, Cristiano Zanin, chamou o VAR e conseguiu esticar o jogo numa prorrogação. No Brasil, até a democracia ganha acréscimos quando o placar ameaça contrariar o roteiro.

Outra façanha invisível aos institutos foi a mobilização da esquerda, que repetiu o fenômeno francês de 2024. Lá, a direita venceu o primeiro turno, mas a esquerda se articulou para barrar sua ascensão no segundo turno. Aqui, a versão cabocla foi ainda mais espetacular: o eleitor progressista, conhecido por ler dois livros entre o café e o jantar, largou Proust, pegou o ônibus e correu para salvar a democracia. Paris é uma festa lá e aqui.

Só faltou a imprensa explicar como tanta consciência política coube num domingo tão chuvoso. O eleitorado brasileiro, que costuma confundir programa de governo com bula de remédio, virou uma legião de estrategistas franceses. E até muitos bolsonaristas, só pode, parece ter trocado de lado na undécima hora, como quem muda de camisa no intervalo. As pesquisas? Não viram nada. Os analistas? Também não. A imprensa? Enalteceu a virada épica.

Os comentaristas, que na véspera distribuíam certezas como panfletos, descobriram depois que o resultado era inevitável. É a velha ciência retrospectiva: antes da eleição, ninguém sabe; depois, todo mundo explica. E os institutos de pesquisa, que erraram o futuro e agora vão passar os próximos meses pesquisando por que erraram. Até a próxima eleição, quando errarão de novo, com metodologia atualizada e a mesma cara de paisagem.

No país varonil, o eleitor sempre surpreende, o instituto nunca aprende e a democracia segue em cartaz. Só não sabemos se estamos diante de uma revolução popular ou de mais um episódio de Além da Imaginação. Em qualquer caso, a revolução do socialismo eletrônico do PT avança para mais uma década de poder (já são 40 anos de inércia) e as pesquisas já podem encomendar a faixa; pois é a candidata favorita ao próximo erro eleitoral.

Dois Brasis Definitivamente, o país que sai das urnas é uma nação de dois povos completamente diferentes e cada vez mais inimigos. Não me venham com baboseiras sociológicas e demagógicas de que precisamos de pacificação.

Urnas Hugo Motta, o papangu paraibano, balbuciou elogios ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, que apesar de seguras precisam ser substituídas. Disse ser referência mundial. Não é. As referências são copiadas, o que não é o caso.

Perfil Prefiro ir na contramão da grande imprensa na análise dos supostos erros na campanha de Flávio Bolsonaro. Não foi o discurso radical de Nikolas e Marçal que afastou votos, mas a diplomacia de Flávio em contraste com o seu pai.

Combate Foi o radicalismo, a valentia e o sarcasmo que fizeram Jair Bolsonaro o maior líder da direita no país. O ex-presidente resgatou o discurso combativo e patriótico que o regime militar tinha contra o terrorismo da antiga esquerda.

Congresso Vamos aguardar se os senadores e deputados eleitos com o discurso da direita irão manter a postura na nova legislatura. Vão atuar na missão dada pelo povo, boicotando o governo socialista, ou irão se encantar com as gordas emendas?

Centrão Mas é bom que os eleitores de direita não alimentem ilusões quanto aos seus representantes. Com 40 anos no poder, Lula e o PT sabem cooptar parlamentares e logo botarão a roupa do Centrão nos direitistas sazonais.

Militância E mais uma vez ficou claro que a direita não tem uma militância determinada como a esquerda, até por menos tempo de prática. Quantas vezes eu vi pretensos direitistas bem educados diante das aberrações da pauta identitária.

Liderança Já que são os votos e a popularidade que moldam uma liderança, Allyson Bezerra precisa entender o papel de líder da oposição ao futuro governo Cadu. Afinal de contas, o mossoroense sai dessa eleição num empate técnico.

Disputa Tanto a vitória de Cadu (que tem direito à reeleição), quanto a derrota de Allyson desmancham imediatamente aquela sensação de favoritismo absoluto do senador Styvenson Valentim para uma próxima eleição de governador.

Prefeitura Com Cadu no trono, o PT passará a ter nomes de sobra para a sucessão do prefeito Paulinho Freire (que é forte para sua reeleição). Além de Natália Bonavides, pode formar um chapão com Fátima Bezerra e Fernando Mineiro.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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