Em destaque: Impulsionadas pelo delivery, as vendas de motos batem seguidos recordes no Brasil
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Consulte formatos e valores disponíveisPriorize VEJA no Google Ler Resumo As motocicletas estão dominando o cenário urbano brasileiro, com vendas recordes impulsionadas por delivery e custo-benefício. A frota cresce, mas traz consigo um grande desafio de segurança viária, com motociclistas representando 40% das mortes no trânsito. Entenda a expansão e seus dilemas. Este resumo foi útil?
Há uma invasão em curso no Brasil. Basta sair à rua e ver com os próprios olhos: são as motocicletas, que surgem de onde menos se espera, serpenteiam apressadas por entre os carros e amontoam-se em bandos nos faróis. Elas estão dominando a paisagem das cidades e desafiando o ritmo do trânsito. Nunca se venderam tantas motos no país. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores e Similares (Abraciclo) projeta o emplacamento de 2,4 milhões de unidades em 2026, acima do recorde de 2,2 milhões do ano passado. A produção deve se aproximar do pico histórico, de 2008, com 2,1 milhões de unidades. No total, 39 milhões de motos circulam pelo país, o que representa 29% da frota de veículos. Vinte anos atrás, a proporção era de 18%. Pedestres e motoristas, abram alas: o transporte sobre duas rodas motorizadas só vai aumentar.
O crescimento da frota de motocicletas está ligado à expansão dos serviços de entrega, à dificuldade das famílias de financiar um carro — opção mais cara de transporte privado — e, nas grandes cidades, ao desejo de driblar o congestionamento. “Nada menos que 22% das novas motos vendidas são para trabalhadores de delivery”, diz Marcos Bento, presidente da Abraciclo. Para outros usos, o fator preço conta muito. Uma moto básica custa entre 11 000 e 15 000 reais. Já o preço do carro popular fica na faixa de 70 000 a 80 000 reais. A diferença explica por que as motocicletas se tornaram o veículo preferido nas regiões mais pobres do Brasil. No Norte, são 51% da frota. No Nordeste, 46%.
Segundo especialistas nesse mercado, o crescimento da frota de motos vai continuar no próximo ano, mas de forma menos acelerada. “O motivo é o alto endividamento das famílias, o que dificulta o acesso ao crédito e, portanto, a capacidade de comprar novas unidades”, diz Antônio Jorge Martins, professor de Estratégia Empresarial da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo. Como esses fatores atrapalham o mercado de automóveis ainda mais, Milad Neto, diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, estima que as vendas de motos devem continuar crescendo a uma taxa superior à dos carros. Para 2027, por exemplo, ele projeta um aumento de 3,3% na venda de automóveis e de 6,4% na de motos. “Se esse ritmo se mantiver, a frota de motocicletas pode ultrapassar a de automóveis na próxima década”, diz Milad Neto.
A invasão das motos não se restringe ao uso para o trabalho e ocorre também em segmentos de maior valor. Entre as marcas que aproveitam o aquecimento do mercado está a Royal Enfield, multinacional indiana que fabrica modelos de passeio ou estradeiras. Para este ano, a empresa espera um crescimento de 20% das vendas no Brasil. Com esse otimismo, a companhia, que produzia por aqui em parceria com a Dafra e o Grupo Multi, investiu para ter sua própria fábrica. “Nossa unidade em Manaus está prevista para ser inaugurada no ano que vem”, afirma Gabriel Patini, diretor-executivo da Royal Enfield para a América Latina. A documentação da unidade aponta que ela terá uma capacidade de produção de 32 000 motocicletas por ano.
O avanço sobre duas rodas, contudo, traz uma conta que não aparece nas concessionárias. Os motociclistas representam cerca de 40% dos mortos no trânsito brasileiro, o que torna a expansão da frota um desafio de segurança viária, principalmente para as gestões municipais. Mais do que acomodar um número crescente de motos nas ruas, os municípios precisam reduzir velocidades, reforçar a fiscalização e redesenhar cruzamentos e trechos de maior risco. Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura implantou a Faixa Azul, sinalização que organiza a circulação de motos entre as faixas dos demais veículos, numa tentativa de reduzir conflitos e acidentes. Há também resistência ao transporte de passageiro por aplicativo em motos em diversas cidades, justamente sob o argumento de que a modalidade eleva o risco de acidentes. A invasão das motocicletas impõe um dilema: acomodar uma alternativa de transporte e renda sem ampliar o custo humano da mobilidade urbana.
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