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Em destaque: Google aporta US$ 50 mil em IA brasileira para ampliar acessibilidade na educação

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 6 de novembro de 2026 às 12:20
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Em destaque: Google aporta US$ 50 mil em IA brasileira para ampliar acessibilidade na educação
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Google aporta US$ 50 mil em IA brasileira para ampliar acessibilidade na educação Em entrevista exclusiva à EXAME, executivo detalha parceria com a Fundação Dorina Nowill e explica como centro de pesquisa em São Paulo conecta universidades e tecnologias focadas em pessoas com deficiência Letícia Ozório Repórter de ESG

Última atualização em 6 de novembro de 2026 às 12h14.

Priorizar nos meus resultados Google Accessibility Discovery Center (ADC): centro de acessibilidade inaugurado pelo Google em São Paulo une tecnologia da cidade universitária com desenvolvimento de soluções para a acessibilidade (Google/Reprodução)

O Google, por meio de seu braço filantrópico Google.org, destinou US$ 50 mil à Fundação Dorina Nowill para Cegos para ampliar o acesso a uma inteligência artificial desenvolvida no Brasil capaz de transformar imagens, gráficos e ilustrações em descrições acessíveis a pessoas cegas ou com baixa visão.

O investimento permitirá que a instituição disponibilize gratuitamente uma versão comunitária da Dorina IA, plataforma criada para descrever elementos visuais de materiais didáticos. A ferramenta será oferecida em um site, no qual usuários poderão enviar imagens para receber descrições adaptadas às necessidades de pessoas com deficiência visual.

A iniciativa busca enfrentar uma barreira presente no ambiente educacional: a dependência de descrições de terceiros para compreender informações apresentadas visualmente, especialmente em gráficos, tabelas e ilustrações utilizados em atividades escolares.

Em entrevista exclusiva à EXAME, Bernardo Barlach, gerente de relacionamento e parcerias em acessibilidade do Google para a América Latina, explicou que o investimento faz parte de uma estratégia mais ampla da companhia para desenvolver tecnologias a partir das necessidades das pessoas com deficiência.

"A inteligência artificial vem para acelerar isso, dar essa oportunidade. Porém, a responsabilidade de criar experiências acessíveis é de todos nós", afirmou.

Segundo o executivo, a decisão de apoiar a Fundação Dorina foi motivada não apenas pela trajetória da instituição, mas pelo conhecimento acumulado na produção de conteúdos acessíveis e por uma parceria construída ao longo dos últimos anos.

"A Dorina tem um conhecimento válido de como as imagens devem ser descritas para a comunidade e ela treinou uma IA específica para isso", disse Barlach.

Diferentemente de ferramentas de inteligência artificial voltadas à descrição genérica de imagens, a Dorina IA foi desenvolvida para atender às exigências pedagógicas de conteúdos educacionais.

O sistema utiliza o conhecimento da fundação na adaptação de materiais didáticos para produzir descrições que não se limitem a identificar objetos ou elementos presentes em uma imagem. A proposta é transmitir as informações necessárias à compreensão do conteúdo sem antecipar interpretações ou conclusões que caberiam ao estudante.

Segundo Barlach, essa distinção é importante porque a descrição de uma imagem para uma pessoa cega não deve necessariamente reproduzir a forma como uma pessoa que enxerga interpretaria o mesmo conteúdo.

"Existem alguns princípios de não atribuir valor quando você está descrevendo uma imagem", explicou. "A descrição de imagem segue o mesmo princípio", acrescentou, ao comparar a neutralidade necessária nesse processo à narração de livros acessíveis.

Na produção interna da Fundação Dorina, a plataforma utiliza o modelo Human-in-the-Loop, ou participação humana no processo de desenvolvimento e validação da inteligência artificial.

As descrições passam pela revisão de especialistas e profissionais cegos da própria instituição. A fundação também mantém uma parceria técnica com pesquisadores e geógrafos da Universidade de São Paulo (USP) para aperfeiçoar a descrição de representações espaciais, gráficos e tabelas.

Essa curadoria é especialmente relevante em materiais didáticos, nos quais uma descrição imprecisa pode comprometer a interpretação de conceitos ou informações.

A versão comunitária pretende ampliar o uso da tecnologia para além da produção especializada da fundação, permitindo que professores, familiares e outras pessoas da rede de apoio adaptem conteúdos visuais. A abertura da plataforma ocorrerá em fases, com apoio do Google.org.

Para Rafael Martins, gerente de TI e Inovação da Fundação Dorina Nowill para Cegos, a ferramenta busca reduzir a dependência de terceiros no acesso à informação.

"Nosso compromisso com a inclusão vai além de adaptar e tornar acessíveis os materiais: trata-se de garantir autonomia e dignidade para as pessoas cegas ou com baixa visão, e dar ferramentas acessíveis para toda a rede de apoio ao redor", afirmou.

A doação de US$ 50 mil não representa o primeiro projeto conjunto das duas organizações. Durante a pandemia, o Google participou de uma iniciativa que disponibilizou 2 mil aparelhos celulares, acompanhados de dois anos de plano de internet da Claro, para distribuição pela Fundação Dorina a pessoas cegas ou com baixa visão.

A companhia também ofereceu treinamento para utilização do TalkBack, leitor de tela do Android que permite navegar pelo aparelho por meio de comandos sonoros e gestos.

Segundo Barlach, a iniciativa possibilitou que beneficiários utilizassem o celular para atividades cotidianas e econômicas, incluindo a venda de produtos pelo WhatsApp.

Mais recentemente, a fundação também participou de testes de um recurso de visão guiada do Gemini, inteligência artificial do Google, que utiliza a câmera do celular para ajudar usuários a identificar objetos e obter informações sobre o ambiente.

A experiência serviu para aproximar os desenvolvedores das necessidades de quem utiliza tecnologias assistivas, recursos destinados a reduzir barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência.

No caso da Dorina IA, a dinâmica foi diferente: a tecnologia foi desenvolvida pela própria instituição brasileira, enquanto o Google.org entrou com os recursos financeiros para ampliar sua distribuição.

"Esse é o conhecimento local que nem sempre o Google tem, mas a Dorina tem", afirmou Barlach.

ADC: Centro do Google para acessibilidade fica na Cidade Universitária e permite trocas com equipes de pesquisa em tecnologia da Universidade de São Paulo

O aporte à Fundação Dorina também está relacionado à atuação do Accessibility Discovery Center (ADC), centro de acessibilidade inaugurado pelo Google em São Paulo.

Localizado no Centro de Engenharia da companhia, no Edifício Adriano Marchini, dentro do campus do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) na Universidade de São Paulo (USP), o espaço é o primeiro desse tipo na América Latina e integra uma rede internacional que inclui unidades em cidades como Londres e Dublin.

Com aproximadamente 100 metros quadrados, o ADC reúne ambientes para oficinas, demonstração de tecnologias assistivas e testes de usabilidade.

As estações apresentam soluções relacionadas a visão, audição, jogos, cognição, destreza e acessórios adaptados. Entre os recursos demonstrados estão leitores de tela, legendagem em tempo real, controles de videogame acessíveis e interfaces alternativas de navegação.

Mas, segundo Barlach, a função do centro vai além da apresentação de produtos. "O nosso trabalho é basicamente identificar oportunidades de melhorar os produtos do Google no que diz respeito à acessibilidade e à experiência das pessoas com deficiência", explicou.

O executivo afirma que uma tecnologia pode cumprir requisitos técnicos de acessibilidade sem necessariamente oferecer uma experiência adequada para seus usuários.

É justamente essa diferença que o centro pretende investigar, aproximando engenheiros e designers de pessoas com deficiência durante o desenvolvimento e a avaliação das ferramentas.

"Existe uma diferença muito grande entre você atingir vários requisitos técnicos e prover uma boa experiência", disse.

A localização no IPT, próximo à USP, também foi considerada na estruturação do projeto. A intenção é aproximar a companhia de pesquisadores, estudantes e organizações brasileiras para desenvolver soluções voltadas a demandas locais.

De acordo com Barlach, essa relação com a academia é uma das características que diferenciam a unidade brasileira dos outros centros da rede.

Entre as iniciativas acompanhadas pelo Google no Brasil está uma colaboração com o Comitê Paralímpico Brasileiro para aperfeiçoar uma tecnologia de orientação de pessoas com deficiência visual.

O projeto utiliza inteligência artificial e a câmera de um celular para identificar uma linha roxa no chão e orientar atletas durante a corrida por meio de sinais sonoros. A próxima etapa, segundo o executivo, é desenvolver um modelo que não dependa dessa marcação física.

"Estamos trabalhando junto com eles, pegando feedback dos atletas, para que tenhamos um modelo mais independente", afirmou.

A possibilidade de utilizar a tecnologia fora do ambiente esportivo também está entre as perspectivas discutidas. A ideia é que recursos semelhantes possam, futuramente, apoiar deslocamentos cotidianos, como uma caminhada ao redor do quarteirão.

Outra frente envolve organizações ligadas à USP que desenvolvem soluções de comunicação aumentativa e alternativa, conjunto de recursos utilizado por pessoas que enfrentam dificuldades de fala ou comunicação.

Barlach citou uma ferramenta que utiliza inteligência artificial para criar pictogramas, representações visuais de palavras, objetos ou ações, e organizar frases com conjugação verbal.

A tecnologia pode ser utilizada, por exemplo, por pessoas autistas e outros usuários com necessidades específicas de comunicação.

O ADC pretende funcionar como ambiente de aproximação entre esses desenvolvedores, pesquisadores e potenciais usuários, permitindo testes e troca de informações sobre as soluções.

Para Barlach, o envelhecimento da população e a ampliação do uso de serviços digitais tornam a acessibilidade uma questão que ultrapassa o atendimento a pessoas com deficiência permanente.

O executivo cita situações temporárias, como a dificuldade de utilizar um dispositivo após quebrar um braço, e circunstâncias cotidianas nas quais recursos como legendas e ajustes de contraste também podem beneficiar pessoas sem deficiência.

Ele compara esse efeito ao uso de rampas nas calçadas, originalmente construídas para facilitar a circulação de pessoas em cadeiras de rodas, mas também utilizadas por quem transporta malas, carrinhos de bebê ou outros objetos.

Na avaliação do gerente, pensar acessibilidade desde o início do desenvolvimento dos produtos evita que adaptações sejam tratadas apenas como correções posteriores.

"Toda vez que criamos algo, inclusive com inteligência artificial, pensamos em quem podemos estar potencialmente deixando de fora", afirmou.

Barlach, que também é uma pessoa com deficiência, defende que a participação direta desse público nos processos de desenvolvimento é necessária para identificar problemas que poderiam passar despercebidos pelas equipes técnicas.

A estratégia inclui ainda o apoio a pesquisas acadêmicas e a disseminação de padrões de acessibilidade entre desenvolvedores de sites e aplicativos.

Segundo o executivo, o Google.org continua analisando possibilidades de novos investimentos, mas não há aportes adicionais confirmados para o fim de 2026 ou para 2027. "Continuamos explorando novos aportes através dos programas da Google.org", disse.

Enquanto isso, entre as prioridades do centro de São Paulo estão a continuidade do projeto com o Comitê Paralímpico Brasileiro, a aproximação com o IPT e a USP e o trabalho de conscientização sobre boas práticas de acessibilidade digital.

Para Barlach, o desafio não se restringe às ferramentas desenvolvidas pelas grandes empresas de tecnologia. "Não tem como o Google, nem nenhuma empresa, fazer tudo sozinho. A acessibilidade é uma questão para toda a sociedade."

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