Em destaque: Fim do personalismo e futuro da centro-direita
Na época, sentenciou que “o sucesso consiste em ir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo”.

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Consulte formatos e valores disponíveisWinston Churchill, em julho de 1945, após o fim da II Guerra Mundial, mesmo festejado internacionalmente como herói nacional, sofreu uma derrota avassaladora para o Partido Trabalhista. Na época, sentenciou que “o sucesso consiste em ir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo”.
O senador Flávio Bolsonaro deu-se por derrotado. Saiu do Brasil a poucos minutos do término da apuração do segundo turno. O gesto inesperado transmitiu a imagem de evasão e abalou profundamente os seus adeptos no campo conservador.
Tais fatos, contudo, não significam o fim do pensamento liberal-conservador no Brasil. A interpretação predominante é que o episódio apenas expôs a fragilidade do personalismo do chamado bolsonarismo, corrente política que exige fidelidade ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao seu núcleo familiar, em detrimento de princípios e propostas. A Ciência Política define esse tipo de liderança, como aquela em que o carisma individual se sobrepõe às próprias instituições. Os adeptos vão de pessoas idôneas e de boa-fé até fanáticos, que sobrepõem a lealdade pessoal à preservação das regras democráticas e partidárias.
Cabe observar que, por mais graves que sejam os desdobramentos do inusitado episódio protagonizado por Flávio Bolsonaro ao trocar o seu país pelos Estados Unidos, ele não provocará a derrocada definitiva da oposição. Blocos liberais, conservadores, reformistas e municipalistas existiam antes da ascensão dessa dinastia e continuarão existindo depois dela.
A experiência internacional comprova essa dinâmica. No Reino Unido, após ser aniquilado nas urnas em 1983, o Partido Trabalhista iniciou uma dolorosa renovação interna, afastou extremistas e renunciou a dogmas ultrapassados. O resultado foi o surgimento do New Labour sob Tony Blair, que retornou ao poder em 1997 com uma vitória histórica.
Na Alemanha, após graves denúncias de corrupção, a União Democrata-Cristã se renovou e, com a eleição de Angela Merkel, resgatou a credibilidade e governou o país por 16 anos.
Pelo visto, o que está em risco no Brasil não é o destino da oposição, mas a capacidade desse grupo de demonstrar que as suas ideias são maiores que os seus líderes de momento. Na história política, quando finda um ciclo político, começa outro. Líderes que se julgam insubstituíveis terminam engolidos pelo esquecimento.
O Brasil é maior que uma família. Se o personalismo bolsonarista escolheu a porta dos fundos da história, a verdadeira centro-direita tem o dever de ocupar a porta da frente: a da maturidade, da coerência e da reconstrução. O culto à personalidade acabou. Começa o tempo das ideias de verdade.
Flávio Bolsonaro, candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial de 2026, divulgou na tarde de ontem (28), uma carta, em que se autoproclama “verdadeiro presidente eleito” e alega fraudes na apuração, sem apresentar uma única prova concreta. Ao recusar o resultado oficial das urnas e do TSE, ele repete o padrão de Trump de não se conformar com a derrota e lançar dúvidas infundadas sobre a integridade do processo.
A decisão do STF atendeu simultaneamente aos pedidos de Flávio e de Lula, ambos pela prorrogação. Ao insistir em tais alegações sem evidências, Flávio contribui para manchar a imagem do Brasil no exterior, justamente num momento em que o voto eletrônico é apresentado ao mundo como conquista de segurança e eficiência. Ele busca o papel de mártir e de líder exilado, comparando-se a figuras históricas, à custa do prestígio e da estabilidade institucional de seu próprio país.
Levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que houve 34,7 mil votos após às 17h no segundo turno. Flávio fala em fraude de 10 milhões de votos. Que o debate siga no campo político e jurídico legítimo, preservando a conquista democrática do voto eletrônico. O Brasil não merece mais um capítulo de polarização baseado em acusações que, até aqui, carecem de comprovação consistente.
A declaração do governador eleito do RN, Eduardo Xavier, ao apontar Fátima Bezerra como a “grande vencedora” da eleição, destaca-se como notável exceção. Demonstrou lealdade e elegância institucional. Em vez de distanciar-se para criar marca própria, preferiu reverenciar quem apostou em seu nome quando ainda era um perfil técnico, desconhecido da política. O gesto resgata uma virtude, cada vez mais escassa: a gratidão.
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