Em destaque: EUA pediram a Musk por anos para alterar serviço da Starlink na Ucrânia, Oriente Médio e Irã
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Consulte formatos e valores disponíveisMuito antes da redução do acesso militar da Ucrânia ao sistema de comunicações por satélite de Elon Musk neste mês, os governos de Joe Biden e Donald Trump já haviam pedido à SpaceX, em diversas ocasiões, que ativasse ou desativasse o serviço Starlink em diferentes países. A informação é de seis ex-autoridades seniores dos EUA familiarizadas com o assunto, que falaram à Reuters sob condição de anonimato. Os pedidos anteriores são divulgados publicamente pela primeira vez.
As solicitações revelam uma relação próxima entre o governo americano e a SpaceX, na qual as administrações dependem da empresa privada para ajudar a implementar decisões de política externa em grau descrito pelas fontes como sem precedentes.
Durante o governo Biden, quatro ex-autoridades disseram que as solicitações incluíram o desligamento do serviço para impedir que milícias iranianas no Iêmen e no Líbano usassem o Starlink para se comunicar. O governo também pediu à SpaceX que ativasse o serviço para fornecer acesso à internet dentro do Irã e para apoiar militarmente a Ucrânia.
Cinco ex-autoridades afirmaram que as discussões entre o governo e a SpaceX — que geralmente envolviam representantes do Pentágono e da Casa Branca — se concentravam frequentemente em impedir que grupos como os Houthis, ligados ao Irã no Iêmen, e o Hezbollah, no Líbano, usassem terminais Starlink. O governo Biden compartilhou informações com a SpaceX indicando que esses grupos estavam usando terminais desviados, que chegaram aos militantes por meio de intermediários.
Em outubro de 2023, durante combates entre Israel e militantes do Hezbollah no sul do Líbano, agentes de inteligência informaram à Casa Branca que indivíduos ligados ao Hezbollah poderiam ter obtido acesso a terminais Starlink. Preocupações semelhantes surgiram em relação aos Houthis no Iêmen em 2024, durante uma campanha aérea americana contra o grupo. Em ambos os casos, a administração entrou em contato com a SpaceX e pediu que os terminais fossem identificados e desligados. Pelo menos alguns deles foram desativados, segundo duas das fontes.
Logo após a invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia em 2022, autoridades do governo Biden pressionaram a SpaceX a expandir o uso do Starlink para as forças militares ucranianas, disseram duas ex-autoridades. Em outro momento, a administração Biden pediu à SpaceX que ativasse o Starlink no Irã durante um movimento de protestos iniciado em setembro de 2022, após a morte de Mahsa Amini — uma iraniana presa por não usar o hijab corretamente. Terminais foram levados ao país com ajuda da administração, segundo uma das fontes, que não informou quantos foram transferidos.
Em um documento de 2024 ao Bureau de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio dos EUA, a SpaceX afirmou que trabalha em estreita colaboração com agências do governo americano para garantir autorizações de exportação quando necessário e para proteger tecnologia em apoio aos objetivos de segurança nacional e de política externa dos EUA.
O governo Trump tomou medida semelhante e discutiu com Musk e a SpaceX a possibilidade de levar terminais Starlink ao Irã e ativá-los após ataques americano-israelenses no país em junho de 2025 e novamente em fevereiro de 2026, segundo um ex-alto funcionário do governo Trump e uma pessoa familiarizada com o assunto. O objetivo era fortalecer o acesso à internet e as comunicações para manifestantes antigovernamentais.
Nem o governo Trump nem a SpaceX confirmaram publicamente que esses terminais foram ativados. O Wall Street Journal reportou em fevereiro que o governo americano havia enviado milhares de terminais Starlink ao Irã. A delegação do Irã na ONU não respondeu a pedido de comentário.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy afirmou na semana passada que o acesso do país ao Starshield — a versão militar do sistema Starlink — havia sido intencionalmente limitado, interferindo no desempenho dos drones militares ucranianos. Ele disse ainda que as velocidades do Starlink, usado pela Ucrânia em algumas atividades militares incluindo a defesa contra ataques de mísseis russos, também foram reduzidas.
A Reuters já havia reportado que a ordem para reduzir o Starshield partiu de dentro da Casa Branca. O governo Trump reconheceu a redução de velocidade, mas não confirmou se deu a ordem. Consultada, a Casa Branca remeteu a Reuters a declarações de Trump feitas na sexta-feira, quando ele disse não ter falado com Musk sobre os problemas de acesso ao Starlink para a Ucrânia e que “se houver um problema, vou resolver”.
Halyna Yusypiuk, porta-voz da embaixada ucraniana em Washington, disse que a prioridade da Ucrânia é “ter o serviço restaurado à velocidade normal o mais rápido possível, pois as vidas do nosso povo dependem disso”.
A SpaceX não respondeu a pedidos de comentário. Musk afirmou em uma publicação em rede social no início desta semana: “Os sistemas Starshield são de propriedade e controlados pelo governo dos EUA. Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelos militares americanos e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos.”
Os receptores Starshield, em grande parte imunes ao bloqueio por rádio, são usados como sistemas de orientação a bordo e para fornecer conexão a um piloto remoto para drones ucranianos, inclusive em áreas profundas atrás das linhas russas dentro da Ucrânia. Militares ucranianos afirmam que atualmente não existe rival para as capacidades dos produtos da SpaceX.
O papel de Musk como CEO de uma empresa com influência sobre a segurança nacional dos EUA gerou questionamentos sobre quem toma as decisões a respeito dos serviços de satélite da SpaceX. Armand Musey, presidente da Summit Ridge Group, consultoria do setor de satélites, disse que Musk “deveria ser um executivo de negócios, com contratos governamentais, mas está essencialmente tomando grandes decisões de política externa”.
Musey acrescentou: “Ele é uma pessoa suficientemente ambígua que você não sabe se suas decisões são uma espécie de peculiaridade pessoal, ou se há uma influência externa que o está impactando.”
Em anos anteriores, Musk já havia agido para limitar o acesso da Ucrânia ao Starlink. Em 2022, segundo reportagem da Reuters, Musk ordenou que funcionários da SpaceX cortassem a cobertura do Starlink em áreas que a Ucrânia tentava retomar — uma decisão que surpreendeu autoridades da Casa Branca. Musk também afirmou publicamente que recusou um pedido ucraniano de 2022 para ativar sua rede de satélites na cidade portuária de Sevastopol, na Crimeia, para auxiliar um ataque à frota russa, dizendo que temia cumplicidade em um grande ato de guerra.
A recente crise em torno das restrições ao uso ucraniano dos serviços de satélite da SpaceX também abalou autoridades na Europa. Algumas delas argumentam que a Europa precisa desenvolver suas próprias capacidades militares de comunicação por satélite, porque atualmente não existe alternativa viável no curto prazo.
Beatriz Campos é jornalista formada pela Universidade São Judas Tadeu e jornalista do Olhar Digital.
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