Em destaque: Entre tarifas e guerras, eleitorado de Trump está insatisfeito às vésperas das midterms
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Consulte formatos e valores disponíveisEntre tarifas e guerras, eleitorado de Trump está insatisfeito às vésperas das midterms Eleitores associam políticas comerciais e conflito no Oriente Médio ao custo de vida, mas mudanças na composição do Congresso podem não ser suficientes para reverter medidas do presidente americano Donald Trump se encontra em posição desconfortável às vésperas das eleições de meio mandato nos EUA (JEFF KOWALSKY/AFP)
Publicado em 23 de outubro de 2026 às 06h02 .
Priorizar nos meus resultados Google RESUMO + A três semanas das eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, o presidente Donald Trump enfrenta eleitores insatisfeitos com a alta dos preços, as tarifas e a guerra contra o Irã. Segundo o centro de estudos britânico Chatham House, uma derrota republicana pode ampliar a pressão do Congresso, mas dificilmente produzirá mudanças rápidas no custo de vida.
A três semanas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfrenta um eleitorado insatisfeito com a economia, furioso com a alta dos preços e inquieto em relação à insegurança.
A irritação está, primeiramente, ligada à política externa da Casa Branca, especialmente às tarifas comerciais e à guerra contra o Irã, que muitos americanos percebem como fatores que agravam o custo de vida, segundo avaliação do think tank britânico Chatham House.
Segundo a análise, essa conexão entre a política externa e as dificuldades econômicas tornou a eleição de 3 de novembro um caso incomum na história recente das disputas legislativas americanas. O resultado poderá pressionar o governo a rever suas decisões, embora os mecanismos disponíveis ao Congresso tenham limitações para promover mudanças rápidas no cotidiano da população.
Uma pesquisa realizada pelo think tank Council on Foreign Relations em agosto mostrou que 75% dos americanos estavam preocupados com a capacidade de pagar por alimentos e outros produtos e, entre esses, 83% dos entrevistados preocupados afirmaram que as tarifas haviam encarecido esses bens. Outro levantamento indicou que três em cada quatro eleitores consideram as tarifas um fator importante ao definir seu voto.
A guerra contra o Irã também pesa na avaliação do governo, sobretudo por seus efeitos sobre os preços da energia e sobre as despesas das famílias. Pesquisas adicionais citadas pelo Chatham House indicam que a maioria dos americanos não passaria a avaliar o Partido Republicano de forma mais favorável, mesmo que Trump encerrasse o conflito antes das eleições.
O precedente mais próximo de uma eleição de meio de mandato marcada por tamanha insatisfação com a política externa foi o pleito de 2006, quando a deterioração da guerra no Iraque contribuiu para a derrota dos republicanos. Depois daquela votação, porém, o então presidente George W. Bush ampliou a presença militar americana no país, com o chamado surge , em 2007.
Para o Chatham House, Trump também poderá responder à pressão eleitoral intensificando, em vez de moderando, suas políticas comerciais e militares.
Donald Trump: a depender do resultado das midterms, estará em jogo também o peso da influência do presidente para as eleições de 2028 (Ron Przysucha/US Dept of State/Divulgação)
No caso do Irã , uma eventual mudança na composição do Congresso não implica necessariamente o fim das hostilidades.
Os fatores que têm impedido um acordo antes das eleições devem permanecer após 3 de novembro, diz o Chatham House, e analistas americanos e do Oriente Médio discutem inclusive a possibilidade de uma nova escalada militar. Entre os cenários considerados estão ataques às instalações nucleares iranianas e a intensificação de confrontos indiretos envolvendo grupos aliados de Teerã no Iraque.
Trump também anunciou o envio de mais 9 mil militares para a região, sinalizando que a presença americana no Oriente Médio poderá ser ampliada mesmo diante da insatisfação popular.
O Congresso dispõe de instrumentos para tentar limitar a atuação militar do presidente. Um deles é a Lei de Poderes de Guerra, de 1973, que estabelece a necessidade de autorização legislativa para operações militares que ultrapassem 60 dias.
A Câmara dos Representantes já aprovou, por três vezes, uma resolução relacionada ao conflito com o Irã, com o apoio de alguns republicanos, mas Trump conseguiu impedir sua aprovação no Senado, na votação mais recente, por apenas um voto.
Uma nova composição parlamentar poderia aumentar as chances de aprovação da medida em ambas as Casas. Ainda assim, o instrumento tem limitações práticas: presidentes de ambos os partidos já vetaram ou ignoraram tentativas anteriores de restringir operações militares por meio desse mecanismo, incluindo o próprio Trump, em episódios relacionados ao Iêmen, em 2019, e ao Irã, em 2020.
Além disso, a Justiça americana rejeitou ações de parlamentares que buscavam obrigar o Executivo a cumprir a lei.
Na avaliação do Chatham House, a aprovação de uma resolução conjunta poderia aumentar a pressão política sobre a Casa Branca, mas dificilmente seria suficiente, por si só, para encerrar a guerra. O Congresso também pode exercer controle orçamentário, bloqueando ou limitando recursos destinados às operações militares.
Esse caminho deve ganhar força depois das eleições, quando os parlamentares se reunirem para a chamada sessão lame duck , ou"pato manco", período de transição anterior à posse do novo Congresso, em janeiro.
Os legisladores deverão analisar um pedido do Pentágono por recursos adicionais para financiar a guerra. Democratas e alguns republicanos já bloquearam uma tentativa de aprovar esse financiamento, o que deve provocar um novo embate político.
A pressão orçamentária também se relaciona aos planos de defesa mais amplos do governo. Antes da guerra, Trump havia solicitado um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão, um aumento de 44%.
Com as Forças Armadas americanas enfrentando a necessidade de repor mísseis caros e de manter compromissos de dissuasão em outras partes do mundo, o custo do conflito pode aumentar a resistência ao financiamento de novas operações.
Mesmo assim, qualquer redução dos gastos dificilmente será rápida o suficiente para aliviar os preços antes que os eleitores sintam os efeitos.
Nos EUA, grande parcela dos americanos culpa o custo de vida elevado nas tarifas do presidente (Montagem/Canva/Exame)
No comércio internacional , as perspectivas de mudança também são incertas. A Constituição americana atribui ao Congresso o poder de estabelecer tarifas, o que permitiria aos parlamentares revogar medidas de Trump, fixar alíquotas por lei ou exigir autorização legislativa para novos aumentos.
Na prática, porém, maiorias parlamentares de diferentes composições partidárias tiveram dificuldades para construir um consenso sobre política comercial na última década.
Embora democratas e republicanos tenham se oposto a diferentes acordos de livre-comércio e a medidas tarifárias presidenciais, as divergências quanto ao nível adequado de proteção comercial impediram a formação de uma alternativa comum.
Os democratas pretendem investigar possíveis irregularidades nas negociações comerciais do governo e na concessão de isenções tarifárias. A iniciativa poderá aumentar o custo político das medidas de Trump, mas isso não significa que o partido tenha um plano unificado para reduzir tarifas em larga escala.
A cooperação republicana também é incerta, embora possa haver espaço para acordos pontuais envolvendo produtos como materiais escolares e itens de construção.
Enquanto isso, a Casa Branca prepara novas medidas comerciais. O governo iniciou outra rodada de investigações com base na Seção 301 da legislação comercial americana contra a União Europeia e outras 15 economias, sob a alegação de que esses parceiros mantêm um excesso estrutural de capacidade produtiva e exportam produtos a preços artificialmente baixos.
O governo também mantém aberta a possibilidade de aplicar tarifas sobre semicondutores, minerais críticos, aeronaves comerciais e componentes com base na Seção 232, que permite medidas comerciais justificadas por ameaças à segurança nacional.
Outra frente envolve o mecanismo de ajuste de carbono nas fronteiras da União Europeia, conhecido como CBAM. A administração Trump abriu uma consulta pública sobre os efeitos da política europeia sobre empresas americanas e eventuais medidas de retaliação.
Como o prazo para o envio de manifestações termina na semana seguinte às eleições, o governo poderá transformar o tema em uma nova frente de pressão comercial em 2027, seja para negociar com os europeus, seja para introduzir tarifas adicionais caso medidas anteriores sejam derrubadas nos tribunais.
Uma pesquisa realizada em agosto mostrou que 75% dos americanos estavam preocupados com a capacidade de pagar por alimentos e outros produtos. Entre os entrevistados preocupados, 83% afirmaram que as tarifas encareceram esses bens.
Uma nova composição do Congresso pode aumentar a pressão sobre Donald Trump, mas não garante o fim da guerra. Segundo o Chatham House, uma resolução conjunta teria peso político, porém dificilmente encerraria o conflito por si só.
A Lei de Poderes de Guerra, de 1973, exige autorização do Congresso para operações militares com mais de 60 dias. A Câmara dos Representantes aprovou três vezes uma resolução relacionada ao Irã, mas Trump impediu sua aprovação no Senado na votação mais recente, por apenas um voto.
O Congresso pode bloquear ou restringir recursos destinados às operações militares. Democratas e alguns republicanos já barraram uma tentativa de financiar o conflito, e um novo embate deve ocorrer durante a sessão de transição anterior à posse do novo Congresso.
A Constituição dos Estados Unidos permite ao Congresso revogar tarifas, definir alíquotas por lei ou exigir autorização legislativa para novos aumentos. A falta de consenso entre democratas e republicanos sobre o nível adequado de proteção comercial, porém, dificulta mudanças amplas.
A Casa Branca abriu investigações comerciais contra a União Europeia e outras 15 economias e avalia tarifas sobre semicondutores, minerais críticos, aeronaves e componentes. O governo também analisa possíveis medidas de retaliação ao mecanismo europeu de ajuste de carbono nas fronteiras, conhecido como CBAM.
Brian Winter é vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas e editor-chefe da revista Americas Quarterly
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