Disputado na SPFW, modelo Mouhamed Diop fala a VEJA: “A moda me disponibilizou portas”
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Consulte formatos e valores disponíveisPriorize VEJA no Google Ler Resumo A jornada de um senegalês que, em busca de uma vida melhor para si e sua mãe, deixou Dacar, enfrentou os perigos do mar e encontrou seu caminho no Brasil. Após trabalhos em frigorífico e como vendedor no Rio, foi descoberto por um olheiro e se tornou um modelo de sucesso, brilhando na SPFW. Sua meta: Louis Vuitton e uma casa para a mãe. Este resumo foi útil?
A decisão de deixar o Senegal surgiu por duas razões: eu queria uma vida melhor para mim e, sobretudo, para a minha mãe. Nasci em Dacar, capital do país. Sou o mais velho de cinco irmãos. Minha mãe cuida dos filhos em casa e meu pai trabalha em uma empresa de câmbio. Não fui à escola regular. Passei oito anos em um colégio árabe, onde aprendi a língua e a religião muçulmana — que é a principal do país. Aos 22, comecei a consertar celulares com um amigo do meu pai. Fiz um curso, ganhei um diploma, mas sabia que queria ir mais longe e ali eu não tinha oportunidades. No começo de 2023, entrei em um barco com amigos para tentar chegar à Espanha. Sabia que muita gente morria nessa travessia. Ficamos quatro dias perdidos no mar até sermos interceptados pela polícia da Mauritânia. Passamos duas semanas presos antes de sermos mandados de volta ao Senegal. Tinha arriscado a vida e estava de novo no ponto de partida. Decidi tentar outra vez, mas na hora de embarcar tive medo e não entrei.
Pesquisei países que seriam uma porta de entrada para outros lugares, como o México e, por fim, os Estados Unidos. O Brasil surgiu como possibilidade. Não conhecia ninguém aqui. Desembarquei em Guarulhos em setembro de 2023 sem saber uma palavra de português. Consegui emprego em um frigorífico no Paraná. Fui fazendo amigos brasileiros e aprendendo português. Anotava as palavras do jeito que soavam, escritas em francês, minha língua natal. Os brasileiros ajudavam muito, e foi conhecendo essas pessoas que desisti dos Estados Unidos e decidi ficar.
Ganhava cerca de 2 000 reais por mês. Podia dobrar esse valor se crescesse na empresa, mas queria mais. Vi senegaleses no TikTok falando de trabalho nas praias do Rio de Janeiro e fui para lá, em dezembro de 2025. Um senegalês me ajudou com um lugar para ficar e comecei a vender carregadores de celular e óculos de sol em Ipanema. Em dias bons, fazia 300 reais. Em outros, não vendia nada. Encontrei no Rio o mesmo afeto que sentia no Senegal. Também me surpreendi: nunca tinha visto tanta gente de sunga e biquíni. Logo me acostumei. Na praia, as pessoas viviam dizendo que eu devia ser modelo. Eu não levava a sério. Um dia, fui mostrar meus produtos a um homem e ele puxou conversa. Se apresentou como olheiro, me mostrou outros senegaleses que agenciava e deixou o contato.
Naquele momento, a moda não parecia uma carreira possível para mim. Sabia que, na minha cultura, trabalhar como modelo poderia não ser bem aceito. Pouco tempo depois, um americano pediu para me fotografar na praia, em um dia em que as vendas estavam fracas. Quando vi as fotos, liguei para o olheiro, que hoje é quase um pai para mim. No meu primeiro trabalho, senti uma felicidade enorme ao vestir roupas tão bonitas. Comecei sem contar para a minha família. Quando postei as campanhas no Instagram, parentes contaram para a minha mãe com comentários maldosos. Mas ela sempre me defendeu e está do meu lado.
Em oito meses de profissão, fiz campanhas para marcas como Misci e Pedro Lourenço. Na São Paulo Fashion Week deste ano, fui o modelo masculino com o maior número de desfiles: dez marcas. Fechei o desfile da À La Garçonne e fui o único homem no da grife Apartamento 03. O objetivo é conseguir desfilar para a Louis Vuitton. A moda me abriu portas. Hoje, ganho, sim, mais do que na praia, mas a maior mudança foi a tranquilidade. Lá, sentia uma pressão psicológica todos os dias, porque minha renda dependia do que eu vendesse. Agora, mesmo em períodos em que o telefone não toca, fico em paz. Meu maior sonho é comprar uma casa para minha mãe. Sinto muita saudade da minha família e quero voltar um dia para reencontrá-la.
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