cultura, riqueza e futuro — Brasil Criativo
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Consulte formatos e valores disponíveisCriativo: cultura, riqueza e futuro A economia criativa é uma riqueza que o Brasil já produz, mas ainda precisa reconhecer plenamente como estratégia de desenvolvimento Ivente Sangalo: cultura como estratégia de desenvolvimento (Alexandre Schneider/Getty Images)
Margareth Menezes e Cláudia Leitão Publicado em 27 de outubro de 2026 às 10h00.
Priorizar nos meus resultados Google Tudo sobre Acompanhe tudo sobre Economia criativa Saiba mais A economia criativa brasileira movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, o equivalente a 3,59% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2025, da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Em 2024, o país tinha cerca de 5,8 milhões de profissionais criativos ocupados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os números revelam uma riqueza que o Brasil já produz, mas ainda precisa reconhecer plenamente como estratégia de desenvolvimento. A pergunta, portanto, não é se podemos investir em cultura e criatividade em um país que enfrenta desigualdades. É como podemos aproveitar melhor nossa capacidade criativa para gerar trabalho, renda, inovação, negócios e oportunidades, ampliando as possibilidades de desenvolvimento do país.
Em 1986, no contexto da redemocratização brasileira, o economista Celso Furtado deixou a chefia da missão diplomática brasileira junto à Comunidade Econômica Europeia para assumir o Ministério da Cultura, no governo Sarney. Sua indicação foi impulsionada por um grande abaixo-assinado de artistas, intelectuais e economistas, encabeçado pela atriz Fernanda Montenegro e avalizado pelo cantor e compositor Gilberto Gil.
Naquele momento, uma pergunta recorria nas entrevistas sobre a criação da pasta: “Num país que passa fome, é necessário um Ministério da Cultura?” Quatro décadas depois da criação da Pasta, a pergunta ainda nos provoca. A fragilidade institucional da cultura permanece diante da ideia de que, em nome do corte de gastos, seria legítimo excluir esse campo do conjunto de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento brasileiro.
Essa visão ignora tanto a dimensão simbólica da cultura quanto sua capacidade de movimentar a economia e transformar realidades. No entanto, o reconhecimento internacional vem se ampliando. Em 4 de setembro deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável, de 2027 a 2036, reafirmando o papel da cultura na construção de sociedades mais inclusivas, resilientes e sustentáveis.
Em um mundo marcado por desigualdades crescentes, a cultura ocupa um lugar cada vez mais estratégico nas agendas de desenvolvimento. A economista Mariana Mazzucato, parceira do Ministério da Cultura, também aborda essa relação em seu livro mais recente, A Economia do Bem Comum, ao refletir sobre a cultura como meio e fim, objetivo da política econômica e, sobretudo, condição para transformar a própria economia.
Não se trata de uma aposta isolada. Diversos países formulam e implementam políticas para a cultura e a economia de bens e serviços que envolvem valor simbólico, tecnologia e inovação. O objetivo é criar ambientes favoráveis a negócios que articulem identidade cultural, sustentabilidade e capacidade de competir em mercados nacionais e internacionais. Em tempos em que se ameaça novamente a institucionalidade da cultura no Brasil, é necessário percebê-la como uma oportunidade inadiável.
A Indonésia, maior economia do Sudeste Asiático, criou um Ministério da Economia Criativa e realiza, neste mês de outubro, sua 5ª Conferência Mundial de Economia Criativa, dedicada ao tema “Criatividade Inclusiva, Coletiva e Contínua”. No Reino Unido, o Plano do Setor de Indústrias Criativas, incluído no Relatório da Estratégia Industrial do governo britânico, prevê 45 milhões de libras para fortalecer a indústria musical.
Entre as medidas estão a garantia de condições confiáveis para os direitos autorais e a propriedade intelectual, o apoio a talentos locais em turnês voltadas à exportação e a intermediação, junto às plataformas de streaming, para renegociar contratos e ampliar a remuneração dos artistas.
Não por acaso, a indústria musical britânica gera 8 bilhões de libras para a economia do país. A Coreia do Sul oferece outro exemplo expressivo. Há cerca de 20 anos, o país passou a investir estrategicamente em suas indústrias criativas, do K-pop aos K-dramas, dos jogos eletrônicos ao cinema. O resultado ultrapassa o desempenho de cada setor: essas produções ampliaram a presença internacional e o soft power sul-coreano. O crescimento das exportações de cosméticos coreanos também se beneficia dessa projeção cultural, que fortalece marcas, desperta interesse pelo país e abre mercados.
Esses exemplos mostram que a economia criativa não se limita à produção artística nem se resume ao entretenimento. Ela articula cultura, tecnologia, inovação, propriedade intelectual, empreendedorismo e comércio exterior. Quando apoiada por políticas públicas consistentes, pode ampliar mercados, gerar empregos qualificados, fortalecer a identidade nacional e projetar países internacionalmente.
O Brasil reúne condições singulares para avançar nessa direção. Como afirmou o presidente Lula em seu recente discurso na ONU, “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Nós, da cultura, reafirmamos esse princípio e acrescentamos: o Brasil é mais do que um celeiro de matérias-primas. Somos também o país da diversidade, da invenção de tecnologias sociais e de uma criatividade que tantas vezes nasce da necessidade e transforma a realidade. Somos o país em que a cultura e a economia criativa poderiam abrir caminhos para a liderança do Brasil no Sul Global, por meio da ampliação dos objetivos do Estado, do redesenho de mercados, da reestruturação de setores públicos e da ressignificação e reativação das relações entre empresa, governo e sociedade.
É nesse horizonte que se insere a Política Nacional de Economia Criativa. A iniciativa expressa a aposta do Ministério da Cultura em um modelo de desenvolvimento que reconhece o valor do trabalho criativo, artístico, técnico e empreendedor, promove a inclusão produtiva das juventudes, fortalece a sustentabilidade dos territórios e contribui para o bem-viver de suas populações.
Investir em cultura e economia criativa não é escolher entre desenvolvimento e direitos. É compreender que ambos podem caminhar juntos e que a riqueza de um país também se mede pela capacidade de transformar conhecimento, imaginação e diversidade em oportunidades para sua população. O Brasil criativo já existe. O desafio é construir as condições para que essa potência se traduza em mais trabalho, renda, inovação, soberania cultural e desenvolvimento sustentável. E viva o Brasil Criativo!
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