conheça Janones, o fenômeno das redes — Passou fome e chegou à Câmara
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Consulte formatos e valores disponíveisNo começo do ano, Lula apostava todas as fichas na eleição mais fácil da história. No Sudeste, Rodrigo Pacheco em Minas, Eduardo Paes no Rio e Fernando Haddad em São Paulo fariam palanque para o presidente. Somada à fidelidade do eleitor nordestino, essa aliança garantiria uma vitória tranquila.
Janones pensava diferente. Para ele, a esquerda estava cega, aquela seria a eleição mais difícil desde a redemocratização e Flávio Bolsonaro era o adversário mais duro da direita.
Ele chegou a essa conclusão num elevador. Janones conta nos bastidores que um dia ficou frente a frente com Flávio e se preparou para o troco por anos de combate ao bolsonarismo. Encontrou um carioca brincalhão, que só pediu que ele “pegasse um pouco mais leve”. Ali percebeu que Flávio era menos ideológico que o resto da família e, por isso mesmo, o adversário mais perigoso, porque o jeito carioca seduz.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles As urnas deram razão a ele. No dia 4 de outubro, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Quem vê Janones gritando “urgente” o dia inteiro talvez desconheça que, na vida dele, tudo sempre foi urgente.
A história começa com um casal improvável. Ela tinha 24 anos. Ele tinha 52, era cadeirante e vivia de uma aposentadoria de um salário mínimo. “Essa história é a história de amor que deu origem a mim”, conta o deputado. O pai morreu quando André tinha dez meses. A mãe, Divina, criou sozinha os dois filhos trabalhando como empregada doméstica.
O menino de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, andava seis quilômetros para estudar. Para bancar a faculdade de Direito, virou cobrador de ônibus. “Eu acordava 4 horas da manhã, chegava na garagem 5 e meia, pra 6 horas começar o trabalho como cobrador, e ficava até 2 horas da tarde sem comer absolutamente nada”, lembra. “Eu conhecia a fome. Deixou traumas? Deixou.”
Ele credita o que conquistou aos programas sociais dos governos Lula e fez da vida uma jornada de gratidão. A conhecidos, costuma repetir que quem passa fome perde o medo de qualquer coisa.
Formado, Janones reservava um dia por semana para atender de graça quem precisava de cirurgia ou tratamento e esbarrava na fila. Quando a Justiça demorava, ia pessoalmente cobrar e fazia barulho. “Antes, quando eu não fazia o barraco, as pessoas morriam esperando atendimento. Aí eu percebi, quebrar o pau salva vida?”
O estilo o tornou conhecido em Minas e, em 2018, fez dele a voz da greve dos caminhoneiros, mesmo sendo advogado. No mesmo ano, foi eleito deputado federal pelo Avante, com 178 mil votos.
Em 2022, Janones se lançou candidato a presidente. No meio da campanha, desistiu para apoiar Lula e ficou ao lado dele desde então. Virou um dos principais nomes da campanha nas redes e se reelegeu com quase 239 mil votos, o segundo mais votado de Minas. Depois da vitória, o petismo se esqueceu dele. A atuação decisiva rendeu apenas um tapa nas costas e um obrigado.
No fim de 2025, com o Avante já majoritariamente de direita, passou meses entre convites do PDT, PSB, PT e Rede. Escolheu a Rede porque teria mais voz. Virou líder do partido e ganhou assento na reunião de líderes da Câmara, ao lado de Hugo Motta, Doutor Luizinho, Isnaldo Bulhões, Pedro Uczai e Sóstenes Cavalcante.
O estilo tem custo. Em julho de 2025, Janones xingou Nikolas Ferreira (PL-MG) durante um discurso no plenário e chamou os bolsonaristas de “capachos” e “vira-latas”. A Mesa da Câmara pediu seis meses de suspensão. O Conselho de Ética aprovou três. Na defesa, ele disse ter sido agredido fisicamente por deputados do PL. Foi também Janones quem colocou em Nikolas o apelido de “chupetinha”, e ele sustenta a provocação. “Eu posso chamar o deputado chupeta de chupetinha, sim.”
Longe dos microfones, o personagem muda. Janones é evangélico, e seus pastores e conselheiros são dois dos nomes mais conhecidos e mais incômodos do protestantismo brasileiro, Caio Fábio e Ed René Kivitz.
Os dois pregam o Jesus de Nazaré dos Evangelhos, que andava com pobres e excluídos e reservava as palavras mais duras para os poderosos e os religiosos de fachada. Um Jesus distante do que se ouve nos púlpitos bolsonaristas, da teologia da prosperidade e da guerra cultural.
Caio Fábio conduz o Caminho da Graça, movimento que rejeita a religião como sistema de cobranças e põe a graça no centro. Para ele, o amor de Deus se recebe de graça. Crítico do próprio meio, diz que os evangélicos “fizeram por merecer” a má fama.
Ed René Kivitz lidera a Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, desde 1989. Ele e Janones compartilham uma perda precoce. Ed René perdeu o pai aos dois anos e foi criado pela avó, que dirigia um orfanato. Teólogo e mestre em Ciências da Religião, é um dos principais nomes da Missão Integral, corrente protestante que une fé e justiça social. Defende uma igreja independente do poder e gosta de citar Martin Luther King. “A igreja não é amiga do Estado, ela é a consciência do Estado.”
Para quem passou fome, esse Jesus ao lado dos pobres faz parte da própria história.
Janones dorme cedo, acorda cedo e mantém os pés no chão desde o primeiro mandato. Fica longe das festas e dos eventos da alta sociedade de Brasília.
Pouco antes dos 38 anos, a médica disse que ele estava pré-diabético e receitou um remédio. Ele jogou a receita fora e mudou de vida. Ajustou a alimentação, entrou na musculação e no boxe e começou a correr. “Quatro anos atrás eu não concluía 5 km nem em pensamento”, escreveu. Hoje corre 10 km três vezes por semana e pretende se preparar para a primeira meia maratona depois da eleição. No check-up seguinte, a médica elogiou o “condicionamento de atleta” e atribuiu o resultado ao remédio. Ele contou então que a receita tinha ido para o lixo. Na rotina ainda cabem aulas de forró.
Em 2026, ele apresentou o PL 3127/26, que chamou de “Pix devolvido”, para proteger principalmente os idosos, as maiores vítimas dos golpes de WhatsApp. Pelo projeto, o banco devolve o dinheiro em até cinco dias úteis depois da contestação, mesmo se o valor ficar com o golpista. A ironia é que são justamente os idosos que produzem alguns dos memes mais engraçados do Instagram, seguindo à risca cada comando que o deputado dá nas redes.
O PT levou anos para reconhecer as estratégias digitais de Janones. Só depois de perder o primeiro turno o partido se rendeu ao homem que criou o “Exército do Lula”, um canal de WhatsApp que passou de 50 mil para mais de 1 milhão de inscritos em dois dias.
Flávio, o mais esperto da família e o único que sempre levou Janones a sério como adversário, jogou duro e pediu ao TSE a derrubada do canal. No dia 11 de outubro, o presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, mandou suspendê-lo. Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o canal. Em seguida, a análise técnica do próprio TSE apontou ausência de notícias falsas específicas no conteúdo.
O efeito foi o oposto do pretendido. “Obrigado, Flavinho”, provocou Janones. Nesta semana, o Exército do Lula passou de 5 milhões de seguidores. Quando o número apareceu na tela, Janones estava na estrada. Parou no acostamento ali mesmo e gravou um vídeo de agradecimento. “Nós somos 5 milhões de soldados no Exército do Lula”, comemorou.
Depois de anos de redes dominadas pela direita, a esquerda enfim tem uma voz que alcança multidões. Ela grita “urgente” o dia inteiro para 5 milhões de pessoas que pararam a vida para tentar reeleger Lula. A maioria se parece com ele, gente que conheceu a fome, tirou um diploma graças a um programa social e subiu na vida pela educação.
Ele mesmo pagou um preço. Reeleito para o terceiro mandato, teve 78.780 votos, um terço do que teve em 2022. No último dia de campanha, em vez de pedir votos em Minas, estava em São Paulo pedindo votos para Lula.
Pelas pesquisas, Flávio chega à reta final como favorito. Quaest e Datafolha mostram o senador com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula, uma diferença dentro da margem de erro. Se a virada vier, o grito de “urgente” ficará para sempre na memória do Palácio do Planalto.
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