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como o caldo de insatisfação dos jovens da geração Z se espalha pelo continente — Europa em chamas

Acompanhe os detalhes e principais informações apuradas sobre este caso.

Por Redatores da Empire Cidades 23 de outubro de 2026 às 09:00
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como o caldo de insatisfação dos jovens da geração Z se espalha pelo continente — Europa em chamas
Foto: Divulgação / Redação Empire Cidades
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Priorize VEJA no Google Ler Resumo A Geração Z na Europa se levanta em protestos massivos, da França à Itália, contra a falta de perspectivas, alto custo de vida e políticas que desfavorecem os jovens. O movimento, marcado por atos pacíficos e vandalismo, reflete uma “gerontonomia” onde os mais novos pagam a conta. Entenda o impacto eleitoral e a nova dinâmica digital. Este resumo foi útil?

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

A triste imagem de prédios públicos e carros consumidos pelas chamas é a face mais visível de uma crise que começou na França e ganhou as ruas de outras cidades europeias. O movimento é embalado por protestos de pauta variada, embebida de um mesmo caldo de insatisfação: os jovens da geração Z, na vanguarda das manifestações, estão fartos de olhar para o horizonte e não enxergar perspectiva de vida melhor, em economias paralisadas. O pavio acendeu-se primeiro em Paris, com alunos do ensino médio insurgidos contra más condições no ensino, em onda que tomou impulso ao longo de semanas até que, no sábado 17, desembocou em uma marcha nacional que reuniu meio milhão de pessoas e logo se irradiou pelas vizinhas Bélgica e Itália, além de Grécia, Albânia e Portugal, adicionando fermento ao levante já instalado em toda a Espanha.

Embora a maioria esteja imbuída do louvável propósito de agitar pacificamente suas bandeiras, o que é esperado e salutar em democracias bem estabelecidas, uma minoria extremista e ruidosa deixou um rastro de destruição que acabou por conferir contornos sombrios à onda de protestos. Na França, os chamados casseurs , uma turma mascarada e com óculos de esqui, puseram abaixo a torre do relógio de Limoges, uma joia neorrenascentista, depredaram em Marselha o busto de Marianne, símbolo da república francesa, e saquearam lojas de grife em diferentes cidades. Na Itália, a grita contra o alto custo de vida e cortes de verbas na educação moveram multidões, que empunhavam faixas com os dizeres “façamos como na França”. A demonstração, também lá, resvalou para o vandalismo. A Piazza del Duomo de Milão, onde fica a bela catedral, foi inundada por barricadas, e a elegante Galleria Vittorio Emanuele, ali ao lado, registrou saques em série. São episódios que constrangem os próprios manifestantes. “Nosso movimento é pacifista e não pode ser diminuído pela violência”, diz Elwan Benoît, de 17 anos, que virou um dos mais vocais (e viralizados) nomes das ruas parisienses.

Confrontos com a polícia proliferaram, produzindo milhares de prisões e cenas de brutalidade de lado a lado, alheias às raízes pacíficas dos atos. As autoridades, é claro, entraram em cena. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, enviou 500 militares a Milão e lançou um pacote, já alvo de polêmica, batizado de “antitumulto”. Ele eleva a pena para os que incitarem a estupidez, autoriza a prisão de adolescentes entre 14 e 17 anos envolvidos em atividades suspeitas e prevê que os pais paguem por danos causados pelos filhos. “Não há nada de revolucionário em vandalizar e roubar. Vandalismo e roubo não são protestos, são crimes”, declarou Meloni, coberta de razão. Emparedado pelas desfavoráveis circunstâncias e com a popularidade em queda livre, o presidente francês Emmanuel Macron foi mais vago. “Aqueles que tentarem derrubar a república serão responsabilizados”, disse, e impôs toque de recolher em dezenas de cidades.

De uma ponta a outra da Europa, as reivindicações da juventude compõem um vasto leque — ela cobra moradia acessível, passe livre no transporte público, redução de mensalidades na universidade, investimento em escolas sucateadas, iniciativas para a entrada no mercado de trabalho e menos corrupção e mais ação dos políticos, nos quais não mais acredita. Na Espanha e em Portugal, onde os aluguéis dobraram em uma década, a fúria contra as hordas de turistas, que fazem encarecer o dia a dia ao pressionar a inflação, se desdobrou em acampamentos em praças icônicas — a Puerta del Sol, em Madri, e a D. João I, no Porto. A avalanche de mal-estar estendeu-se à Bélgica, onde jovens se levantam contra os salgados preços do ensino superior, e à Albânia, nação ao leste em que a “revolução dos flamingos” exige a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, há mais de uma década no comando. “Por trás das pautas específicas, reside uma insatisfação generalizada com quem está no poder, grupo que as novas gerações entendem estar desconectado de suas aspirações e preocupações”, diz a cientista política Pauliina Patana, da Universidade Georgetown.

Em torno das crescentes manifestações, repousa uma engrenagem de natureza demográfica e econômica que o renomado cientista político Tim Vlandas, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, batizou de “gerontonomia”. Em um continente com crescimento econômico arrastado e expansão da população grisalha, as aposentadorias e pensões têm peso estratosférico nas finanças públicas — um item difícil de reduzir, atrelado ao engessado rol dos direitos adquiridos. Os cortes, portanto, acabam incidindo sobre a juventude, ressentida de não mais poder sonhar com a casa própria nem tampouco receber a formação que credenciou seus pais e avós a bons postos. Eles têm então a sensação de pagar a conta estando de fora do palco das decisões, o que se observa nas bandeiras que vêm agitando. “Se vocês tiram o nosso futuro, nós bloqueamos o seu presente”, dizia uma delas, avistada em Milão.

O endividamento público nas alturas torna o cenário ainda mais complicado: Grécia, Itália, França, Bélgica e Espanha, países no epicentro dos protestos, acumulam as cinco maiores dívidas da União Europeia (UE), entre 100% e 140% do PIB, e estão às voltas com o duro desafio de enxugar seus generosos (e onerosos) sistemas de bem-estar social. “O conflito é inevitável, uma vez que diferentes gerações têm interesses econômicos muito distintos”, avalia Vlandas, de Oxford. A forma como tal choque se desenrola, aliás, vem chamando atenção por dissolver a imagem típica da turma Z, encerrada em seus quartos de olho nas telas e com pouca disposição para pôr os pés no mundo lá fora. O que se vê agora é o celular convertido em instrumento de organização e combate: é ali que os jovens coordenam os chamados flickering protests , as aglomerações-relâmpago que paralisam quarteirões e se dispersam antes da chegada da tropa de choque.

Fora da Europa, a vigorosa campanha movida na Índia pelo partido jovem CJP, que adotou baratas como símbolo após o governo do premiê Narendra Modi comparar os manifestantes a insetos, revelou a mesma destreza digital e já forçou a renúncia do ministro da Educação. Os que hoje marcham nas ruas não são os primeiros a expor seu descontentamento. Entre 2024 e 2025, praças e avenidas de Bangladesh, Nepal e Madagascar foram inundadas de gente com força suficiente para derrubar governos. “O combustível desse novo ativismo não é ideológico, mas as dores da vida cotidiana, que transcorre em meio à necessidade de maior austeridade, às crises climáticas e a guerras”, afirma a cientista política Donatella della Porta, da Escola Normal Superior de Pisa.

A atual onda de indignação explodiu justamente às vésperas de um ciclo eleitoral que definirá quem estará à frente de quatro dos cinco países mais populosos da UE (França, Itália, Espanha e Polônia) e favorece o avanço da extrema direita. Em solo francês, a seis meses da eleição em que terá de deixar a Presidência, por não poder ser reeleito, Macron representa um centro político cada vez mais desidratado, e quem lidera o páreo nas pesquisas é a ultranacionalista Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional. “Os protestos devem impactar o resultado nas urnas, resta saber em que medida”, diz João Nyegray, professor de relações internacionais da PUCPR. O que virá depois das chamas ainda é uma incógnita. Por ora, elas não dão sinais de apagar.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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