Atualização: Sucessão, Tecnologia e Crédito Desafiam Nova Geração do Agro
O 1º Under30 Summit Brasil reuniu Diana Jank, Fabiane Kuhn e Henrique Galvani para discutir gargalos do setor, da falta de conexão entre campo e cidade à seleti

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Consulte formatos e valores disponíveis“O jovem não é apenas o futuro, ele é o presente”, disse Fabiane Kuhn, fundadora da Raks Tecnologia Agrícola. Ela resume um dos principais recados do painel The New Agripreneurs: A nova geração que está reinventando o campo, realizado na quinta-feira (29), durante o primeiro Forbes Under 30 Summit Brasil, em São Paulo.
O painel foi o destaque da editoria Agro. O encontro foi realizado no JW Marriott e reuniu empreendedores, líderes e talentos que estão transformando negócios, mercados e a sociedade. O evento foi apresentado pela jornalista Fabiana Scaranzi e com patrocínio de Omoda & Jaecoo e Johnnie Walker, e parcerias oficiais de MCI e JW Marriott.
O debate colocou em pauta os desafios da sucessão geracional, da adoção de tecnologia nas propriedades rurais e do financiamento de negócios inovadores em um ambiente de juros elevados e maior seletividade do capital.
Na abertura, Vera Ondei chamou atenção para o problema geracional do setor. Segundo os números apresentados pela mediadora, cerca de 11% da população ocupada no campo tem menos de 35 anos. A combinação entre a relevância econômica do agronegócio e a baixa participação de jovens abre espaço para novos negócios e soluções capazes de responder às necessidades da produção de alimentos.
A discussão apontou, assim, para uma agenda que combina renovação de lideranças, inovação ajustada às condições do campo, diversificação das fontes de financiamento e maior transparência na relação com a sociedade. O desafio colocado pelos empreendedores é fazer com que tecnologia, capital e capacidade de gestão cheguem à ponta da cadeia e contribuam para a competitividade do agronegócio brasileiro.
A distância entre o desenvolvimento tecnológico e as condições encontradas nas propriedades rurais foi um dos pontos centrais do debate. Fabiane Kuhn contou que sua aproximação com o agronegócio começou em 2015, durante o ensino médio técnico em eletrônica, quando a crise hídrica brasileira despertou seu interesse pela gestão da água na agricultura.
A partir de pesquisas sobre o uso de tecnologia para apoiar decisões de irrigação, Kuhn desenvolveu o projeto que daria origem à Raks, empresa especializada em sensores de umidade do solo. A passagem do laboratório para o campo, porém, mostrou dificuldades que não apareciam nos testes iniciais.
“Há gargalos severos de conectividade e logística. Coisas que na cidade tomamos como garantidas chegam ao campo e simplesmente inexistem”, afirmou. A empreendedora relatou que a primeira versão de um equipamento, testada em ambiente urbano, não resistiu a um único dia de chuva na fazenda. A falta de sinal de internet também exigiu adaptações técnicas.
A experiência mudou a maneira de desenvolver o produto. “O nosso maior choque foi justamente entender como precisávamos desenhar um produto pensado naquele público e começar por isso, e não começar pela tecnologia para depois tentar empurrá-la para dentro do agro”, disse.
Para Kuhn, a diversidade de culturas, solos e sistemas produtivos brasileiros exige soluções adaptadas às condições de cada operação. A tecnologia, segundo ela, não deve disputar espaço com o produtor, mas ajudá-lo a tomar decisões mais eficientes. “A tecnologia não tem que ser uma competição, ela tem que ser uma aliada dos produtores rurais”, afirmou.
Na frente financeira, Henrique Galvani, da Arara Seed, apontou oportunidades para ampliar as fontes de financiamento do agronegócio, ao mesmo tempo que destacou a pressão exercida pelo custo do dinheiro sobre empresas inovadoras.
“Apesar de os produtores adotarem muita tecnologia em campo, vemos ainda que a gestão de risco do agronegócio é o que tem muito a ser otimizado”, afirmou. Para o empreendedor, a profissionalização da governança e da gestão é uma das frentes que precisam avançar para acompanhar a evolução tecnológica da produção.
Galvani também defendeu o desenvolvimento do crédito privado como alternativa às linhas bancárias tradicionais. “Vemos uma baita oportunidade no crédito privado do agronegócio, saindo da linha tradicional dos bancos de prateleira”, disse.
À frente da Arara Seed, plataforma voltada à captação de recursos para startups do setor, ele relatou que a empresa captou cerca de R$ 45 milhões recentemente. A maior parte de sua base de investidores, segundo o painelista, está concentrada em São Paulo, entre fundos de investimento e grandes corporações, embora os negócios financiados tenham atuação ligada ao campo.
O cenário de juros elevados, no entanto, tornou o capital mais seletivo. “O capital está muito mais seletivo neste momento de altas taxas de juros, o que afoga o empreendedor e faz o investidor buscar correr menos risco”, afirmou Galvani.
Nesse ambiente, a diversificação aparece como um critério importante para reduzir a exposição das empresas a oscilações de mercado e quebras de safra. Negócios concentrados em uma única cultura, como cana-de-açúcar ou grãos, podem ficar mais vulneráveis a mudanças nos preços e nas condições de produção.
O executivo também ressaltou que a expansão de uma solução tecnológica depende de mais do que um produto eficiente. É necessário dimensionar o mercado que pode ser atendido e estruturar canais de distribuição capazes de levar a inovação até as propriedades rurais.
Ao lado da irmã, Jank participou do reposicionamento da Letti A², marca ligada à operação familiar da Agrindus, em Descalvado (SP). A empresa trabalha com leite e derivados, incluindo uma linha produzida com leite A2A2.
“Pela primeira vez na história, estamos precisando fazer comunicação e marketing sobre produção de comida, porque as pessoas perderam a conexão com a origem daquilo que consomem”, afirmou.
Para a empresária, explicar o processo produtivo é parte da estratégia de valorização do alimento. Ela defende a chamada “transparência radical”, com a exposição da rotina da fazenda, da alimentação dos animais e das práticas de manejo e destinação de resíduos.
“Eu acredito muito no conceito de transparência radical: mostrar a realidade, mostrar as vacas na fazenda, o nosso estábulo, a dieta dos animais e o que fazemos com todos os efluentes”, disse.
A iniciativa também busca responder às dúvidas dos consumidores e demonstrar os processos que sustentam a qualidade e a segurança dos alimentos. Na avaliação de Jank, a comunicação precisa traduzir informações técnicas para uma linguagem acessível, sem perder a base que dá credibilidade à produção.
No encerramento, os três painelistas reforçaram que a renovação do agronegócio passa pela entrada de jovens profissionais e pela preparação de novas lideranças. Para Jank, a sucessão é necessária não apenas para dar continuidade aos negócios familiares, mas também para enfrentar o desafio de abastecer uma população crescente com uso eficiente dos recursos naturais.
“Precisamos de sucessão, e é assim que o mundo se transforma: nos transformando junto com ele. É impossível fazer essa revolução sem a juventude se interessando pelo setor”, afirmou Diana.
Kuhn destacou que as novas gerações podem contribuir para responder aos desafios climáticos e à crescente complexidade da produção de alimentos. Já Galvani defendeu que a próxima etapa do desenvolvimento do setor exige maior eficiência em governança, gestão e distribuição de soluções.
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