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Edição Impressa Diminuir fonte Aumentar fonte Guilherme Luis São Paulo Madonna convoca um baile de corpos suados na canção "Danceteria", carro-chefe do álbum "Confessions II", lançado neste ano. Nele, a cantora clama por um retorno à pista de dança depois de a introspecção e a melancolia invadirem a música pop.
Não é só Madonna quem deseja voltar a dançar. Artistas de diferentes gerações vêm recuperando a música de boate, agora com sonoridades experimentais e letras confessionais. A boate ressurge como espaço para libertar o corpo e local de expurgo emocional.
O próprio disco de Madonna narra uma noitada que começa em êxtase e termina com reflexões sobre isolamento e envelhecimento. A faixa "Fragile", por exemplo, fala de luto ao som de batidas dançantes. "Muitos pensam que música para dançar é superficial. Estão enganados. A pista é um espaço de rituais, onde movimento substitui linguagem", ela canta em "One Step Away".
Essa mistura de dança e experimentação marcou ainda os shows recentes de Rosalía, artista que uniu música erudita e ritmos eletrônicos no disco "Lux", do ano passado. No Rio de Janeiro, há dois meses, a espanhola pôs uma orquestra para dançar, com instrumentistas rompendo o decoro tradicional da música sinfônica. A maestra chegou até a rebolar enquanto regia.
Harry Styles também se rendeu a essa nova ideia de balada. Em São Paulo, há três meses, o britânico bailou sem recorrer às coreografias tradicionais de shows de música pop. Ele defendeu que os fãs ali presentes se movimentassem sem amarras a passos ensaiados.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Sair para boates ajudou Styles a se reconectar com a arte, ele vem dizendo. Suas canções novas dialogam com a música eletrônica e com o dance-punk da cena alternativa. Há faixas que combinam percussão marcada e vocais falados, numa sonoridade que pode soar estranha nos fones de ouvido, mas que fica contagiante no palco.
A cultura da noite ganhou novos significados diante das relações modernas entre corpo e mente, segundo Thiago Soares, pesquisador de música e cultura pop da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, e autor do livro "Divas Pop", lançado há cinco anos.
Segundo ele, Madonna agora usa a dança na intenção de extravasar questões ligadas ao envelhecimento, enquanto Styles aproxima o baile da cultura "wellness", associada ao bem-estar e aos exercícios físicos. O cantor britânico se tornou um corredor de maratonas no ano passado.
"O Harry Styles cria uma pista que rivaliza com a antiga cultura da boate da madrugada, das drogas", diz Soares. "Se a pessoa acorda cedo para correr, provavelmente não vai à balada à noite. Essa ruptura é interessante."
O disco recente de Madonna, "Confessions II", dá sequência a um dos mais conhecidos dela, o "Confessions on a Dance Floor", de 2005. À época, a artista cantava sobre libertação e festa, sem o tom dramático da obra atual.
Nos anos 2000 e 2010, a música dance ocupou o centro do pop com canções que privilegiavam o desejo e a celebração do corpo. Britney Spears, Rihanna e Lady Gaga também cantavam sobre sentimentos, mas quase sempre o faziam a partir de uma fórmula, com refrões pensados para ficarem ecoando na cabeça. Hoje isso não tem o mesmo peso.
Beyoncé voltou à energia da boate com uma abordagem experimental ao lançar " Renaissance ", há quatro anos. O house e o disco, gêneros fundamentais para a história da música dançante, estão entre as referências do álbum. Esses sons foram criados em cenas marcadas pela presença de pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos.
Com homenagens a artistas e DJs que ajudaram a construir as baladas, "Renaissance" reivindica o legado de grupos historicamente marginalizados. O disco ganhou o Grammy de melhor álbum de música eletrônica. "A pista serve também como refúgio nostálgico", diz Soares, o pesquisador.
No Brasil, Pabllo Vittar engrossa essa retomada. Em seu disco recém-lançado " Lost in Lust ", a drag queen aposta em referências a nomes da música eletrônica alternativa, como Arca, venezuelana, e Sophie, britânica. As duas subverteram convenções do pop com texturas inusitadas e estruturas distorcidas. "Amo incrementar a boate, como a Rosalía fez ao trazer o erudito", diz Pabllo.
A mistura de sinfonia e pop de Rosalía ajudou a popularizar a maestra cubana Yudania Gómez Heredia, que chama a atenção pelas danças frenéticas nos shows.
Segundo a artista, a música pop cria, por meio do movimento, uma conexão com o público que a música sinfônica ainda não conseguiu. "Precisamos descobrir como fazer as pessoas se sentirem parte das apresentações de música clássica, mesmo que elas não cantem", afirma a regente.
Essa catarse coletiva está no horizonte da roqueira Pitty, que buscou uma sonoridade dançante para o disco que leva seu próprio nome, lançado neste mês. "Fiquei nessa brisa de unir a roda de ‘pogo’ à pista de dança e ver como se comporta", diz ela, em referência às rodas de bate-cabeça comuns nos shows de rock.
O australiano Troye Sivan, por sua vez, vem explorando os inferninhos como espaço de desejo e celebração do amor entre homens. No novo álbum "She’s the Best", ele aposta em sintetizadores e referências ao house em vez de depender de refrões explosivos.
Há um mês, Sivan entregou um troféu a Madonna no Video Music Awards, premiação de videoclipes da MTV, acompanhado da britânica Charli XCX, outra artista ligada à música eletrônica. "Encontrei minha comunidade na pista de dança. Somos todos iguais nela", disse Madonna, na cerimônia, ao lado dos dois artistas mais jovens.
Isso é simbólico. Charli XCX foi fundamental na reformulação da música dos clubes noturnos e no retorno do gênero ao centro da cultura pop. Há dois anos, ela lançou o disco "Brat", que combina batidas de rave, sintetizadores ásperos e composições sobre inseguranças.
Um dos álbuns mais comentados daquele ano, a obra fez de Charli uma artista pop, não mais alternativa. Ela virou fissura para além da bolha. A cor verde-limão da capa do álbum viralizou nas redes, chegou às vitrines de lojas de roupa, a desfiles e propagandas de grandes marcas.
Até a democrata Kamala Harris, à época disputando a Casa Branca com Donald Trump, adotou a cor para sua fracassada campanha política.
Charli deu vazão a um desejo de libertação que ganhou força depois da pandemia, diz Pedro Athie, produtor da Tesãozinha Inicial, festa de música eletrônica em São Paulo. "Ela quis mostrar uma pista de dança crua, não militante como a da Beyoncé."
Essa vulnerabilidade, no entanto, sempre fez parte da identidade artística de Charli XCX. Ela estreou em 2013 com "True Romance", álbum de atmosfera sombria, e voltou a abordar ansiedade e isolamento num disco lançado em 2020. No recente "Brat", a confissão convive com a dança.
A introspecção que marcou Charli XCX ganhou força com Billie Eilish, hoje um dos principais nomes do pop. O álbum de estreia dela, sobre sofrimento e depressão, levou em 2020 os quatro principais prêmios do Grammy.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de link Cadeado representando um link Copiar link Ícone fechar Carregando... Curiosamente, a própria Eilish se aproximou das batidas da noite. Há dois anos, ela participou de "Guess", de Charli XCX, faixa eletrônica de letra sensual.
Agora, outras artistas voltam a apostar nessa estética. No mês passado, Miley Cyrus lançou "Bass Persuades", em que canta sobre se inebriar em boates. "As crianças pararam de dançar", ela lamenta num refrão frenético.
Na mesma semana, a americana Demi Lovato transformou o Rock in Rio em boate ao ar livre com um show dedicado a "It’s Not that Deep", disco de música eletrônica que sucede um de rock.
Em "Here All Night", Lovato faz uma reverência à DJ que aumenta as batidas, o que, na letra, ajuda alguém a superar um antigo amante. É exemplo de como a figura do DJ, antes associada a homens, ganhou protagonismo entre as divas pop.
A drag Pabllo Vittar, por exemplo, tem trabalhado como DJ em festas ao redor do mundo. Já a britânica Charli XCX viajou a São Paulo só para discotecar na boate Zig. Não cantou no evento. Foi sua última passagem pelo país, há dois anos. Ela deve retornar com um show completo no festival Lollapalooza do ano que vem.
Em abril deste ano, Charli XCX afirmou que as boates já haviam morrido, às vésperas de lançar um disco voltado à música alternativa. A declaração foi criticada por seus fãs e até por Madonna.
Fosse só uma provocação ou estratégia de divulgação, a própria Charli parece ter revisto essa impressão. No mês passado, ela se uniu a Madonna num remix da faixa "Danceteria". As duas vinham saindo juntas para curtir noitadas.
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