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Consulte formatos e valores disponíveisGasolina escorre do bico de uma bomba de combustível em um posto da Petrobras, em Brasília7 de março de 2022REUTERS/Adriano Machado Imagem: ADRIANO MACHADO/Reuters A disparada do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode chegar ao bolso dos motoristas brasileiros. A forte valorização da moeda americana nesta segunda-feira (26) aumenta a pressão sobre os preços da gasolina e, principalmente, do diesel, que já estavam abaixo das referências internacionais nas refinarias da Petrobras.
Economistas ouvidos pelo UOL Carros avaliam que o risco de reajustes cresceu, embora divirjam sobre a possibilidade de aumentos nas próximas semanas.
No primeiro pregão após o segundo turno da eleição presidencial, o dólar chegou a superar R$ 5,60, uma valorização de aproximadamente 12% em relação ao fechamento de sexta-feira (23), quando estava cotado a R$ 4,99. Ao longo do dia, a moeda perdeu parte da força, mas continuou registrando alta expressiva.
A reação do mercado financeiro reflete uma revisão das expectativas dos investidores sobre a condução da política econômica no próximo mandato, especialmente em relação aos gastos públicos e à situação fiscal do país.
O problema para os combustíveis é que o petróleo e seus derivados são negociados internacionalmente em dólares. Com a desvalorização do real, o custo de importação aumenta, mesmo que as cotações internacionais permaneçam inalteradas.
"O resultado eleitoral não encarece diretamente o combustível. O que importa é como a reação do mercado afeta o câmbio, os custos de importação e as expectativas", explica Tatiana Goes, economista da Silo Multi Family Office.
Segundo ela, o impacto sobre os preços dependerá principalmente da duração da alta do dólar, das cotações internacionais e das decisões comerciais das refinarias.
Entre os combustíveis, o diesel aparece como o mais vulnerável. Isso acontece porque o Brasil depende de importações para complementar a produção nacional, o que torna o abastecimento mais exposto às oscilações do mercado internacional.
O governo federal anunciou hoje que vai renovar por mais 30 dias a subvenção de R$ 2,12 por litro do óleo diesel. Segundo o Ministério do Planejamento, a isenção será financiada pelas receitas extraordinárias do combustível.
A pressão sobre os combustíveis já existia antes da eleição. Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), divulgado em 23 de outubro, a defasagem média do diesel vendido pela Petrobras atingiu R$ 3,53 por litro, equivalente a 108% do preço doméstico utilizado na comparação. Isso significa que a referência para importação estava mais que o dobro do valor praticado pela estatal em suas refinarias.
Na gasolina, a diferença era menor, mas também significativa. Dados da associação referentes a 23 de outubro apontavam uma defasagem de R$ 0,58 por litro, ou 19%. Com o dólar mais caro, essa diferença pode aumentar, caso não haja uma compensação pela queda dos preços internacionais dos derivados.
"O risco existe, principalmente se essa valorização do dólar se mostrar persistente. Minha atenção está mais voltada para o diesel, porque o Brasil ainda depende de importações para complementar a oferta doméstica", afirma o economista Tiago Velloso.
Ele ressalta, entretanto, que a existência de uma defasagem não significa que a Petrobras necessariamente anunciará reajustes nas próximas semanas.Além de atingir diretamente os motoristas de veículos a diesel, um eventual aumento teria consequências mais amplas para a economia. Como grande parte das mercadorias brasileiras é transportada por rodovias, o combustível mais caro pode elevar os custos dos fretes e pressionar os preços de alimentos e outros produtos.
A Petrobras não segue automaticamente todas as oscilações do câmbio e do petróleo internacional. Desde 2023, a companhia adota uma estratégia comercial que permite suavizar movimentos de curto prazo e considera diferentes referências de mercado. Isso significa que a alta do dólar não precisa ser repassada imediatamente aos preços cobrados das distribuidoras.
No entanto, os economistas alertam que existe um limite para essa estratégia, especialmente quando os preços domésticos permanecem muito abaixo dos custos de importação.
"Se a defasagem entre preços domésticos e internacionais ficar elevada e persistente, a estratégia tende a se tornar economicamente difícil de sustentar", explica Ari Francisco de Araujo Junior, coordenador do curso de Ciências Econômicas do Centro Universitário Ibmec BH.
O especialista lembra que há alternativas capazes de retardar o impacto nas bombas, como a utilização de estoques adquiridos anteriormente, a redução das margens de distribuição e a decisão das refinarias de postergar reajustes. Mas a manutenção dessas condições depende do comportamento do mercado nos próximos dias.
Além da política de preços da Petrobras, o governo federal vem utilizando recursos públicos para tentar conter a alta do diesel. Uma das principais medidas é a subvenção econômica, mecanismo pelo qual a União paga uma compensação financeira a produtores e importadores que aderem ao programa e comercializam o combustível dentro das condições de preço estabelecidas.
O objetivo é permitir que o diesel seja vendido por um valor menor do que seria praticado sem o benefício, reduzindo a pressão sobre os preços e ajudando a garantir o abastecimento.
A medida começou a ser adotada em março de 2026, em resposta à disparada dos preços internacionais provocada pelas tensões no Oriente Médio. Inicialmente, o governo estabeleceu uma compensação de R$ 0,32 por litro. Ao longo dos meses seguintes, o mecanismo passou por alterações, encerramento de programas anteriores e novas autorizações, acompanhando as oscilações do mercado internacional.
Em setembro, o governo voltou a estabelecer uma subvenção temporária para produtores e importadores, com valor inicial de R$ 1 por litro. Já em 9 de outubro, anunciou um reforço específico para o diesel importado: mais R$ 1,40 por litro, durante 30 dias, somados aos R$ 2,12 por litro de benefício então vigente para os importadores. Com isso, a compensação poderia chegar a R$ 3,52 por litro, com custo adicional estimado pelo Ministério da Fazenda em R$ 1,6 bilhão no período.
O governo também prorrogou por mais um mês a desoneração dos tributos federais sobre a gasolina e o etanol. Nesse caso, o mecanismo é diferente: em vez de pagar uma compensação às empresas, a União deixa de cobrar determinados impostos sobre os combustíveis.
Como essas medidas são temporárias, sua continuidade depende de novas decisões do governo e da disponibilidade de recursos públicos. Se os benefícios forem reduzidos ou encerrados em um momento de dólar e petróleo elevados, a pressão por repasses aos preços domésticos poderá aumentar.
Para Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, o cenário é mais preocupante. Ele acredita que haverá aumento dos combustíveis diante da combinação entre dólar elevado, pressões internacionais sobre o petróleo e limitações fiscais do governo.
Na avaliação do especialista, o espaço para ampliar os subsídios aos combustíveis será limitado pela necessidade de recuperar a confiança dos investidores na política econômica.
"Não vejo a possibilidade de um subsídio adicional ao diesel e à gasolina agora, neste momento em que o governo precisa mostrar algum compromisso fiscal", afirma.
Passero também aponta o conflito entre Estados Unidos e Irã como um fator de risco. Segundo ele, uma eventual retomada ou intensificação dos ataques americanos após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos poderia provocar uma nova valorização do petróleo.
"Caso os Estados Unidos ataquem de fato o Irã após as eleições de meio de mandato, a gente vai ter uma alta adicional no petróleo e uma alta no diesel e na gasolina", avalia.
O economista também prevê que a combinação de combustíveis mais caros e câmbio elevado poderá contribuir para uma aceleração da inflação até o fim de 2026 e ao longo de 2027.
Apesar do cenário de pressão, os combustíveis ainda podem permanecer estáveis, mesmo com o dólar mais caro. Isso aconteceria, por exemplo, se as cotações internacionais do petróleo e de seus derivados recuassem o suficiente para compensar a desvalorização do real.
Há uma diferença importante entre o preço do petróleo bruto, medido por referências como o Brent, e o preço dos combustíveis refinados. Gasolina e diesel possuem mercados internacionais próprios, que também são influenciados pela capacidade das refinarias, estoques e demanda.
"Podemos ter uma queda do barril sem uma redução equivalente no diesel, por exemplo. Por isso, analisar apenas o petróleo bruto pode levar a uma conclusão equivocada sobre os preços nas refinarias", explica Velloso.
Tatiana Goes também considera precipitado tratar a alta do dólar como permanente. Segundo ela, a trajetória da moeda dependerá das decisões econômicas do governo, da confiança dos investidores e de fatores externos, especialmente os juros americanos.
O resultado é que, por enquanto, não existe um percentual de aumento definido para gasolina ou diesel. Mesmo uma elevação nos preços das refinarias não seria necessariamente repassada integralmente aos consumidores, já que o valor cobrado nos postos também depende de tributos, margens de distribuição, revenda e mistura de biocombustíveis.
O que os especialistas consideram decisivo agora é saber se a disparada do dólar será uma reação passageira ao resultado eleitoral ou se a moeda permanecerá elevada por um período prolongado.
Quanto mais tempo o câmbio e os preços internacionais permanecerem pressionados, maior será a dificuldade de manter os combustíveis nos patamares atuais.
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