Atualização: Faz o L
O torneiro mecânico que virou líder sindical e rompeu barreiras ao chegar ao poder, deixou o Planalto nos braços do povo, foi preso por corrupção, teve suas con

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Consulte formatos e valores disponíveisO Brasil resolveu, pela quarta vez, eleger Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República. O torneiro mecânico que virou líder sindical e rompeu barreiras ao chegar ao poder, deixou o Planalto nos braços do povo, foi preso por corrupção, teve suas condenações anuladas pela Justiça e retornou ao comando do país em meio a desconfianças, mostrou, mais uma vez, por que é protagonista da política brasileira desde o fim dos anos 80. Lula tem a rara habilidade de inspirar confiança, traduzir em discurso os anseios de uma parcela expressiva da população e demonstrar a resiliência de quem se recusa a aceitar a derrota como destino.
Mas a vitória eleitoral não apaga as contradições de uma trajetória, assim como a derrota não encerra necessariamente a vida política de ninguém. O quarto mandato, que se estenderá até 2030, começará sob condições muito diferentes daquelas encontradas pelo presidente em suas passagens pelo poder.
Em 2003, Lula assumiu com a economia relativamente equilibrada e a inflação sob controle, depois da estabilização promovida pelo Plano Real. Havia, naquele momento, espaço para ampliar o consumo, estimular o emprego e aproveitar uma conjuntura internacional favorável. Em 2023, seu retorno ocorreu sob o peso de uma polarização política profunda e de um discurso que, em diversos momentos, pareceu dedicar mais energia à revisão das disputas do passado do que à construção de uma agenda capaz de preparar o país para o futuro.
O resultado foi um terceiro mandato que ficou aquém das expectativas de quem esperava uma reconstrução capaz de reconciliar crescimento, equilíbrio fiscal e pacificação política. Na economia, o governo passou a conviver com cobranças crescentes sobre o aumento das despesas e dos impostos, a trajetória da dívida pública e a dificuldade de transmitir segurança quanto ao futuro das contas nacionais.
Na reta final da campanha, a multiplicação de anúncios e benefícios reforçou a impressão de que o calendário eleitoral havia adquirido importância excessiva na definição das prioridades do governo. A lembrança do período de Dilma Rousseff, antiga aliada de Lula, surge quase inevitavelmente. Foi durante seu segundo mandato que a deterioração econômica, a recessão e a crise política se aprofundaram, culminando no impeachment de 2016. A história não se repete por regra, mas costuma cobrar caro de quem ignora suas advertências.
O primeiro aviso veio cedo. Na segunda-feira seguinte à eleição, os mercados brasileiros registraram uma reação severa ao resultado das urnas. O Ibovespa chegou a recuar 17% durante o pregão, levando a B3 a acionar o mecanismo de interrupção temporária das negociações. Ações despencaram e o dólar disparou. O movimento refletiu a preocupação de investidores com a continuidade da política fiscal e a incerteza sobre os rumos econômicos do próximo governo.
Haverá quem diga que a bolsa de valores e o dólar pertencem a um universo distante da realidade dos mais pobres. É um engano. A desvalorização do real pode encarecer produtos importados, insumos industriais, combustíveis e componentes utilizados pela produção nacional. Se essas pressões forem repassadas aos preços, a inflação poderá corroer ainda mais o poder de compra justamente de quem dispõe de menos recursos para se defender.
Lula venceu. A democracia decidiu. Cabe ao presidente, agora reeleito, compreender o tamanho da responsabilidade que recebeu. O voto lhe concedeu mais quatro anos de poder, não um salvo-conduto para repetir erros do passado. O tempo dirá se Lula compreendeu o recado. E, como quase sempre acontece na política, o tempo não cobrará a conta no gabinete presidencial. Cobrará na vida real, onde o povo não pode simplesmente apertar um botão e escolher outro preço para o arroz, outra taxa para o crédito ou outra direção para a economia.
Cuida - É preciso reconhecer a grande campanha feita por Carlos Eduardo Xavier, o Cadu de Lula. Antes mesmo da disputa começar, chegou a ser tratado com desdém pelo mundo político, apontado como descartado pela maioria das pesquisas ainda no primeiro turno e a ver integrantes do seu próprio grupo político sem muita crença no seu sucesso. Trabalhou em silêncio, soube vender esperança de dias melhores e, humildemente, jamais tirou os pés do chão. Algo que faltou e muito a Allyson Bezerra.
Acerto - Há ainda um outro acerto estratégico e que pode ter sido fundamental para o êxito de Cadu. O governador eleito abraçou seus líderes sem medo do desgaste desde o primeiro minuto da campanha. Ao contrário, por exemplo, de Álvaro Dias que passou boa parte do primeiro turno distante de Flávio Bolsonaro e só percebeu o erro que havia cometido após a movimentação histórica que o presidenciável realizou em Natal. Era tarde demais. O eleitor não conseguiu identificar no RN quem era o candidato da direita.
Lados opostos - Exatamente pela falta de identificação clara de um dos lados é que a tal polarização nacional não chegou ao RN. Não há como saber se de fato ocorreria, mas a ausência de um candidato que defendesse o grupo e seu líder a nível nacional, é indiscutivelmente o principal fator para isto. Já do outro lado, mesmo sob a sombra do desgastado governo Fátima, Cadu preferiu ser fiel aos seus líderes. E acabou sendo recompensado por isso.
Novos tempos - O processo eleitoral recém encerrado, por falar em polarização, deixa algumas lições para parte do mundo político potiguar. Quem se posiciona, escolhe seu grupo e sai em defesa das suas pautas e dos seus aliados, acaba naturalmente sendo reconhecido pelos eleitores do seu espectro ideológico. Cadu para o Governo, Samanda para o Senado, Bonavides, Girão e Gonçalves para a Câmara e Coronel Azevedo para a Assembleia são claros exemplos de que ter lado vale a pena.
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