Atualização: A eleição dos deepfakes, só que não do jeito que a gente antecipou
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Consulte formatos e valores disponíveisDesde 2024 a gente vinha se preparando para um tipo específico de desastre: o deepfake bala de prata. Um vídeo ultrarrealista de um candidato recebendo propina ou numa situação criminosa, solto na véspera da votação, sem tempo pra ser desmentido. As regras do TSE sobre inteligência artificial foram escritas em grande parte com esse vídeo em mente. Mas não houve deepfake como esse durante as eleições.
Por isso, tem quem diga por aí que a eleição dos deepfakes, no fim, não aconteceu. Mas aconteceu, só não do jeito que a gente esperava.
A Agência Lupa confirmou 1.423 conteúdos produzidos ou alterados por IA na campanha, 520 deles deepfakes. O deepfake de IA funcionou nessa eleição exatamente como a desinformação tradicional sempre funcionou: peças simples, nenhuma absolutamente matadora mas que, somadas, causam estrago. São pílulas de conteúdo, cada uma pequena ou aparentemente inofensiva demais para justificar uma ação no TSE, que vão se acumulando e amparando uma narrativa principal sobre o candidato. Ninguém precisa acreditar num vídeo específico. Basta sair com a sensação de que “todo mundo está dizendo” aquilo.
Dois exemplos importantes: o deepfake de Flávio Bolsonaro confirmando corte de pensões, do 13º e do Pé-de-Meia num pronunciamento adulterado, com 200 mil visualizações no X, e um áudio falso de Lula reclamando da entrevista de Roberta Luchsinger, que a perícia apontou como sintético, com 100 mil visualizações e circulação incontável no WhatsApp. Nenhum dos dois derruba, sozinho, uma candidatura. Mas os dois circularam muito e reforçam o que o eleitor de cada lado já desconfiava, ajudando a consolidar narrativas contra cada candidato.
A estratégia de conteúdo em massa que mais usou deepfake, na verdade, foi a dos perfis no TikTok simulando entrevistas de rua. São vídeos de repórteres gerados por IA, de microfone na mão, entrevistando o que parecem ser cidadãos comuns de todo os tipos. Neles, esses cidadãos, todos criados com IA, explicam porque darão seu voto a um candidato ou outro. Em agosto, a agência Aos Fatos já tinha encontrado 50 desses vídeos, com 7,4 milhões de visualizações. O nome desse tipo de estratégia é astroturfing, que é um apoio popular espontâneo de mentira, orquestrado por um grupo de interesse. Agora, uma estratégia dessa só exige um bom prompt e algumas automações espertas.
Vale mencionar também os telejornais manipulados e distorcidos. Os vídeos mais famosos foram o de César Tralli anunciando no Jornal Nacional uma pesquisa que não existe que dava ampla vantagem para Flávio Bolsonaro, e Renata Vasconcellos noticiando um pedido de prisão de Alexandre de Moraes por André Mendonça que, é claro, nunca existiu. Nesses casos, os deepfakes são vídeos verdadeiros desses telejornais, alterados com voz sintética, com ou sem sincronia labial.
E teve, é claro, o uso memético: páginas de meme e de fandom colocando Lula e Flávio em virais e cenas icônicas de novelas, de realities, de shows de diva pop, quase sempre com o Lula como protagonista e o Flávio como perdedor. Esses vídeos cresceram de volume no segundo turno e, ainda que o objetivo deles não seja enganar ninguém, mas sim fazer rir pelo inesperado de colocar os candidatos presidenciais dentro de memes já consagrados, não é tão absurdo supor que alguém sem letramento digital ou sem a referência do meme original possa ficar em dúvida e um pouco confuso depois de assistir.
O que todos esses conteúdos têm em comum é que eles são baratos de fazer e, pelo volume, dificultam muito o combate um a um. A régua do TSE foi desenhada para aquele vídeo “bala de prata”, o grande escândalo eleitoral com prova em vídeo envolvendo um candidato. E conteúdos em pílula, replicados milhões de vezes e com impacto individual pequeno, acabam tendo menos força num pedido judicial de retirada.
Aqui, a camada que resolveria uma boa parte do problema já existe e são as marca d’água invisíveis que as IAs colocam em seus conteúdos - o Google tem o SynthID, a OpenAI embute marca d’água em todo vídeo do Sora. Mesmo com esse identificador automático, falta a decisão de rotular esse tipo de vídeo automaticamente, sem depender do autor avisar. As plataformas conseguem, na maior parte dos casos com facilidade, mas até agora só tem usado esse tipo de reconhecimento como ferramenta para derrubar conteúdo legítimo - o vídeo do canal Revelando com MC Cabelinho, publicado na semana prévia ao segundo turno, não foi feito com IA, mas foi retirado do ar pela Meta sob essa justificativa.
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