A Caixa interrompeu a torneira do Minha Casa, Minha Vida? Vendas do programa perdem fôlego
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Consulte formatos e valores disponíveisA Caixa fechou a torneira do Minha Casa, Minha Vida? Vendas do programa perdem fôlego Distratos sobem, repasses caem e construtoras apontam rigor da Caixa Caixa: Uma greve de funcionários do banco atrasou a assinatura de contratos e a liberação de recursos (Agência Brasil/Reprodução)
Publicado em 22 de outubro de 2026 às 07h34 .
Priorizar nos meus resultados Google Sete em cada dez imóveis vendidos na cidade de São Paulo em agosto estavam enquadrados no Minha Casa, Minha Vida. O programa segue como motor do mercado, mas passou a vender mais devagar. A velocidade de vendas do segmento caiu de 13% em julho para 11,5% em agosto.
Os dados são do Secovi-SP e foram analisados pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME). Para o banco, a explicação está na Caixa Econômica Federal , que passou a aprovar financiamentos com mais rigor para compradores de baixa renda em meio ao alto endividamento das famílias.
A Caixa responde por cerca de dois terços do crédito habitacional do país e concentra praticamente todos os financiamentos do programa. Quando a análise de crédito fica mais lenta ou mais rígida, a venda na planta trava antes de virar dinheiro no caixa das construtoras.
A velocidade de vendas, ou VSO (vendas sobre oferta), mede quanto do estoque disponível foi vendido no período. É um dos principais termômetros do setor.
O aperto ocorreu em etapas ao longo do terceiro trimestre. Em julho, a Caixa reduziu por dez dias o limite de comprometimento de renda permitido aos clientes, de 30% para 27%. Em setembro, uma greve de 19 dias dos funcionários do banco atrasou a assinatura de contratos e a liberação de recursos.
Em São Paulo, os números de agosto mostram um mercado com oferta crescente e vendas que não acompanham o ritmo. Foram cerca de 10 mil unidades vendidas, alta de 37% em um ano, e 17,8 mil lançadas, avanço de 90%.
Com mais lançamentos do que vendas, o estoque chegou a 98 mil unidades, 51% acima de um ano antes. O MCMV respondeu por 77% dos lançamentos e por 71% das vendas do mês.
A VSO da cidade como um todo ficou em 9,9%, abaixo da registrada um ano antes e em julho. O segmento econômico ainda vende mais rápido do que o médio e alto padrão, cuja VSO é de 7,4%, mas foi o principal freio de agosto, segundo o BTG.
A Direcional, uma das maiores construtoras do programa, também sentiu o efeito. Em videoconferência com analistas do Santander , o CEO Ricardo Gontijo apontou a Caixa como o principal motivo para as vendas mais fracas do terceiro trimestre.
Segundo o relatório do banco, publicado nesta terça-feira, 20, a aprovação de crédito demorou mais do que o esperado para se normalizar depois da redução temporária do comprometimento de renda, de 30% para 27%.
A companhia começou o trimestre com vendas fracas em julho, mas o ritmo melhorou mês a mês. Em setembro, as vendas quase dobraram em relação a julho, de acordo com o executivo.
Sem saber como a Caixa iria operar, a Direcional adiou lançamentos. Oito dos dez projetos do trimestre chegaram ao mercado depois de 15 de setembro, com pouco tempo para vender, o que pesou sobre a velocidade de vendas dos lançamentos.
Mesmo com vendas mais fracas, a geração de caixa se manteve sólida, segundo Gontijo, porque reflete principalmente vendas feitas em meses anteriores.
O mesmo movimento apareceu nas prévias de outras construtoras voltadas à baixa renda. Na Tenda , os distratos passaram de R$ 136,2 milhões no terceiro trimestre de 2025 para R$ 292,8 milhões, mais que o dobro.
Os cancelamentos chegaram a 19,4% das vendas brutas, ante 11% um ano antes. A VSO da companhia ficou em 22,8%, abaixo da faixa de 25% a 30% que a própria empresa considera ideal.
A Tenda atribui o resultado a três fatores ligados à Caixa: a greve, a redução temporária do comprometimento de renda e um rigor maior nas entrevistas para concessão de crédito. A companhia trata parte dos efeitos como pontuais.
Na Cury , os distratos subiram 59,3% em um ano, para R$ 358,2 milhões, e passaram a representar 15% das vendas brutas, ante 11% no terceiro trimestre de 2025.
Os repasses, etapa em que o financiamento do cliente é assinado com o banco e o dinheiro chega à construtora, caíram 35,8% frente ao segundo trimestre. Ao mesmo tempo, a Cury ampliou a tabela direta, em que ela própria financia parte do pagamento: a modalidade respondeu por 27,8% das vendas brutas, ante 20,2% na média de 12 meses.
Na MRV , a prévia não detalha os distratos, mas os repasses somaram 7.428 unidades, queda de 16,4% em um ano e de 24,2% ante o segundo trimestre. A companhia estima impacto de cerca de R$ 80 milhões na geração de caixa da incorporação por causa da greve.
Nas vendas, porém, a MRV destoou, com VSO de 25,1%, ante 21,6% um ano antes. Em relatório, o Safra ressalvou que o número foi beneficiado por uma mudança no critério de contabilização das vendas durante a greve.
Para Gontijo, o trimestre não indica uma desaceleração estrutural da demanda. Segundo o relatório do Santander, o executivo avalia que as políticas de crédito da Caixa já estão próximas das praticadas antes da Copa do Mundo, com uma exceção: o Rio de Janeiro.
No Rio, a Caixa está mais conservadora por causa da inadimplência mais alta. A praça representa cerca de 12% das vendas da Direcional, e a companhia já desloca a atuação de áreas suburbanas de menor renda para regiões e produtos mais alinhados aos critérios do banco.
A Direcional tem como meta crescer de 10% a 15% em lançamentos em 2026 e empurrou para o quarto trimestre parte do que planejava lançar no terceiro. Outubro já tem sete projetos no cronograma.
O BTG segue na mesma linha. O banco reconhece que as perspectivas do MCMV pioraram na margem com a Caixa mais seletiva, mas avalia que a demanda continua resiliente, que as condições de compra seguem favoráveis e que há espaço para a concessão de crédito se normalizar.
O próximo teste vem com os balanços completos do terceiro trimestre e com os números de outubro, primeiro mês inteiro após o fim da greve.
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